“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Essa passagem bíblica, presente em João 3:16 e tatuada no braço direito do vocalista Johnny Van Zant, ganha um simbolismo extra quando se pensa no Lynyrd Skynyrd como uma entidade cuja existência se perpetua.
Isso ocorre a despeito de, sobre o palco, não haver um integrante sequer entre os que gravaram os títulos essenciais da discografia nos anos 1970 e estabeleceram o padrão-ouro para o southern rock — influência que se verifica até hoje em nomes que beberam da fonte ou, dependendo do grau, banharam-se nessas águas.

Não que não haja na comitiva que subiu ao palco do Qualistage no último domingo (5) quaisquer vínculos com o passado. Irmão do cantor original Ronnie Van Zant, Johnny é um deles. Outro elo, talvez mais legítimo com o Skynyrd de 50 anos atrás, é Rickey Medlocke. De ascendência indígena e epíteto Sioux, foi baterista nos primórdios da banda e, desde 1996, carrega o estandarte como guitarrista. De presença quase transcendental, apesar da corpulência, é o cacique e o xamã da tribo fundidos em um só.

Completam o lineup deste tributo não apenas sonoro, mas visual: os guitarristas Damon Johnson, veterano com passagens por Alice Cooper, Thin Lizzy e Black Star Riders, e Mark Matejka, do Hot Apple Pie; o baixista Robbie Harrington; o baterista Michael Cartellone (ex-Damn Yankees); e o tecladista Peter Keys, que trouxe o tempero da Louisiana à banda, funcionando como o Dr. John que o Lynyrd encontrou para chamar de seu. Nos backing vocals, Carol Chase e Stacy Michelle.

E é tributo, sim, como o próprio Johnny reconheceu em entrevista a Igor Miranda publicada na Rolling Stone Brasil. Justamente por ele admitir que não há pretensões de reescrever a história, o foco é preservar a memória e honrar os mortos, como o telão reforça durante a hora e meia de show.

A “palavra” espalhada pelo grupo, a exemplo do título do álbum lançado em 2009, traz Deus e armas nas entrelinhas. Não que o público ali soubesse o que é a Segunda Emenda ou ostentasse adereços confederados ciente de seus significados. Ao avistar, a poucos metros um do outro, um conhecido político da direita e um dos mais engraçados humoristas da esquerda entoando “That Smell” a plenos pulmões, tem-se a certeza de que o território era neutro para ideologias.

Neutro também era o público do Lynyrd; galera que não costuma frequentar shows assiduamente. O arrefecimento após esta música, a terceira, foi notório. A empolgação beirou o “culposo” — quando não há intenção de curtir. Celulares numa mão, registrando imagens cuja sobrevida máxima será em stories de Instagram; bebidas caras obtidas após filas — uma para pagar, outra para retirar — na outra. O olhar típico de quem está na expectativa de que a próxima música lhe seja conhecida e ele possa, finalmente, cantar junto.

Entre os sons que receberam respostas aquém do merecimento, tanto pela foderosidade da música em si quanto pelo primor técnico da execução, destaque para “I Need You” (dedicada às “beautiful ladies” na plateia); “Down South Jukin’” e seu clima de bayou com direito a crocodilos no telão; “Saturday Night Special”, a favorita de Eddie Trunk; e “The Needle and the Spoon”, a predileta deste escriba.
As reações mais calorosas vieram em apenas cinco das 15 músicas; além de “That Smell”, a cartela do bingo foi preenchida em “Tuesday’s Gone” (dedicada a Gary Rossington), “Simple Man” (com a bandeira do Brasil exibida no telão por cinco segundos), “Sweet Home Alabama” (precedida por um trecho da ufanista “Red, White & Blue”) e, lógico, “Free Bird”. A derradeira da noite, com seu solo mítico, é tão cinematográfica que embala uma das cenas mais angustiantes de “Forrest Gump” (1994), quando Jenny (Robin Wright), sob efeito de drogas, sobe no parapeito de uma varanda e quase voa como o pássaro livre da letra.

A certa altura, Johnny até elogia, sabe-se lá se de coração ou com um subtexto sarcástico: “Não há nada como um público do Lynyrd”. Ele pergunta se todos lá acreditam em céu e conclama que cantem para os anjos lá de cima. Nem esse apelo celestial mostrou-se eficaz. Show é lá, no palco, e cá, no público. Chamada sem resposta, ou com resposta abreviada, dá a sensação de que a experiência em si poderia ter sido melhor. E dada a expectativa criada diante de uma história tão ímpar, deveria ter sido melhor.
Ao fim da catarse das guitarras de “Free Bird”, fica a lição: o tempo passa, as formações mudam e os rostos originais viram fantasmas no telão, mas a mística permanece intacta. Porque, afinal, certos pássaros, como já dizia a canção, simplesmente não se pode mudar.

Repertório — Lynyrd Skynyrd no Rio de Janeiro
- Workin’ for MCA
- What’s Your Name
- That Smell
- I Need You
- Gimme Back My Bullets
- Down South Jukin’
- Saturday Night Special
- Still Unbroken
- The Needle and the Spoon
- Tuesday’s Gone
- Simple Man
- Gimme Three Steps
- Call Me the Breeze (original de J.J. Cale)
- Sweet Home Alabama
Bis: - Free Bird
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