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Titãs provam relevância atual de “Cabeça Dinossauro” com show sem firulas em SP

Com pouco falatório e sem baladas ou convidados, banda abre turnê de 40 anos do álbum tocando-o na íntegra e mesclando lados B com hits na segunda etapa

Em 1986, este repórter era um mero aluno do Ensino Fundamental — à época o “antigo Primário” —, com apenas um dígito na idade. Hoje, é um virtual cinquentão. Já os Titãs entravam em estúdio com o produtor Liminha, em março e abril, para criar o álbum “Cabeça Dinossauro”, lançando-o em junho.

Quatro décadas depois, a leitura que deve ser feita para esta e qualquer turnê celebrando aniversário, seja de carreira ou de um disco, deve ser de resistência. Afinal de contas, quais relações humanas duram tanto tempo? Casamentos podem ruir em um ou dois anos. Por vezes, amizades e vínculos familiares que tinham tudo para seguir pela vida toda se rompem por pequenas besteiras do desgaste cotidiano.

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Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Superando dificuldades, os Titãs se mantiveram ativos mesmo com:

  • a transição do final da ditadura para governos civis;
  • os mais malucos planos econômicos elaborados neste país, não importando quem fosse o presidente;
  • a saída de boa parte dos membros: Arnaldo Antunes, Nando Reis, Charles Gavin e Paulo Miklos;
  • a perda de Marcelo Fromer — e o que poderia ter sido encarado como eterna dor e saudade foram transformados em celebração à vida com a presença de sua filha, Alice, na turnê “Encontro”, entre 2023 e 2024.

“Cabeça Dinossauro” não poupa críticas sociais. Mira, por exemplo, em estados totalitários, violência policial e o capitalismo selvagem por si só. Até “Família”, de ritmo leve e teor cômico, analisa problemas gerados em função do desgaste nos citados núcleos familiares — perrengues pelos quais todos passamos, variando apenas o grau, o sobrenome e o endereço.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Temas ainda atuais, que fazem Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto — os dois últimos superando cânceres — revisitarem a obra. Na prática, esperava-se “Cabeça Dinossauro” na íntegra e na ordem, mas a curiosidade residia sobre quem cantaria as músicas registradas nas vozes de Nando Reis (“Igreja” e “Família”), Paulo Miklos (“Estado Violência”, “A Face do Destruidor” e “Bichos Escrotos”) e Arnaldo Antunes (“Porrada” e “O Que”). De modo mais sintético, a resposta está no setlist mais adiante, com siglas para representar cada vocalista. Além disso, quais outras músicas seriam incluídas para preencher o tempo de show? Optaram por doze pedradas, também disponíveis no repertório ao fim da página.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

“Cabeça Dinossauro”

Sem banda de abertura e com 16 minutos de atraso em relação ao horário divulgado de 21h, a festa começou com uma narração do ofício da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) do Departamento de Polícia Federal referente a “Bichos Escrotos”, cuja execução em mídias públicas à época deveria censurar os sonoros “vão se f#der”. A partir daí, os mencionados Sérgio Britto (voz e teclados), Branco Mello (voz e baixo), Tony Bellotto (voz e guitarra) se juntariam a Beto Lee e Alexandre de Orio (guitarras) e Mario Fabre (bateria) e partiriam para as cabeças com “Cabeça Dinossauro” por inteiro e conforme concebido. Sem querer forçar a barra com um “faixa a faixa”, é interessante destacar alguns pontos.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Ao se ouvir a faixa-título, por exemplo, é necessário voltar um pouco no tempo e pensar no que ela representava ao inaugurar o álbum seguinte a “Titãs” (1984) e “Televisão” (1985), trabalhos indiscutivelmente mais pop e por vezes voltados ao reggae misturado ao rock. Talvez a mais pesada dessa dupla seja “Massacre”, justamente o encerramento de “Televisão”, quem sabe, sinalizando o início de um novo caminho, mas sejamos juntos: depois, pareceu brincadeira de criança se comparada ao material subsequente.

Sobre “AA UU”, uma rápida digressão: foi trilha da recentemente reexibida novela “Hipertensão” (1986/87), como tema de Napoleão, personagem interpretado pelo saudoso Cláudio Corrêa e Castro, na trama um adepto da disciplina a ponto de impor toque de recolher diário e exercícios físicos matinais aos funcionários e hóspedes de sua fazenda. Ao vivo, mesmo com três guitarras, não se ouvia o instrumento em seu início, problema rapidamente corrigido.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Ainda sobre o trio de guitarristas, “Igreja” trouxe riffs ganchudos, além de deixar Bellotto mais à vontade para se concentrar em substituir as linhas vocais gravadas por Nando Reis. Bem como no disco, foram as três músicas inaugurais da noite, mostrando a que viria a banda, tanto à época quanto atualmente. “Polícia” soou bem mais próxima da bônus gravada pelo Sepultura em “Chaos A.D.” (1993) do que de sua versão original e é sempre bom destacar seu legado, há anos utilizada como intro dos shows do grupo de metal capitaneado por Andreas Kisser.

Com Bellotto no microfone principal, “Estado Violência” manteve-se fiel ao registro em estúdio e, fechando o Lado A, o hardcore “A Face do Destruidor” é daquelas composições brutas que quem viu/ouviu agora pode se dar por satisfeito, pois qual a chance de tornarem a tocá-la em outra turnê?

Abrindo o lado B, “Porrada” trouxe solo ainda melhorado de Bellotto em relação à bolacha e foi sucedida por “Tô Cansado”, cantada e coescrita por Mello após uma madrugada jogando pingue-pongue em 1986, conforme relatado ao próprio em entrevista para a Rolling Stone Brasil. Durante “Bichos Escrotos”, com pouco além de vinte minutos de repertório, aproveitamos para olhar em volta e notar a casa cheia, com a pista premium em pé tomada, bem como os camarotes e os setores de A a H com cadeiras ocupadas, exceção feita a uns vazios nas últimas fileiras.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Se baladas e o formato acústico foram deixados de lado, não havia como excluir o reggae de “Família”, trazendo um componente alegre para a atmosfera em geral devido à identificação lírica imediata. A maioria do público era formada por senhores e senhoras, mas só ao lado deste repórter, quatro crianças com seus pais podiam vistas num raio de curta distância — fora o elevado número de adolescentes, prova cabal da renovação na base de fãs.

Rumo ao encerramento da primeira parte, “Homem Primata” talvez fosse tocada em qualquer turnê, mas e quanto a “Dívidas”? Preparando-se para a cobertura, este repórter ouviu o álbum todo e não possuía qualquer lembrança afetiva quanto a esta canção — super atual, aliás, pois todos sofremos para honrar os compromissos do mês. Foi outra que quem dela gosta precisa aproveitar a rara chance de ouvi-la agora e talvez nunca mais.

Mais longa do disco e da noite, “O Que” encerrou a primeira parte e reprisou seu início tão característico em bateria eletrônica disparado ao fundo. Se a turnê é o que é — com o perdão do quase trocadilho —, de todas as trocas nos vocais sem Nando Reis, Paulo Miklos e Arnaldo Antunes, ainda é um tanto estranho ouvi-la com a interpretação de outrem que não seja o terceiro músico citado. Pouco além de quarenta e dois minutos no relógio, o álbum todo foi resgatado.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

A segunda etapa

Branco Mello e Tony Bellotto até deixaram rapidamente o palco, mas não houve intervalo para a sequência do show. Sem perder o calor do momento, “Será Que É Isso Que Eu Necessito” abriu o segundo capítulo do espetáculo e, na prática, tudo viraria uma série de imprevisibilidades quanto às escolhas. Reembaralhadas, é possível separarmos as doze próximas em três blocos:

  • as surpresas: dava para contar nos dedos quem sabia de cor e acompanhava “Anjo Exterminador” — mesma situação testemunhada em “Canção da Vingança”, faixa mais recente do set (oriunda de “Doze Flores Amarelas”, 2018), e “Vou Duvidar” (Britto chegou a conferir ao fim: “Quantos de vocês conheciam esta aqui? Não muita gente, né?”);
  • as bolas de segurança: “Diversão” e o combo “Lugar Nenhum”, “Desordem” e “Flores” – estas, exatamente as três últimas, duas delas no bis;
  • canções no meio termo, nem tão famosas, nem tão inesperadas, tais como: “Armas Pra Lutar” (uma espécie de prima distante de “Polícia”), “Eu Não Sei Fazer Música” (com letra que deveria ser refletida por todos hoje em dia), “Nem Sempre Se Pode Ser Deus” e “Eu Não Aguento” (flertando com o rap e trazendo a intro de “Sangue Latino”, do Secos & Molhados, como em estúdio).
Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Em comum neste balaio, uma seleção cobrindo registros mais pesados e percorrendo oito discos distintos, sendo: quatro de “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” (1987); as duas primeiras de “Titanomaquia” (1993); e uma de “Õ Blésq Blom” (1989), “Tudo ao Mesmo Tempo Agora” (1991), “Domingo” (1995), “Como Estão Vocês?” (2003), “MTV ao Vivo: Titãs” (2005) e o já citado “Doze Flores Amarelas” (2018).

Como um complemento à última data que cobrimos na tour “Titãs Encontro – Pra Dizer Adeus”, foram novidades desta vez: “A Face do Destruidor”, “Dívidas”, “Anjo Exterminador”, “Armas Pra Lutar”, “Canção da Vingança”, “Vou Duvidar” e “Eu Não Aguento”, esta dedicada pro Britto a seu amigo e xará Sérgio Boneca. Sobre a música, o titã ainda admitiu: “Esta aqui a gente não toca há um bom tempo”. Ainda em fase de apuração, o único registro encontrado online sobre “Sérgio Boneca” é o ex-goleiro Serginho, da Portuguesa vice-campeão paulista de 1985.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Outro fator a ser indicado foi a extrema objetividade do sexteto. Os caras se concentraram em tocar, falando muito pouco e entregando à plateia o que ela desejava: música! Sem qualquer convidado, foi somente antes de “Canção da Vingança”, décima sétima do set e superando cinquenta e dois minutos no palco, que Bellotto deu “boa noite” aos presentes. Aproveitou para agradecer pela presença da equipe médica que o operou, sem citar o câncer no pâncreas. Foi a única interação mais “alongada”.

Integrante desde 2010, Mario Fabre mostrou-se super adaptado e emulou perfeitamente as batidas criadas por Charles Gavin. Beto Lee, nas seis cordas desde 2016, também está “em casa” e contribuiu com vocais de apoio que até podem parecer discretos, mas, sem eles, a sonoridade coletiva perderia em peso e pegada. Já Alexandre de Orio, substituto de Bellotto à época de seu tratamento em alguns shows em 2025, acabou ficando e, como ex-Claustrofobia, ficava a expectativa deste escriba de que, em algum momento, ele fosse arrepiar de vez e se enveredar pelo metal, socando a mamona na guitarra. O desejo foi em vão, pois, claro, assim descaracterizaria em demasia o som do conjunto.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Sem qualquer tipo de desordem ou flores, falas em tom de despedida ou “outro” para envelopar a performance, saímos da casa às 22h50, ao som de, sem brincadeira, “Our House”, do Madness, na discotecagem, em nada relacionando-se à banda ou ao espetáculo em si e apenas compondo o ambiente e sorrateiramente preenchendo o vazio sonoro ao fundo.

Se no passado “Cabeça Dinossauro” pode ter chocado e sofrido com censura, as citadas críticas à violência de estado, religião (independentemente do credo) e à economia se mantêm atuais exatamente na mesma semana em que viralizou um vídeo de 26 de novembro de 1979 com Ana Maria Braga (a própria) chamando uma matéria no programa “RT1” na extinta Rede Tupi e voltada ao aumento dos preços dos combustíveis. O vídeo também traz brigas no futebol e, você pode até duvidar, detalhes da guerra entre Irã e Estados Unidos. É… o mundo não mudou tanto assim.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Titãs — ao vivo em São Paulo

  • Local: Espaço Unimed
  • Data: 28 de março de 2026
  • Turnê: Cabeça Dinossauro 40 Anos
  • Produção: 30e

Repertório – 1h29’ (21:16 – 22:45)
BM = Branco Mello nos vocais principais; SB = Sérgio Britto; TB = Tony Bellotto
Parte 1: Cabeça Dinossauro (1986)
1. Cabeça Dinossauro [BM]
2. AA UU [SB]
3. Igreja [TB]
4. Polícia [SB]
5. Estado Violência [TB]
6. A Face Do Destruidor [SB]
7. Porrada [SB]
8. Tô Cansado [BM]
9. Bichos Escrotos [SB]
10. Família [TB]
11. Homem Primata [SB]
12. Dívidas [BM]
13. O Que [SB]
Parte 2
14. Será Que É Isso Que Eu Necessito? [SB]
15. Anjo Exterminador [SB]
16. Armas Pra Lutar [BM]
17. Canção Da Vingança [TB]
18. Vou Duvidar [SB]
19. Eu Não Sei Fazer Música [BM]
20. Diversão [SB]
21. Nem Sempre Se Pode Ser Deus [BM]
22. Eu Não Aguento [SB]
23. Lugar Nenhum [BM]
Bis
24. Desordem [SB]
25. Flores [BM]

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

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