Teatro Mars, São Paulo (SP), 21 de março de 2000. O Capital Inicial já havia tocado 11 das 14 músicas previstas para aquela noite. Antes de “Fátima”, a antepenúltima do repertório, Dinho Ouro Preto assumiu um tom professoral — necessário diante de uma plateia que provavelmente reunia um ou outro que imaginava que a história da banda tivesse começado dois anos antes, com “Atrás dos Olhos”, e não na década anterior, não obstante alguns dos hinos que acabara de ouvir. “Há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito longe, havia uma banda chamada Aborto Elétrico. Essa banda se separou e as canções deles acabaram divididas entre nós e a Legião [Urbana]. E essas três últimas músicas que a gente vai tocar são as músicas que nos couberam do espólio do Aborto Elétrico…”, disse ele.
Vinte e seis anos depois, a história se repetiu, mas com um elemento que a tornou especialmente simbólica. No primeiro dia desta edição do Rock in Rio, o Capital Inicial voltou a recorrer ao espólio do Aborto Elétrico — desta vez ao lado de Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana. A parceria, realizada ao apagar das luzes do Palco Sunset, reuniu no mesmo palco dois dos quatro músicos que passaram pelo grupo seminal do punk de Brasília: Dado e o baixista Flávio Lemos. Faltaram o baterista Fê Lemos — ausente dos compromissos do Capital Inicial e cuja permanência no posto é incerta devido ao silêncio sobre o tema — e Renato Russo, falecido em 1996, cuja memória naturalmente pairou sobre o encontro.
Dinho jamais escondeu sua admiração por Renato, a quem conheceu ainda adolescente e com quem conviveu antes da formação da Legião Urbana. Em homenagem ao amigo no aniversário que ele completaria em 2024, o vocalista escreveu: “Acho que ele é maior nome do rock brasileiro”. Também relembrou as horas passadas assistindo aos ensaios do Aborto Elétrico, as conversas na casa dos pais de Renato e as festas, shows e acampamentos compartilhados pela turma de Brasília. Após o início esperado com “Quatro Vezes Você” e “Independência”, Dinho convidou Dado ao palco explicou o motivo da apresentação: os 30 anos sem Renato Russo, celebrados em outubro. “Vamos comemorar a obra dele e tocar um monte de coisas dele, falou?”, prometeu o vocalista. O público, cuja perfil homogêneo justifica a escalação recorrente do Capital como atração sem risco no Rock in Rio, respondeu em peso, entoando “Uh! Uh! É Legião!” como uma torcida em decisão de título.
Ao longo da hora seguinte, o roteiro dividiu-se entre os hinos da Legião e a cartilha habitual de um show do Capital Inicial. O destaque entre as canções de Renato Russo foi “Que País É Este?”, endereçada a Daniel Vorcaro, aos ministros do STF e aos políticos que “devem explicações”. A única novidade era a presença de um terceiro guitarrista no palco que parecia estar aprendendo o repertório ali, ao vivo e a cores, como um Daniel na Cova dos Leões tentando sair ileso. Nada que tenha tirado o sono das 80 mil testemunhas presentes, mais preocupadas em cantar o refrão decorado do que em notar os hematomas da execução.
Setlist Capital Inicial:
- Quatro Vezes Você
- Independência
- Será (da Legião Urbana, com Dado Villa-Lobos)
- Geração Coca-Cola (da Legião Urbana, com Dado Villa-Lobos)
- Música Urbana (com Dado Villa-Lobos)
- Quase Sem Querer (da Legião Urbana, com Dado Villa-Lobos)
- Primeiros Erros (Chove) (de Kiko Zambianchi, com Dado Villa-Lobos)
- Tempo Perdido (da Legião Urbana, com Dado Villa-Lobos)
- Fátima (com Dado Villa-Lobos)
- Veraneio Vascaína (com Dado Villa-Lobos)
- Que País é Este? (da Legião Urbana, com Dado Villa-Lobos)
- Natasha (com Dado Villa-Lobos)
- À sua Maneira (com Dado Villa-Lobos)
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