O público do Rio de Janeiro já havia se reencontrado com Mike Portnoy ao lado do Dream Theater no fim de 2024, em uma turnê de celebração dos 40 anos de carreira. No entanto, a oportunidade de ver a formação mais duradoura da banda apresentando ao vivo um novo álbum — “Parasomnia” (2025) — ocorreu apenas no último domingo (10), novamente no Vivo Rio.
Com exceção de Brasília, que recebeu um set misto, as demais cidades da atual turnê receberam o espetáculo planejado para a divulgação do novo trabalho, tocado todas as noites nas cidades já visitadas em 2024: Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e, na próxima terça-feira (12), Belo Horizonte. Mas isso não impediu a inserção de alguns easter eggs por parte do baterista ao longo da noite.
Ao longo de seus 13 anos fora do Dream Theater, Portnoy não foi um estranho ao Brasil. Esteve por aqui diversas vezes, com The Winery Dogs, Transatlantic, Metal Allegiance, Avenged Sevenfold e Sons of Apollo, além de ter excursionado com o Noturnall. A banda também manteve sua relação de cumplicidade com o público nacional, pois trouxe as turnês de todos os seus lançamentos desde que o baterista saiu em 2010.
Criativamente, Portnoy produziu trabalhos brilhantes em sua ausência, como o debut do The Winery Dogs, “Kaleidoscope” do Transatlantic e “Third Degree” do Flying Colors. Já o grupo, com Mike Mangini na vaga do membro original, lançou cinco álbuns com bons momentos, mas sempre com a sensação de que algo faltava — não por limitação técnica do então novo baterista, mas pela ausência de um dos fundadores e de parte importante da força criativa do grupo.
Nos palcos, o grupo ousou em projetos como o controverso álbum conceitual “The Astonishing” (2016) executado na íntegra, durante sua tour, sem hits do passado, o que gerou críticas. O erro de cálculo foi corrigido logo em seguida com tours celebrativas de “Images & Words” (1992) e “Metropolis, Pt. 2: Scenes From a Memory”. Uma aproximação com o passado se desenhava como um fio de esperança num horizonte sombrio. (“Black Clouds & Silver Linings”, se é que vocês me entendem…)
Ato I – Parasomnia – The Sleep Journal
Como tem sido desde 2012, quando da primeira visita à cidade sem Mike Portnoy — exceção feita ao Rock in Rio 2022 —, o Dream Theater se apresentou no Vivo Rio. Em comparação a 2024, a casa estava um pouco mais vazia, com o mezanino do primeiro piso isolado por cortinas, o que ajudou a reforçar a impressão de lotação.
A primeira parte da noite foi dedicada integralmente a “Parasomnia”, que explora temas como o sono, seus distúrbios e lendas urbanas associadas a ele. Antes mesmo do início do show às 20h, o cenário estava todo à vista, com uma cama ao centro funcionando como eixo visual, tal qual a retratada na capa do lançamento.
A abertura com a instrumental “In the Arms of Morpheus” cumpriu seu papel de “cortina que sobe”. Houve resposta imediata ao primeiro grande gatilho da noite: um solo do guitarrista John Petrucci que levantou a casa já nos minutos iniciais. “Night Terror”, emendada seguindo a ordem do full-length, atraiu reações calorosas até mesmo por ter sido testada na turnê anterior. A produção apoiou o impacto com pirotecnia pontuando trechos-chave, com fumaças sendo lançadas em diversas partes do palco — um recurso que, quando bem dosado, amplia a sensação de “picos” do arranjo sem mascarar a execução.
A única sombra foi técnica: o vocalista James LaBrie entrou inicialmente inaudível, problema que se resolveu já na primeira ponte, devolvendo ao show a nitidez necessária. Seu pedestal também ornava o cenário, com uma caveira que reforçava o imaginário do álbum e servia como elemento de cena.
“Broken Man” trouxe alguns dos momentos mais sólidos de LaBrie na parte nova: bons agudos e melhor projeção do que se veria mais tarde em faixas antigas. No telão, vídeos de guerra amplificavam o peso da composição, casando com a pegada mais áspera do tema. “Dead Asleep” também foi recebida com boa resposta do público e no encerramento, um final pré-gravado entrou como recurso de transição, elemento que funciona para costurar o conceito.
Já “Midnight Messiah” empolgou com sua levada mais próxima ao heavy tradicional e diversos easter eggs na letra (dentre eles, um destaque para o verso “eternally wired”, bem como diversos nomes e referências de músicas antigas do Dream Theater). Em seguida, “Are We Dreaming?” serviu como um respiro calibrado — e serviu de pequeno holofote para o tecladista Jordan Rudess, que conduziu a vinheta com a precisão.
Em “Bend the Clock”, Petrucci foi ovacionado, não só durante o solo, mas também ao final, quando a música assentou e a plateia devolveu em aplauso o que havia recebido. Um detalhe curioso foi Portnoy mudando de lugar no kit durante a execução.
Se no estúdio “The Shadow Man Incident” pode parecer “grande demais” para alguns menos afeitos ao histórico da banda, ao vivo funcionou muito bem. A arquitetura longa ganhou sentido com o palco, com o Shadow Man sendo inflado atrás do guitarrista e o telão reforçando a narrativa visual. As partes instrumentais, com suas complexidades, satisfizeram um público contemplativo.
Tecnicamente, a banda segue impecável. O baixista John Myung permanece o músico mais discreto do grupo, preciso e sempre funcional. Rudess cumpre o papel de elo entre a parte rítmica e a camada mais melódica, enquanto Petrucci mantém o peso técnico habitual. LaBrie, por sua vez, oscila entre bons e maus momentos, especialmente nas composições antigas que, mais adiante, exigiram de seu alcance. A banda se retirou do palco para um descanso de cerca de 20 minutos.
Ato II – Revistando a história
Após o cartão de visitas do novo disco, foi hora de revisitar o passado. Às 21h28, um vídeo com todos os álbuns passou no telão, em moldes semelhantes ao exibido na turnê de 2024. Ao retornar, o cenário de “Parasomnia” havia sido removido, e o pedestal de James LaBrie já aparecia sem a caveira, sinalizando que o segundo ato seria menos conceitual.
“The Enemy Inside” abriu o segundo ato com a função de recolocar a banda em modo catálogo. Após a música, veio a primeira comunicação com o público, quebrando o bloco conceitual do trecho anterior. Em “A Rite of Passage”, o refrão foi cantado a plenos pulmões, mostrando a força de uma faixa que há tempos não figurava no set. Ao final, os holofotes ficaram por alguns instantes sob domínio de Rudess: sozinho no palco, ele encaixou um mini solo que serviu como costura elegante antes da dobradinha de “Scenes from a Memory” (1999).
Na sequência, “Through My Words” teve um componente especial: com LaBrie se juntando a Rudess e o público cantando junto, a faixa ganhou peso emocional (retomando “Midnight Messiah”, aqui a letra fala em “Linked by an endless thread impossible to break” / “Ligados por um fio infinito, impossível de romper”.)
“Fatal Tragedy”, por sua vez, foi ponto alto do segundo ato: canto coletivo, energia ascendente e a impressão de que a casa “desabava” a cada virada mais incisiva. No centro desse turbilhão, John Myung apareceu com mais protagonismo visual do que o habitual, lembrando que a coluna vertebral do Dream Theater quase sempre fala baixo, mas sustenta tudo de forma sólida.
“The Dark Eternal Night”, curiosamente, encaixou-se não apenas ao conceito lírico — mais uma falando da noite?! — como, também, ao dar fluidez para o repertório com alternância entre momentos leves e pesados. Os backing vocals de Mike Portnoy voltaram a ocupar o espaço que lhes cabe, reforçando o caráter mais agressivo da faixa e trazendo aquela camada humana que, sem ele, muitas vezes soava mais protocolar nas turnês recentes.
Com Rudess empunhando seu keytar, “Peruvian Skies” representou um momento de frescor e respiro, trazendo citações e referências a “Wish You Were Here” (Pink Floyd) e “Wherever I May Roam” (Metallica). Esteve bem próxima à versão que ficou marcada no home vídeo “5 Years in a LIVEtime” (1998). Curioso notar que as músicas do controverso álbum “Falling Into Infinity” (1997) têm sido executadas em versões distintas de suas gravações originais — na tour anterior, “Hollow Years” foi apresentada tal qual foi concebida na demo, com letra e arranjos levemente diferente do registro no disco.
“Take the Time” fechou a parte regular do set. Portnoy voltou a cantar, fazendo os vocais da primeira parte da canção. Já LaBrie sofreu um pouco em alguns trechos, mas nada que comprometesse.
Para o bis, a banda não guardou surpresas, mas sim um presente de proporções épicas: a execução do clássico de 23 minutos “A Change of Seasons”, encerrando a noite como um dos grandes marcos da trajetória do grupo. A faixa funciona como declaração de identidade, mostrando que Dream Theater sempre foi mais do que uma coleção de músicas: trata-se de uma banda que pensa em movimentos, tensão e resolução.
Com Portnoy de volta, a lógica de “história contada em capítulos” ganha novamente um condutor natural. O show não cai no puro campo da celebração nostálgica. Soa como continuidade criativa.
Após quase 3h de show, O Dream Theater provou, novamente, que a química da formação mais duradoura é insubstituível. A presença de seu baterista original faz recuperar alma e liderança no palco.
Para os fãs presentes no Vivo Rio, serviu como confirmação de que, após 15 anos, a espera por um novo álbum com Portnoy valeu cada segundo — e que, sim, podemos esperar por um futuro, pois há um muito bem desenhado e encaminhado.
Dream Theater — ao vivo no Rio de Janeiro
- Local: Vivo Rio
- Data: 10 de maio de 2026
- Turnê: 40th Anniversary Tour — Parasomnia 2026 feat. A Change of Seasons
- Produção: Liberation MC
Repertório:
Parte 1: “Parasomnia”
1. In the Arms of Morpheus
2. Night Terror
3. A Broken Man
4. Dead Asleep
5. Midnight Messiah
6. Are We Dreaming?
7. Bend the Clock
8. The Shadow Man Incident
Parte 2:
Intro: False Awakening Suite
9. The Enemy Inside
10. A Rite of Passage
11. Through My Words
12. Fatal Tragedy
13. The Dark Eternal Night
14. Peruvian Skies
15. Take the Time
Bis:
16. A Change of Seasons
I. The Crimson Sunrise
II. Innocence
III. Carpe Diem
IV. The Darkest of Winters
V. Another World
VI. The Inevitable Summer
VII. The Crimson Sunset
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