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Living Colour compila e mostra o seu melhor ao celebrar quatro décadas em SP

Apresentação no Tokio Marine Hall reafirma posto da banda como uma das melhores do planeta não apenas por performance, como também por escolhas de repertório

Ao longo de quatro décadas de trajetória — celebradas na atual turnê “The Best of 40 Years” —, quase tudo já foi dito sobre o Living Colour. Ainda assim, soa insuficiente afirmar repetidamente o quanto esta banda americana surgida em Nova York figura entre as mais subestimadas da história.

O quarteto composto por Corey Glover (voz), Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo; desde 1992 ocupante da vaga deixada por Muzz Skillings) e Will Calhoun (bateria) não apenas quebrou barreiras estéticas ao fundir seu hard rock com vários estilos musicais de modo próprio. Também enfrentou o racismo estrutural em um cenário que insistia em limitar quem podia ou não ocupar determinados espaços dentro do gênero. O próprio Reid já comentou sobre a dificuldade de a indústria saber “onde colocar” a banda.

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Foto: Gustavo Diakov @xchicanox

Rótulos mal colocados e espaços não ocupados à parte, o Living Colour merecia mais atenção. Talvez a tenha no Brasil, onde normalmente se apresenta em grandes casas, diferentemente dos Estados Unidos e Europa. Seja aqui ou em qualquer outro país, eles ainda soam incríveis ao vivo quatro décadas depois.

Na última sexta-feira (27), o grupo se apresentou no Tokio Marine Hall, em São Paulo, como parte de uma excursão nacional ocorrida menos de 1 ano e meio após a anterior. A agenda continental foi iniciada dia 20 de fevereiro em Montevidéu, Uruguai, e a local teve seu pontapé inaugural na quinta (26), em Porto Alegre. Rio de Janeiro e Curitiba são os próximos destinos por aqui, respectivamente neste sábado (28) e domingo (1º).

Madzilla

Como atração de abertura, a produtora Top Link Music escalou o Madzilla, banda formada em Las Vegas, Estados Unidos, com turnês realizadas ao lado de Soulfly, Tarja Turunen e Saxon, inclusive pelo Brasil. O grupo composto por David Cabezas (voz e guitarra), Sarah Dugdale (guitarra), Courtney Lourenco (bateria) e Thomas Palmer (baixo e vocais de apoio) ofereceu um set de 8 músicas — incluindo a nova “Angel Genocide”, a ser incluída em um álbum futuro — em 40 minutos de show.

Foto: Gustavo Diakov @xchicanox

A performance pouco entreteu os fãs que chegavam ao Tokio Marine Hall. Pode ser pela pouca similaridade sonora em comparação ao Living Colour: a atração introdutória se declara adepta ao “thrash metal melódico”.

Bem que Cabezas tentou convencer a plateia. O carismático frontman equatoriano se dirigiu ao público sempre em português e ainda arriscou um elogio sobre sermos o melhor público. “A gente do rock no Brasil é a melhor gente de todo o mundo”, cravou. Mas se era para ser assim, talvez não precisasse de show de abertura.

Foto: Gustavo Diakov @xchicanox

Living Colour

Em entrevista a Bernardo Araújo para o jornal O Globo, Doug Wimbish comentou ter realizado suas primeiras apresentações com o Living Colour justamente na estreia do grupo em território nacional, durante o festival Hollywood Rock 1992, em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Foi depois daquele show que me pediram para entrar na banda”, afirmou. A partir daí, ocorreram outras 11 turnês locais, contando com a atual. A relação com o Brasil é forte — e o público daqui costuma retribuir com fidelidade, daí a garantia de casa cheia quando o quarteto nos visita.

Foto: Gustavo Diakov @xchicanox

Com início pouco após às 22h, o show buscou oferecer, de fato, os melhores momentos — ou ao menos os mais celebrados — da trajetória do grupo. Três dos seis álbuns lançados até hoje, justamente os primeiros, foram representados no setlist. Apenas o filé. Clássicos como “Cult of Personality”, “Open Letter (To a Landlord)” (com verdadeiro show vocal de Corey Glover na introdução) e “Glamour Boys”, de “Vivid” (1988), além de “Love Rears Its Ugly Head”, de “Time’s Up” (1990), dividiram espaço com sons que não estouraram à época, mas se tornaram celebrados pelos fãs, a exemplo das pesadas “Leave It Alone” (posicionada na abertura), “Ignorance is Bliss” e “Go Away”, vindas de “Stain” (1993).

Foto: Gustavo Diakov @xchicanox

Embora “Vivid” seja o disco campeão de vendas, “Time’s Up” acabou mais representado no repertório, trazendo seis faixas contra cinco de seu antecessor. Uma delas, a já citada “Go Away”, não era executada em São Paulo desde 2009. Já “Solace of You”, escolhida para o encerramento, estava fora dos setlists nas visitas à capital paulista há 13 anos.

Entre seus desfiles de poderio vocal — marcados por uma naturalidade impressionante —, Corey Glover ainda encontrou tempo, antes de “Bi”, para se sentar no palco e cantar “Happy Birthday” diretamente a uma fã aniversariante. Outro momento que fugiu do protocolo se deu com uma emotiva performance de “Hallelujah”, clássico de Leonard Cohen dedicado por Vernon a uma pessoa próxima perdida recentemente. Esta e a versão de “Memories Can’t Wait” (Talking Heads) foram os únicos covers da noite, apesar do setlist ter previsto “Should I Stay or Should I Go”, do The Clash, como número final.

Glover não foi o único a ter momentos de destaque individual. Doug Wimbish adquiriu protagonismo em momentos diversos, incluindo o medley “White Lines (Don’t Do It)” (Melle Mel), “Apache” (Sugarhill Gang) / “The Message” (Grandmaster Flash and the Furious Five). Vernon Reid estendeu seu solo em “This is the Life”, faixa de “Time’s Up” tocada no Brasil pela primeira vez desde 2004. Já Will Calhoun ofereceu um incrível solo de bateria após “Open Letter (to a Landlord)”, com direito a um trecho de “Baianá”, música do grupo brasileiro Barbatuques que adapta “Boa Tarde Povo”, da compositora alagoana Maria do Carmo Barbosa e Melo. Calhoun, vale destacar, é um estudioso da percussão nacional.

Foto: Gustavo Diakov @xchicanox

Impecável nos álbuns, o Living Colour soa ainda melhor ao vivo. Além de irretocável tecnicamente, o grupo desfruta de uma afiada química construída ao longo de décadas. Por nunca ter recebido o devido reconhecimento, é um raro exemplo de atração que talvez nem precise se cobrar por material inédito. Mesmo com um repertório antigo, não soa datado. Segue como uma das melhores bandas para se assistir em cima de um palco.

Living Colour — ao vivo em São Paulo

  • Local: Tokio Marine Hall
  • Data: 27 de fevereiro de 2026
  • Turnê: The Best of 40 Years
  • Produção: Top Link Music

Repertório:

  1. Leave It Alone
  2. Middle Man
  3. Memories Can’t Wait (original do Talking Heads)
  4. Go Away
  5. Ignorance is Bliss
  6. Funny Vibe
  7. Bi
  8. Hallelujah (original de Leonard Cohen)
  9. Open Letter (to a Landlord)
  10. Solo de bateria (com trecho de “Baianá”, do Barbatuques)
  11. This Is the Life
  12. Pride
  13. White Lines (Don’t Do It) (Melle Mel), Apache (Sugarhill Gang) / The Message (Grandmaster Flash and the Furious Five)
  14. Glamour Boys
  15. Love Rears Its Ugly Head
  16. Type
  17. Time’s Up
  18. Cult of Personality
  19. Solace of You
Foto: Gustavo Diakov @xchicanox

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Jéssica Mello
Jéssica Mello
Brasiliense vivendo em São Paulo há 4 anos, acumulando momentos e vários shows na bagagem.

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