O Nazareth é um caso raro em terras brasileiras. Confiando nos dados do site Setlist.fm, o show da última terça-feira (21) em São Paulo foi o 59º em nosso país — o sétimo por onde eles mais tocaram no mundo. Terminado o giro domingo (26) no Bar Opinião em Porto Alegre, a Suíça, atualmente no sexto lugar com sessenta apresentações, ficará para trás. Nas excursões anteriores, o grupo escocês de hard rock percorreu várias cidades fora do eixo, como Blumenau (SC), Cascavel (PR), Macaé (RJ), Santa Maria (RS) e Caruaru (PE).

Mesmo que não seja a banda favorita de muita gente, trata-se de uma relação construída desde 1990, com quatorze turnês. E com direito a gerações diversas em sua plateia: no Manifesto Bar, havia dos “experientes” aos mais jovens, alguns dos quais usando camisetas do Guns N’ Roses e talvez conhecendo o conjunto hoje capitaneado pelo baixista Pete Agnew — único remanescente da formação original — a partir do cover da seminal “Hair of the Dog” contido em “‘The Spaghetti Incident?’” (1993).

Se a passagem pela capital do Espírito Santo foi para um público estimado de quinze mil pessoas em evento gratuito alusivo ao Dia Mundial do Rock (celebrado exclusivamente no Brasil), a noite no Manifesto teve até setor premium a módicos quase R$ 1 mil a inteira. A tour, produzida pela Top Link Music, também esteve por São Mateus e Cascavel e ainda passará por Brasília (23/07), Belo Horizonte (24/07), Curitiba (25/07) e Porto Alegre (26/07).

Phornax
Um minuto antes do previsto para 21h e vindo diretamente de Porto Alegre, o Phornax teve direito a trinta e nove minutos no palco bem gastos em sete músicas. Divulgando “Hellforge”, o set foi pautado justamente no álbum de estreia lançado exatamente quatro dias antes do show em São Paulo. Na prática, das dez faixas do disco — incluindo “Forged in Metal”, utilizada como intro —, preteriram apenas as duas últimas: “Silent War” e “Blood for Blood”.
Em tese, o heavy metal clássico com sutis pitadas de power metal e speed metal do quinteto formado por Cristiano Poschi (voz), Deivid Moraes e Eduardo Martinez (guitarras), Sfinge Lima (baixo) e Mauricio Dariva (bateria) tinha tudo para aquecer a massa. Todavia, uma parcela significativa da galera deixou para entrar na casa já com o adiantar da hora. Relatos de amigos de imprensa tentando acessar as dependências davam conta da não triagem na entrada, forçando repórteres e fotógrafos a pegar a longa fila junto aos fãs. Certamente haverá veículos sem cobertura da atração nacional.

Sem saber do que acontecia lá fora e focados em seu trabalho, os membros do Phornax mostraram até certa dose de heroísmo com o pouco espaço que tinham para se movimentar no acanhado palco que já continha a bateria de Lee Agnew, coberta e significativamente tampando a projeção da capa do citado “Hellforge” no telão de fundo.
Destacaram-se as linhas vocais do frontman, por vezes agudas e misturando-se a tons mais graves, conforme mostrado em “Hells Paradise” – grafada assim mesmo, sem o “apóstrofo” do genitivo do inglês. “Seeds of Strife”, carregada nos dois bumbos, também agradou, bem como o solo de guitarra em “A Matter of Time”. “Forjados no metal”, os músicos passaram no teste, necessitando apenas de mais oportunidades para seguir seu desenvolvimento natural.

Repertório — Phornax:
Intro: Forged in Metal
01) Hells Paradise
02) Dare of Destruction
03) Seeds of Strife
04) Final Beat
05) A Matter of Time
06) Ghosts from the Past
07) Between Fear and Hope
Nazareth
Com doze minutos de atraso em relação ao horário prometido de 22h, o Nazareth se apresentava pela quarta vez em São Paulo, por onde não tocava desde novembro de 2019 no Tom Brasil e ainda com Carl Sentance na formação. Como foi a atuação de seu sucessor, Gianni Pontillo? Bastou uma música, “Telegram”, para o suíço de nascimento e de descendência italiana com o “vocal ardido” ser bem aceito pelos fãs e mostrar-se encaixado e adaptado ao conjunto, emulando perfeitamente o original do saudoso Dan McCafferty.

De cara, notava-se um padrão bem estabelecido para o que seria uma noite rock ‘n’ roll: sem firulas. Gianni “só” cantava e Jimmy Murrison focava “apenas” em sua guitarra. No máximo, Pete contribuía com os vocais de apoio, mas basicamente era cada um magistralmente em seu quadrado e, conforme esperado, sem exageros na movimentação de palco.
O repertório de dezessete canções distribuídas em uma hora e trinta e dois minutos (incluindo intro e “outro”) teve de tudo um pouco:
- como não poderia deixar de ser, as clássicas “Hair of the Dog” e “Love Hurts” — as pessoas saíram de casa para ouvi-las;
- composições com pinta de balada, como “Love Leads to Madness”, com Gianni bebericando uma taça de vinho e seu timbre lembrando até o de Rod Stewart;
- baladas explícitas na forma de “Dream On” e “Where Are You Now”;
- levadas super rock ‘n’ roll, casos de “Razamanaz” e da divertida “Holiday”;
- coro em “Shanghai’d in Shanghai”, indicando em qual fonte o Kiss foi beber para “Heaven’s on Fire”;
- certas doses de swing em “When the Lights Come Down” — antes dela e dando tempo para um ajuste técnico no baixo, Gianni chegou a brincar perguntando à plateia se queriam que a banda voltasse ano que vem;
- pitadas de blues em “Whiskey Drinkin’ Woman” — foi hilário ver uma garçonete entrando na onda ao percorrer lentamente a pista “comum” empunhando uma garrafa e tentando aumentar a venda do precioso líquido;
- uma versão estendida beirando dez minutos de “Changin’ Times” e sem Gianni no palco em boa parte da jam;
- discretamente, o uso do cowbell foi além de “Hair of the Dog”, também presente em “Love Leads to Madness”;
- e houve até covers, como “This Flight Tonight” e “Beggars Day”, originalmente gravadas por Joni Mitchell e Crazy Horse, fora “Love Hurts”, que muitos desconhecem ser de The Everly Brothers.
Também não passou em branco a sequência de cinco faixas extraídas de “Hair of the Dog” (1975), da décima, “Whiskey Drinkin’ Woman”, à belíssima e supracitada “Love Hurts”, penúltima do set regular. E bastou ela ser encerrada e emendada a “Turn On Your Receiver”, batendo em uma hora e quinze minutos no relógio e por volta de 23h45, para um bom número dos presentes virar as costas e rumar a outra longa fila, desta vez para “zerarem suas comandas”.

Passados inacreditáveis cinquenta e cinco anos desde o lançamento de seu primeiro disco, o homônimo de 1971, ainda há espaço para o Nazareth seguir adiante, mostrando-se relevante em pleno 2026. Os quinze mil presentes em Vitória e toda a galera que lotou o Manifesto são prova viva da importância da banda.

Nazareth — ao vivo em São Paulo
Local: Manifesto Bar
Data: 21 de julho de 2026
Turnê: Brazil Hits Tour 2026
Produção: Top Link Music
Repertório:
Intro: Caoineadh Cu Chulainn (Lament) [Bill Whelan]
01) Telegram
02) Miss Misery
03) Razamanaz
04) Shanghai’d in Shanghai
05) Love Leads to Madness
06) Dream On
07) Holiday
08) This Flight Tonight [Joni Mitchel]
09) When the Lights Come Down
10) Whiskey Drinkin’ Woman
11) Beggars Day [Crazy Horse]
12) Changin’ Times
13) Hair of the Dog
14) Love Hurts [The Everly Brothers]
15) Turn On Your Receiver
Encore
16) Where Are You Now
17) Go Down Fighting
Outro: I’m Gonna Be (500 Miles) [The Proclaimers]

Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Bluesky | Twitter | TikTok | Facebook | YouTube | Threads.
