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Entrevista: A reconstrução do Nevermore, detalhada por Jeff Loomis

Prestes a trazer a banda ao Brasil para dois shows, guitarrista comenta seleção dos novos músicos, retorno aos palcos e o início do próximo álbum

“Eu olhei para o meu braço e consegui ver os pelos se arrepiando.” Assim, o guitarrista Jeff Loomis descreveu o momento no qual decidiu pela escolha do turco Berzan Önen para o posto do saudoso e icônico vocalista Warrel Dane, na reconstrução do Nevermore, banda americana que havia encerrado as atividades em 2011.

A música era “Sentient 6”, do disco “This Godless Endeavor” (2005). “Dava para perceber quando ele estava cantando que ele não estava apenas passando pelas letras – ele realmente estava sentindo”, revelou o membro fundador. “Se eu estou sentindo isso, há uma chance muito boa de que outras pessoas também sintam”, concluiu.

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Ao contrário de um simples retorno nostálgico, a volta do Nevermore nasceu de uma necessidade criativa de seu guitarrista, creditado por escrever a seção instrumental da maior parte da discografia do grupo. Loomis revelou que a decisão ganhou força após sua passagem entre 2014 e 2023 pelo Arch Enemy, quando sentia falta de protagonismo na composição.

“Basicamente, começou a surgir em mim a ideia de que eu queria estar no controle, por assim dizer, da minha música. Eu não estava compondo muito no Arch Enemy e realmente queria voltar a escrever. Então, com isso em mente, comecei a falar com o Van Williams [baterista do Nevermore] sobre a possibilidade de talvez voltarmos como banda.”

Para lidar com a substituição de um vocalista tão singular quanto Warrel Dane, falecido em 13 de dezembro de 2017, Loomis e Williams olharam para outros grupos de renome em situação similar.

“Começamos a discutir outras bandas, como Alice in Chains e Stone Temple Pilots, que tiveram um tremendo sucesso ao voltar. Então, realmente, era tudo sobre encontrar as pessoas certas para continuar esse projeto e fazer com que realmente funcionasse.”

Reconstrução do zero

Com apenas o guitarrista e baterista da sua formação clássica, o Nevermore optou por audições abertas para encontrar seus novos membros — caminho pouco usual para bandas veteranas. Ao todo, mais de 700 candidatos enviaram materiais.

“A gente passou cerca de dois meses olhando cada uma e apenas garantindo que dávamos o tempo que merecia, porque essas pessoas passaram muito tempo montando isso. Então realmente queríamos garantir que estávamos dando a elas nossos olhos, nossos ouvidos e nossa atenção.”

Assim como na escolha de Önen como o novo cantor, apenas encontrar bons músicos não bastava. Era preciso entender se a nova formação funcionaria como banda.

“A mesma coisa meio que aconteceu com o baixista”, explicou Loomis, sobre a seleção de Samir Özerkan para o lugar do também fundador Jim Sheppard, aposentado da carreira musical. “Ele tem um estilo legal. Ele toca bem firme, bem no tempo.”

Não foi diferente com Jack Cattoi, escolhido para o volátil posto de segundo guitarrista do Nevermore. “Simplesmente um músico incrível. Mas uma coisa é encontrar as pessoas certas. A próxima é se reunir com elas para ver se a dinâmica vai funcionar”, declarou Jeff.

O encontro inicial com os novos membros ocorreu em janeiro, na Suécia, e foi registrado em vídeo por Ola Englund, guitarrista da banda sueca The Haunted.

“Nos reunimos para ver se poderíamos realmente trabalhar de forma coesa. E conseguimos. Foi mágico. Na primeira música que tocamos, ‘Beyond Within’, a química simplesmente funcionou. Passamos as duas semanas seguintes lá apenas aprendendo outras músicas.”

O teste definitivo do Nevermore no palco

Para a estreia da nova formação, a própria banda organizou uma apresentação em Istambul, na Turquia, ocorrida no último dia 1º de abril. “Agendamos nós mesmos. Então foi feito sem uma agência de booking. E todos os ingressos se esgotaram”, conta Jeff.

O repertório do primeiro show foi discutido entre os músicos. Após pedir para cada membro do Nevermore montar seu setlist pessoal, o guitarrista percebeu que as escolhas eram similares. No entanto, Loomis deu prioridade à seleção feita pelo novo vocalista.

“Eu senti que ele é o cantor, quis focar o setlist no que ele gosta. Então eu meio que mantive o que ele escolheu como uma ideia.”

Loomis afirma que desejou montar um show que não deixasse de lado faixas mais óbvias da discografia, como “Narcosynthesis” e “Enemies of Reality”. Ao mesmo tempo, tentou equilibrar um set pesado com algumas baladas, inclusive um clássico de “Dead Heart in a Dead World” (2000) que não era habitualmente executado.

“É realmente interessante porque uma das faixas mais ouvidas no catálogo do Nevermore, ‘Believe in Nothing’, não foi muito tocada no passado. Acredito que tocamos uma vez lá por 2007 na Grécia. Então foi uma faixa como essa que eu quis trazer de volta e tocar novamente.”

Apesar de todos terem ficado satisfeitos com as dezoito faixas escolhidas para o show na Turquia, Loomis revela que ainda tem algumas surpresas na manga: “Nós ensaiamos 25 músicas quando estávamos na Suécia. Então nós vamos ser capazes de mudar o set um pouco aqui e ali ao longo dos meses.”

O setlist executado foi:

  1. Beyond Within
  2. My Acid Words
  3. Engines of Hate
  4. This Sacrament
  5. The Seven Tongues of God
  6. Final Product
  7. Narcosynthesis
  8. I, Voyager
  9. Moonrise (Through Mirrors of Death)
  10. The Heart Collector
  11. Enemies of Reality
  12. Sentient 6
  13. This Godless Endeavor
  14. The River Dragon Has Come
  15. The Obsidian Conspiracy
  16. Believe in Nothing
  17. Born
  18. Dead Heart in a Dead World

Para o guitarrista, o resultado dessa volta ao palco foi difícil de descrever.

“Quando o Nevermore inicialmente acabou lá atrás, no começo dos anos 2010 mais ou menos, Van e eu estávamos indo para um lado, enquanto Jim e o Warrel estavam indo para o outro. E foi esse cabo de guerra, um jeito ruim de terminar. Então poder trazer a banda de volta mais forte do que nunca, com esses músicos fantásticos que podem executar a música lindamente, é uma sensação tão boa. Ter a plateia cantando junto todas aquelas músicas foi simplesmente louco. Foi ainda mais do que tudo o que pedimos.”

Com os shows na América do Sul marcados para abril e uma turnê pela Europa agendada para o verão do hemisfério norte, incluindo festivais e datas ao lado de Savatage e Judas Priest, a primeira apresentação foi um passo essencial. “Construir essa confiança, nós realmente precisávamos disso como uma banda”, pontuou Loomis.

Novo disco e nova dinâmica para o Nevermore

Com a base estabelecida, o foco do Nevermore agora se divide entre os próximos compromissos e o trabalho em material inédito. Jeff Loomis comenta: “Nós temos todos esses shows matadores vindo neste verão, mas, ao mesmo tempo, nós estamos coletivamente trabalhando em material novo. Todas essas coisas acontecendo juntas, de um jeito bom.”

O guitarrista afirma ter acumulado muitas ideias ao longo dos anos. Quando eu estava no Arch Enemy, eu estava sempre continuamente compondo riffs. Tenho algo como 800 ou 900 riffs no celular”, revelou ele, que também pretende dar espaço para a participação de seus novos companheiros nas composições.

“O Nevermore sempre funcionou como em uma tela aberta, mas realmente queremos manter essa nova formação do Nevermore por muito tempo. Todo mundo tem que ter um propósito coletivo de ideias. Não pode ser apenas o ‘show do Van e do Jeff’. Todo mundo envolvido de alguma forma para manter a banda forte. Nós realmente acreditamos nisso.”

Apesar de as composições estarem em estágio inicial, Jeff Loomis indicou já um caminho a seguir.

“As músicas que nós juntamos são muito fortes – ainda mais do que coisas passadas do Nevermore, acredito. Quando você fica mais velho como um músico, acho que sua composição está sempre melhorando também. Você começa a descobrir que ‘menos é mais’ e para fazer uma boa música, você não precisa de todos esses riffs intrincados que estão voando.”

Loomis usa o exemplo de outro grupo de Seattle para abordagem minimalista que pretende seguir. “Uma banda como Queensrÿche, por exemplo, ou um álbum como ‘Operation Mindcrime’: não há muito acontecendo em termos de notas, mas ao mesmo tempo, essas são músicas realmente boas. O que nós estamos mirando neste próximo álbum é ter muitas músicas realmente boas, memoráveis”, explica.

O novo vocalista traz mais elementos a serem considerados nas próximas composições do Nevermore.

“Berzan tem estilos vocais que ele pode usar. Além da voz operística, ele também pode fazer uma voz de death metal. E também pode fazer esses cantos étnicos, utilizando diferentes texturas. Ele tem todas essas coisas escondidas que definitivamente vão ser algo a mais para as novas composições na banda.”

Loomis não tem receio de que essa nova abordagem possa descaracterizar o som típico do Nevermore.

“O núcleo sempre será o mesmo porque eu e o Van somos os membros centrais, e sempre vai ter aquele som distintivo entre nós. Mas ainda não trouxemos essas ideias para os outros caras na banda, para ver aonde isso vai.”

Brasil, legado e emoção de Jeff Loomis

A volta do Nevermore ao Brasil também carrega um peso especial. O país mantém uma ligação profunda com o vocalista original Warrel Dane, que viveu seus últimos anos por aqui. O cantor faleceu em São Paulo enquanto trabalhava em “Shadow Work”, álbum solo gravado com instrumentistas brasileiros que foi lançado de forma póstuma em 2018.

“Eu estava mandando mensagens com o Warrel e dando algumas ligações para ele antes de ele falecer, estava falando com ele até o final”, relembra o guitarrista.

O fato de se apresentar no país onde o cantor morreu não chega a ser uma responsabilidade extra, mas tem um peso diferente: “É obviamente muito triste. Vai ser uma coisa emocional? Um pouco, claro. Mas, ao mesmo tempo, vamos tocar essas músicas mais alto do que nunca e esperamos que isso deixe os fãs muito felizes e os faça cantarem junto também”.

O grupo tem participação confirmada no festival Bangers Open Air, dia 26 de abril, no Memorial da América Latina, além de um show solo dois dias depois no Carioca Club. Ambos os compromissos são em São Paulo e há ingressos à venda via Clube do Ingresso. Em 24 de abril, a banda faz sua estreia em Santiago, no Chile.

A escolha pela América do Sul para o início efetivo da turnê, no entanto, foi mais fruto do acaso do que uma opção por priorizar o continente, no qual a banda havia tocado em 2001 e 2006, apenas no Brasil.

“Acho que uma agência de booking apenas encaixou, uma coisa de timing. Não foi super planejado. Então, para nós, ‘América do Sul, nós temos que voltar e tocar’, não tinha nem o que pensar. Eu voltaria aí e tocaria o tempo todo se eu pudesse.”

Com shows marcados e um novo álbum em desenvolvimento, o Nevermore inicia um capítulo que tenta equilibrar passado e futuro. E, ao que tudo indica, sem intenção de olhar para trás por muito tempo. Não significa, porém, ignorar a importância de seu falecido ex-vocalista.

“É tão triste a morte prematura dele, ele era tão jovem. Eu realmente acho que parte de toda a razão de eu e o Van estarmos fazendo isso é simplesmente o legado. Muitas das letras que ele estava escrevendo lá atrás ainda são tão relevantes. Por exemplo, em “Sentient Six”, com toda a coisa de IA, leia isso e olhe para o que está acontecendo agora. Ser capaz de honrar o legado das letras dele, e dele como uma pessoa, significa o mundo para mim e para o Van e muito provavelmente para muitos fãs.”

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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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