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My Chemical Romance entrega espetáculo caprichado a SP e faz valer espera de 18 anos

Público que lotou Allianz Parque assistiu a encenação de "The Black Parade" e 2º ato imprevisível; The Hives abriu com precisão e atraiu novos seguidores

Pense num(a) adolescente de 15 anos cujo melhor amigo(a) foi acompanhar a estreia do My Chemical Romance em São Paulo, no saudoso Via Funchal, em fevereiro de 2008, e voltou cheio de estórias a ponto de causar impacto e alterar para sempre a vida deste/desta adolescente com sua mais nova descoberta: “Não é que a banda que você recomendou é boa mesmo?”.

A esperança de um retorno ao Brasil se estendeu bem. Veio o hiato de 2013 a 2019 e a pandemia no ano seguinte. Após longuíssimos 18 anos de espera para a pessoa que havia perdido o timing, só agora surgia a chance de finalmente assistir ao MCR ao vivo, seja na última quinta (5) ou nesta sexta-feira (6), no Allianz Parque, em São Paulo, com The Hives na abertura de ambos os compromissos (leia sobre o show deles mais adiante). A primeira data contou com ingressos esgotados.

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Para além dos apreciadores consolidados na década de 2000, há, também, uma parcela renovada de público, ainda que não formem necessariamente a maioria. De alguma forma, o som do My Chemical Romance atraiu a geração Z e manteve sob holofotes sua obra, quase toda disponibilizada há pelo menos 25 anos. Fenômenos similares ocorreram com Deftones, Fleetwood Mac, Oasis e Arctic Monkeys.

No caso do MCR, aparentemente uma banda nichada, por que isso ocorre? Seria pelas letras de apelo teatral que abordam sensbilidades humanas de um jeito que criou conexão com públicos mais jovens? Ou em função do som que, apesar dos ingredientes que vão do gótico ao indie, ainda é fortemente calcado no emo/pop punk de melodias grudentas? Talvez tudo isso somado a outros elementos. Vai saber.

Fato é que: seja para o fã veterano ou novato, a espera não foi em vão. A teatralidade inicial oferecida foi garantia de entretenimento puro, sem exageros a ponto de transformar a aposta em algo piegas ou circense — e tornando praticamente obrigatório dividir o show em “primeiro e segundo atos”, por assim dizer, bastante distintos entre si.

O primeiro ato

No primeiro ato, com “The Black Parade” (2006) por inteiro e em ordem, não tinha como dar errado — desde que você fosse um apreciador do disco. Por outro lado, se havia alguém perdido e que tivesse caído de paraquedas no estádio, a saída seria tentar curtir as músicas mesmo, fora todo o apelo visual tão rico em detalhes que seria inútil tentar descrever tudo por aqui, especialmente para não matar a graça de quem irá apenas à segunda data na cidade.

Gerard Way (voz), Ray Toro (guitarra), Frank Iero (guitarra) e Mikey Way (baixo) são acompanhados pelo tecladista Jamie Muhoberac (ao fundo e à direita de quem olhava para o palco), o baterista Jarrod Alexander (suas vestes lembravam uma camisa-de-força, obviamente com as mãos soltas para poder mandar bronca em seu instrumento), a violinista Kayleigh Goldsworthy e a violoncelista Clarice Jensen — além da cantora de ópera e cereja do bolo Charlotte Kelso, ora fazendo as vezes de “Nurse Sylvia” e se destacando em “Mama” (para citarmos um único exemplo), ora entrando na personagem e atuando brilhantemente.

Nesta primeira parte, três baladas mostraram-se especiais. “I Don’t Love You”, com seu começo levemente soando como uma espécie de prima distante de “Yellow” (Coldplay), foi cantada emotivamente em uníssono e o leve atraso das vozes ecoando das cadeiras, especialmente as do fundo, produziam efeito sonoro interessante. “Cancer” foi ainda mais linda com lanternas acesas por todo o estádio. “Disenchanted” atraiu a mesma iniciativa luminosa, em escala um pouco menor.

No mais, “Welcome to the Black Parade” foi a marcha convocatória para quem ainda não embarcara na aventura proposta pelo My Chemical Romance. Durante “House of Wolves”, rolou uma descoberta curiosa da parte deste escriba: mesmo com o setlist padronizado e o povo sempre sabendo o que viria a seguir, surgiam gritos de aprovação como se alguns fãs estivessem realmente sendo pegos de surpresa.

Rumando para o final do álbum, a conclusão de “Sleep” foi visceralmente pesada e “Teenagers” mostrou-se bastante divertida. “Famous Last Words”, outra em uníssono, trouxe uma porção de chamas rasteiras, por toda a extensão do palco, da base de um telão ao outro. “The End.” foi reprisada com foco no piano e no violino. A faixa escondida “Blood” virou “outro” emendada a um intervalo sem perda de interesse e de aproximadamente seis minutos.

A partir daí, o “segundo ato” mudaria completamente o cenário, com escolhas imprevisíveis no repertório.

O segundo ato

Exclusivamente com Gerard, Ray, Frank, Mikey e Jamie no palco — todos vestindo camisetas e jeans —, os tais gritos de aprovação a partir de “Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)” expressavam real surpresa. Afinal de contas, considerando os repertórios das datas sul-americanas antes de São Paulo (de Lima a Buenos Aires, com duas noites em Santiago no meio), havia um espectro de 24 canções à disposição somente para esta segunda parte do set. Ficava virtualmente impossível prever o que viria pela frente.

Houve duas novidades estreando na turnê: “The World is Ugly” e “Cemetery Drive”. Canções como “Skylines and Turnstiles” e “Thank You for the Venom” despertam a atenção de qualquer fã de um CPM 22 da vida; “Hang ‘Em High” foi autêntica cacetada; e não poderiam faltar as clássicas “I’m Not Okay (I Promise)” e a saideira “Helena”, concluída com o simbólico verso “So long and good night”, cantado duas vezes e sinalizando que o fim era iminente.

O fim — e a reflexão

Do disparar de “Mr. Blue Sky” (Electric Light Orchestra) às 20h48 — claramente com aumento de volume para caracterizá-la como intro — até “It’s Over” (Roy Orbison), transcorreram-se duas horas e 19 minutos, com esta quebrando uma catarse e terminando de inaugurar o choque de realidade que poderia ser lido nos olhares dos fãs. Algo do tipo: “Mas acabou mesmo?”.

Temporariamente, sim, pois há a oportunidade de replay para quem for ao Allianz Parque novamente nesta sexta-feira (6). Na dúvida, leve lenços de papel para conter as emoções e, claro, capa de chuva. Por sorte, uma levíssima garoa só caiu por dois breves momentos ao longo de toda a noite de quinta (5). E prepare-se para se submeter à revista mais pentelha e quase invasiva de sua vida. Pelo menos ninguém acendeu sinalizadores — que, apesar de “lindos”, podem causar queimaduras, corre-corre ou inalação de fumaça tóxica.

Para você que ainda se pergunta como o My Chemical Romance saltou de duas noites numa casa de shows em São Paulo em 2008 para uma data esgotada e outra extra num estádio, a resposta é simples: tendo ou não renovação de público, o/a tal adolescente lá do passado tornou-se um trintão que ganha sua própria grana e jamais desistiu da banda, pois pertence à sua identidade. Mais ou menos como torcedores de times grandes de futebol em épocas de longas filas de títulos, em que a devoção só aumenta.

A única dúvida que pairava na cabeça deste repórter ao ir embora era: teria o My Chemical Romance também angariado novos fãs, exatamente como fizera The Hives? Ao menos naquela noite, pregando basicamente para seus próprios convertidos, provavelmente não. Por outro lado, o grupo americano está entre os 500 artistas mais ouvidos do Spotify em todo o planeta no momento atual — mesmo com apenas uma música lançada nos últimos 12 anos. De toda forma, o espetáculo valeu a pena. Vá conferir!

The Hives

Hora de voltar um pouco no tempo. A poucas horas de The Hives subir ao palco e já nas dependências do estádio, tivemos a oportunidade de bater um rápido e descontraído papo com os irmãos Nicholaus Arson (Niklas Almqvist; guitarra) e Howlin’ Pelle Almqvist (Per Almqvist; voz). A entrevista será publicada em breve.

Ao ser perguntado sobre a resposta dos fãs do My Chemical Romance quanto à performance de sua banda, mesmo a despeito das diferenças de sonoridades, Pelle garantiu:

“Tem sido fantástico e os fãs têm reagido muito. A resposta tem sido boa e divertida. Também acho que eles têm se surpreendido um pouco. Acho que muitas, ou algumas pessoas, nunca nos viram antes e realmente adoramos tocar para pessoas novas. Então tem sido divertido.”

Não surpreende. O garage rock visceral do The Hives é muito atraente para o ambiente ao vivo. Rápido, direto, divertido, dançante. Cabe em espaços mainstream ou indie sem dificuldade. Só no Brasil, eles já estiveram em festivais alternativos Lollapalooza e no Primavera Sound, abriram para o My Chemical Romance do mesmo jeito que serviram de atração introdutória ao Arctic Monkeys, dividiram palco com o Melvins e, em visita recente para agenda promocional, tocaram no “The Noite”, programa de TV de Danilo Gentili. Pois é.

De toda forma, Pelle não poderia ter sido mais objetivo. Foi exatamente o que testemunhamos a partir de 19h27, quando os irmãos e os colegas Vigilante Carlstroem (Mikael Karlsson Åström; guitarra), The Johan and Only (Johan Gustafsson; baixo) e Chris Dangerous (Christian Grahn; bateria) entraram com listras luminosas em seus paletós.

Ao longo de 48 minutos distribuídos em 11 músicas vindas de quase todos os álbuns (preterindo somente o début “Barely Legal”, de 1997, e “Tyrannosaurus Hives”, de 2004) e contendo com somente cinco balões brancos com as letras “H”, “I”, “V”, “E” e “S” suspensos ao fundo do palco, os suecos simplesmente detonaram. Quer um exemplo prático da aceitação? “Enough is Enough”, do disco mais recente “The Hives Forever Forever the Hives” (2025), abriu o set e, de fato, os fãs pularam e cantaram!

Ainda que o time como um todo seja coeso, é impossível deixar de destacar a atuação de Pelle: verdadeira figura e aos quarenta e sete anos, o cara não parou quieto. Deu trabalho a um roadie vestido de ninja, todo de preto, desenroscando o fio de seu microfone todas as vezes que ele decidia se deslocar pelo palco, por vezes percorrendo toda sua extensão lateral.

Frontman dos bons, arriscou frases em português claríssimo — às vezes sem apelar às tradicionais colas — e pediu palmas e barulho, atiçando a platéia ao esbanjar carisma. Chegou a abrir sua camisa, mostrar o peito e fazer um “S2”, ganhando ainda mais respeito do público majoritariamente jovem e renovado à espera do headliner americano. E ainda foi hilário vê-lo confundir o nome da terceira música, primeiro anunciando “Rigor Mortis Radio” para imediatamente se corrigir ao dizer que era, na verdade, “Born a Rebel”.

Evidentemente, o hit “Hate to Say I Told You So” tirou o povo para dançar, com direito ao citado roadie tocando pandeiro — vá lá saber se era o mesmo, uma vez que todos eram ninjas. Ainda durante o grande hit, Pelle desceu para o pit pedindo para o povo cantarolar a melodia do refrão em meio a riffs pesados e certeiros, baixo marcante e batidas precisas. O vocalista repetiria as investidas no gargarejo novamente em “Tick Tick Boom” e na saideira “The Hives Forever Forever The Hives”.

Em suma, mesmo tocando para um público diferente e regressando à cidade desde a passagem solo pelo Tokio Marine Hall em outubro de 2024, então pela turnê do álbum “The Death of Randy Fitzsimmons” (2023), os suecos certamente conquistaram novos seguidores.

Por fim, fica aqui um salve ao espirituoso fã que ergueu uma foto-montagem do “Pelé Beijoqueiro”. Se o registro original é de outubro/1977, com o Rei do Futebol beijando o rosto do boxeador Muhammad Ali em seu jogo de despedida pelo New York Cosmos, também é fato que as mais diferentes versões viralizaram trocando carinhos com, por exemplo, a Rainha Elizabeth II, Mona Lisa, Maradona e Salvador Dalí em pôsteres espalhados por São Paulo. Porém, a arte erguida na pista premium e exibida nos telões tinha simplesmente Pelé beijando Pelle!

My Chemical Romance — ao vivo em São Paulo

  • Local: Allianz Parque
  • Data: 5 de fevereiro de 2026
  • Turnê: The Black Parade 2026
  • Produção: 30e / Move Concerts

Repertório:

Intro 1: Mr. Blue Sky [Electric Light Orchestra]
Intro 2: Over Fields (The National Anthem of Draag)

Parte 1: The Black Parade (2006)

  1. The End.
  2. Dead!
  3. This Is How I Disappear
  4. The Sharpest Lives [com “The Eye” de intro]
  5. Welcome to the Black Parade
  6. I Don’t Love You
  7. House of Wolves
  8. Cancer
  9. Mama [com Charlotte Kelso como “Nurse Sylvia”]
  10. Sleep [com “The Big Sky” de intro]
  11. Teenagers
  12. Disenchanted
  13. Famous Last Words [com reprise de “Welcome To The Black Parade”]
  14. The End. [reprise e com trecho de piano e violino]
    Outro: Blood

Parte 2

  1. Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)
  2. Skylines and Turnstiles
  3. Heaven Help Us
  4. The World Is Ugly
  5. Hang ‘Em High
  6. I’m Not Okay (I Promise)
  7. Thank You for the Venom
  8. Cemetery Drive
  9. Headfirst for Halos
  10. Helena
    Outro: It’s Over [Roy Orbison]

Repertório — The Hives:

  1. Enough Is Enough
  2. Main Offender
  3. Born a Rebel
  4. Paint a Picture
  5. Bogus Operandi
  6. Hate to Say I Told You So
  7. Countdown to Shutdown
  8. Legalize Living
  9. Come On!
  10. Tick Tick Boom
  11. The Hives Forever Forever The Hives
    Outro: Nobody Does It Better [Carly Simon]

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