O álbum de estreia homônimo do Barão Vermelho foi gravado em maio de 1982. Exatos 44 anos atrás. Roberto Frejat (guitarra), Dé Palmeira (baixo), Maurício Barros (teclados) e Guto Goffi (bateria), junto do saudoso Cazuza (voz), colocavam para fora uma música ainda rudimentar — e bem lapidada ao longo do tempo —, mas com elementos essenciais já notados. O deboche e a voz rouca do cantor de nome Agenor de Miranda Araújo Neto são notados logo na faixa de abertura, “Posando de Star”, também utilizada como introdução gravada do show realizado pelos quatro remanescentes no Allianz Parque, em São Paulo, no último sábado (23). Do disco em questão, também viriam “Down em Mim” e “Ponto Fraco”.
Antes da vinheta inicial do espetáculo Barão Vermelho Encontro ecoar pelo estádio a ser batizado em breve como Nubank Parque, porém, uma surpresa. Ao acessar a pista premium às 18h40, a vinte minutos para o show… onde estava o público? Havia gente, mas longe de ocupação satisfatória. Ou esse povo esperou a chuva dar reais indícios de que não voltaria a cair ou enfrentou dificuldades para chegar ao local. Talvez seja por isso que o começo da performance tenha sido adiado para 19h30, quando o espaço já se mostrava melhor preenchido.

A plateia, que não chegou a lotar o Allianz, era composta por perfis de público bem distintos. Casais (com ou sem filhos e até netos), rodas de amigos, hipsters, metaleiros com camisetas indo de Dream Theater a Slayer, jornalistas esportivos como Benjamin Back e Paulo Vinícius Coelho e até o punk rocker Supla, cumprimentando a equipe técnica por seu trabalho ao término do show e tirando fotos em frente à house mix com quem o abordasse.
A presença de famílias ajuda e explicar parcialmente a razão de tantos revivals. Se o maior caso de sucesso talvez tenha sido o Titãs, esgotando seis datas no mesmo estádio, outras gerações e públicos também foram contemplados em momentos distintos, do pré ao pós-pandemia: de Sandy & Júnior em 2019 a Xuxa, em julho. Há saudosismo atrelado à memória afetiva; desejo dos mais velhos em compartilhar momentos com sua prole e apresentar seus artistas favoritos; intenção (até mórbida) de ver determinados músicos ou grupos antes que seja tarde demais; e por aí vai.

A configuração “Encontro” do Barão Vermelho se beneficiou deste momento, visto que, em outras reuniões, não chegou ao patamar de se apresentar em um local deste porte. Após “Pense e Dance”, terceira canção do set — executada após “Maior Abandonado” e “Pedra, Flor e Espinho”, Roberto Frejat refletiu: “Vocês não conseguem imaginar o que se passa na cabeça de nós quatro, que começamos lá atrás só pensando em fazer shows e, de repente, estamos aqui, num estádio, cheio de gente querendo ver a gente”.
Tributos
Também foi um show de homenagens. Antes de “Política Voz”, Frejat destacou a presença na plateia de Oswaldo Vecchione, fundador do Made in Brazil. Ao longo da noite, surgiram várias canções de artistas já falecidos, embora muitas delas tenham sido integradas ao repertório convencional do Barão com esses músicos ainda vivos:
- “Tente Outra Vez”, de Raul Seixas;
- “Amor Meu Grande Amor”, de Angela Ro Ro;
- “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, de Erasmo Carlos;
- “Malandragem Dá Um Tempo”, de Bezerra da Silva – esta com Maurício Barros no vocal principal;
- “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto”, de Renato Russo e sua Legião Urbana;
- “Jardins da Babilônia” e “Ovelha Negra”, ambas de Rita Lee, mas a segunda com uma bela foto do guitarrista Luiz Carlini no telão de fundo.
Houve ainda diversas citações a Cazuza, relembrado de formas distintas. Primeiro ao selecionarem músicas originais de sua carreira solo: “O Tempo Não Para”, “Blues da Piedade” e a citada “Codinome Beija-Flor”. Depois com o próprio “cantando” com a banda no telão de fundo em “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”. Fora o fato de que não há como dissociar “O Poeta Está Vivo” de sua figura.

O “barão” Ney Matogrosso
A presença do único convidado especial da noite, Ney Matogrosso, também é uma forma de ligar a história do Barão Vermelho a Cazuza, não somente por seu relacionamento pessoal com o artista falecido em 1990. Sua importância para a banda vem desde os primórdios, conforme publicamente admitido por Roberto Frejat ao anunciá-lo: “Uma pessoa fundamental na nossa história. Sem ele, acredito que talvez nada tivesse acontecido. E não é nenhum exagero falar isso”. Ney gravou “Pro Dia Nascer Feliz” em seu disco “…Pois É” (1983), ajudando a impulsionar a história do então quinteto e apadrinhando-o.

Há ainda a história por trás de “Poema”, letra escrita por Cazuza para a avó, musicada — a pedido da própria Lucinha Araújo, mãe dele — por Frejat e gravada por Ney em “Olhos de Farol” (1998). Além disso, Matogrosso assinou a direção artística do último espetáculo e turnê de Cazuza, à época promovendo “Ideologia” (1988) e posteriormente gerando o disco ao vivo “O Tempo Não Para”, do mesmo ano.

Ney esteve no palco por duas vezes. No meio do set, interpretou “Poema”, “Jardins da Babilônia” e “Blues da Piedade”. Depois regressou para as duas últimas “Por Que a Gente é Assim?” e “Pro Dia Nascer Feliz”, ambas em tons mais agudos quando ele cantava tão bem, do alto de seus 84 anos.
Deu um aperto no coração retirarem “Ideologia” e “Exagerado” desta parte em relação ao set do Rio. Todavia, se era para sacrificar algo para haver trocas, fez sentido preservarem músicas do Barão Vermelho em si em detrimento de originais de seu vocalista em carreira solo.
Diversidade musical
Num olhar mais amplo para o repertório de 31 músicas, relativamente curtas e distribuídas em duas horas e 17 minutos, chamou atenção a variedade musical. Tem um pouco para cada tipo de fã:
- a melódica “Meus Bons Amigos”, a primeira com grande coro coletivo, e “Declare Guerra”, para o gosto deste escriba, são “rockões” do melhor tipo arrasa-quarteirão;
- faixas dançantes de maneiras diferentes: em veias clássicas, “Bete Balanço”, primeira com um mar de celulares erguidos, e “Pense e Dance”, parte da trilha sonora da novela “Vale Tudo” (1988-89) e encorpada ao vivo com a adição do trio de metais; já com elementos eletrônicos ou de outros gêneros musicais, “Amor Meu Grande Amor” e sua bateria eletrônica no início, “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo” e “Puro Êxtase”;
- baladas como a bela “Codinome Beija-Flor” , e “Por Você”, surpreendentemente (ou não) a canção mais popular do grupo no Spotify;
- “Ponto Fraco”, “Down em Mim”, “Blues da Piedade” e “Bilhetinho Azul”, pois não podia faltar o blues e elas representaram território familiar ao conjunto, pois o estilo é citado até em algumas das letras da banda.
Toda esta rica paleta musical não seria possível de ser explorada sem a ajuda de:
- Fernando Magalhães, guitarrista e membro do próprio Barão há décadas, porém um tanto “escondido” nesta turnê em função do conceito da “formação original” e fundamental para o solo de “O Poeta Está Vivo”;
- Cesinha Brunet, irmão de Peninha, também percussionista do Barão Vermelho, falecido em 2016;
- o naipe de metais composto por José Carlos Bigorna (saxofone), Diogo Gomes (trompete) e Marlon Sette (trombone);
- a backing vocal Jussara Lourenço (ex-Trio Ternura, que hoje se apresenta como Jhusara);
- e Rafael Frejat, filho de Roberto Frejat, no violão, guitarra e vocais de apoio.

Quanto ao quarteto principal e razão da turnê… ninguém notou se Dé, discreto e focado em desenvolver trilhas sonoras para documentários do Globoplay como “Vale o escrito” e “O testamento: o segredo de Anita Harley”, não subia num palco havia dez anos. Talvez tenha sido o mais desafiado entre os quatro, pois boa parte das canções do repertório não foi gravada por ele, ausente desde 1989 e substituído na ordem por Dadi Carvalho, Rodrigo Santos (o mais longevo) e Márcio Alencar.
Guto Goffi, único membro fundador a participar de todas as formações do Barão, entrega a segurança que toda banda precisa vindo lá de trás na bateria e por vezes até em outros instrumentos de percussão, vide “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”. Maurício Barros foi o responsável por sutis, porém marcantes alterações nas linhas de teclados, ao passo de tornar “Tão Longe de Tudo” e “Ponto Fraco” verdadeiros pontos fortes do set, com o perdão do trocadilho. E Frejat é Frejat. Dono de carreira solo consolidada, assumiu bem a bronca de cantar quando Cazuza deixou o grupo que, desde 2017, segue com Rodrigo Suricato nos vocais.

Se você reparar bem no setlist abaixo, tudo foi bem separado. Seu início trouxe oito faixas seguidas de material do Barão, de “Maior Abandonado” a “Meus Bons Amigos”. Em seguida um bloco de homenagens, de “Tente Outra Vez”, a nona, até “Malandragem Dá Um Tempo”, vigésima – com “Por Você” perdida no meio. Então mais cinco do Barão, de “Torre de Babel” a “Puro Êxtase”, desta vez com “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto” de intrusa. Por fim, o bis variado fechando a noite. O total de 31 músicas se manteve com relação ao Rio, porém, conforme apontado, aqui saíram “Ideologia” e “Exagerado”, cedendo lugar a “Não Me Acabo” e “Ovelha Negra”.

Para quem perdeu ou gostou tanto a ponto de querer revê-los, a esperança foi dada por Frejat em entrevista ao jornal O Globo, com uma sutileza: “Não é uma coisa que a gente tenha conversado entre nós, mas a minha ideia é que, tirando Rio e São Paulo, a gente não repita nenhuma cidade. Ou a pessoa viu, ou não viu mais”. Talvez você tenha uma segunda chance. No fim das contas, vale a pena ver (de novo).
Barão Vermelho Encontro— ao vivo em São Paulo
- Data: 23 de maio de 2026
- Local: Allianz Parque
- Turnê: Encontro – Pro Mundo Inteiro Acordar
- Produção: 30e
Repertório:
- Maior Abandonado (somente Frejat, Dé, Maurício e Guto no palco)
- Pedra, Flor e Espinho
- Pense e Dance
- Política Voz
- Tão Longe de Tudo
- Bete Balanço
- Ponto Fraco
- Meus Bons Amigos
- Tente Outra Vez (original de Raul Seixas)
- O Tempo Não Pára (original de Cazuza)
- Poema (com Ney Matogrosso)
- Jardins da Babilônia (original de Rita Lee, com Ney Matogrosso)
- Blues da Piedade (original de Cazuza, com Ney Matogrosso)
- Down em Mim (somente Frejat, Dé, Maurício e Guto no palco)
- Todo Amor Que Houver Nessa Vida (somente Frejat, Dé, Maurício e Guto no palco; voz e imagem de Cazuza no telão)
- Codinome Beija-Flor (original de Cazuza)
- Por Você
- Amor Meu Grande Amor (original de Angela Ro Ro)
- Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (original de Erasmo Carlos)
- Malandragem Dá Um Tempo (original de Bezerra da Silva, com Maurício Barros no vocal principal)
- Torre de Babel
- Declare Guerra
- Cuidado
- Não Me Acabo
- Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto (original da Legião Urbana)
- Puro Êxtase
Bis:
- Bilhetinho Azul (somente Dé, Maurício, Frejat e Guto no palco)
- Ovelha Negra (original de Rita Lee, homenagem a Luiz Carlini)
- O Poeta Está Vivo
- Por Que a Gente é Assim? (com Ney Matogrosso)
- Pro Dia Nascer Feliz (com Ney Matogrosso)

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