Conception faz grande show em SP para plateia esvaziada, mas barulhenta

Em pouco menos de 2h, estreia marcante no Brasil não fugiu da nostalgia, mas mostrou cultuada banda norueguesa olhando para o futuro

É raro ver uma banda tão empolgada ao tocar num Carioca Club esvaziado. Em sua estreia no Brasil, numa exibição animada e perfeccionista digna de quem foi referência do prog-metal europeu dos anos 90, os noruegueses do Conception não apostaram no saudosismo em repertório apoiado nos trabalhos lançados após sua reunião.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Comandados pelo vocalista Roy Khan, os seis músicos se mostraram genuinamente felizes pela calorosa recepção do público que com muito esforço, e até com a ajuda de Tore Østby — o simpático e exímio guitarrista “foi pra galera” solar lá perto do final da apresentação —, preenchia metade da pista na casa de shows em São Paulo. Não deveria ter demorado tanto para o grupo finalmente pisar no país.

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Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Três bandas de abertura foi demais…

…E poderia também ter começado mais cedo. O fato de a produtora Far Music ter optado por três bandas de abertura é louvável ao abrir espaços para outros artistas se promoverem, mas quando o primeiro grupo sobe ao palco depois das sete da noite de um domingão (9) bravo, não é fácil para ninguém.

Essa tarefa coube ao Ego Absence. O quarteto de São Paulo começou seu show às 19:15 com o bem humorado vocalista Raphael Dantas avisando estar recém recuperado de uma laringite e já tentando empolgar o pouco público presente com os maneirismos típicos de um certo cantor de uma donzela de ferro inglesa.

As bases de teclado pré-gravadas soterraram qualquer instrumento ou voz executado no palco nos primeiros minutos dos quase trinta em que a banda se apresentou. Incluindo a participação da cantora Priscila Reimberg para reproduzir as partes de Ciça Moreira em “Colibri”, o Ego Absence apresentou um prog-metal de evidente apuro técnico, mas ainda carente de maior lapidação nas melodias.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Já o Armiferum, também de São Paulo, acelerou os bumbos na noite e adicionou agressividade ao seu power metal graças à atuação do vocalista Ian Gonçalves, que variava dos tons altos à rispidez sem aparentar muita dificuldade.

Os timbres de teclado de Vithor Moraes soavam deslocados da forma como o instrumental muitas vezes se apropriava de influências metálicas extremas, mas seu “keytar” só não chamou mais atenção do que o machado usado pelo vocalista do Living Legend, Pedro Zupo, ao entrar no palco para uma canja na canção final, “Titans of Steel”.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Faltavam vinte minutos para às nove da noite, o horário previsto de início do show do Conception, quando subiu ao palco o Maestrick, de São José do Rio Preto, no interior paulista. Das três bandas de abertura, era a única com uma carreira consolidada ao longo de vinte anos, o que ficou evidente na maturidade de suas versáteis composições progressivas apresentadas na meia-hora na qual o grupo esteve no palco.

O cantor Fábio Caldeira, que já fez vocais de suporte na carreira solo de Edu Falaschi, anunciou logo de cara um repertório focado em músicas novas, de um disco a ser lançado no próximo ano, quebrando o hiato desde “Espresso della vita: Solare”, de 2018. Uma delas, “Lunar Vortox”, foi gravada por Roy Khan, mas o vocalista da banda principal da noite não deu uma ajuda quando o grupo a executou.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Carioca Club esvaziado e barulhento

O Maestrick saiu do palco às 21h10, quando já estava previsto para o Conception ter começado sua apresentação. O Carioca Club não se encheria além do público que então se estendia até a metade da pista da casa, com todos confortavelmente transitando sem apertos.

As cortinas do palco se abriram minutos antes das 21h30. O som do PA local começou a executar o tema instrumental “re:conception”, faixa-título do primeiro single lançado pelo Conception em 2018 depois de seu prematuro final vinte anos atrás, quando o vocalista Roy Khan se juntou aos americanos do Kamelot.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Arve Heimdal espancou a caixa de sua bateria para dar início à primeira música, a nova “Grand Again”, também daquele single e regravada no álbum “State of Deception” (2020). Deixou fortes os sinais de que o retorno do Conception não foi um ato de saudosismo.

O público também não parecia estar lá para um show nostálgico, como ficou claro na recepção empolgada à música inicial ter sido muito maior em comparação à seguinte, “A Virtual Lovestory”, do incompreendido e rejeitado “Flow” (1997). O último disco antes do fim do Conception, lançado no Brasil naquela época pela “gravadora da revista”, foi um provável primeiro contato com os noruegueses da parcela mais velha dos presentes no Carioca Club, que então dificilmente acreditavam um dia ver a banda no país.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Ainda assim, mal acabadas as duas primeiras músicas e Roy Khan, cuja icônica passagem pelo Kamelot é o motivo pelo qual a maior parte do público tomou conhecimento de sua antecessora banda norueguesa, já mostrava arrependimento pela demora para vir ao país. A resposta foi o nome “Conception” gritado por uma plateia não muito numerosa, mas barulhenta, antes da execução da morosa “Waywardly Broken”, outra do disco mais recente.

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Show esquentou mesmo nos clássicos

Quem queria ver músicas de quando o Conception se tornou uma das referências de um equilíbrio tênue entre prog e power metal típico europeu nos anos 90 ainda precisou aguardar por outras duas canções mais novas. Em uma delas, “The Mansion”, Aurora Amalie Heimdal, vocalista de apoio do grupo e responsável pelos gritos mais agudos que hoje Khan não atinge mais, foi reticente e só após o solo assumiu a frente do palco para executar as partes originalmente gravadas por Elize Ryd, do Amaranthe.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Quando finalmente Tore Østby tocou o riff inicial de “A Million Gods”, de “In Your Multitude” (1995), com o baixo de Ingar Amlien estalando ao segurar a base, Khan teve dificuldades para reproduzir seus tons altos, mas contou a ajuda do público no refrão. A reçaão efusiva dos brasileiros foi devidamente registrada em vídeo pelo vocalista após o solo de guitarra estendido e empolgado, com Østby fazendo coraçõezinhos com a mão e Khan dizendo que aquilo não era bom para o seu ego.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

A animada “Quite Alright” não foi cantada pelo público como esperava Khan ao anunciar a faixa do EP “My Dark Symphony”, diferente do que aconteceria na próxima música, após o palco ser rearranjado para a seção acústica do repertório.

Dedicada à promotora do show no Brasil, “Silent Crying”, clássica balada de “Parallel Minds” (1993), disco mais celebrado da carreira do Conception, teve seu refrão cantado em coro pelo público, que depois improvisou danças para “Sundance”, divertido experimento latino lançado como bônus em vinil numa rara versão limitada de “In Your Multitude” e foi posteriormente regravado em “Flow”.

O grande momento da noite no Carioca Club veio quando os instrumentos foram replugados. Executadas de forma precisa em sequência, “Gethsemane”, faixa de abertura de “Flow”, e “Parallel Minds”, do álbum homônimo, serviram como lembrança de porque o som único do Conception foi cultuado nos anos 90.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Banda empolgada no fim

O show poderia ter acabado ali, mas ninguém no Carioca Club queria ir embora e o Conception tinha mais músicas novas para tocar. Na balada “Feather Moves”, outra daquele primeiro single de 2018, Tore Østby se empolgou no solo de guitarra e invadiu a pista, o bar, o camarote, só faltou entrar no banheiro. Amilien foi mais controlado ao apenas tocar seu baixo quase colado aos fãs do gargarejo, enquanto Khan tirava selfies com os que se apertavam na pista aos seus pés.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Antes de encerrar a primeira parte da apresentação, ainda houve tempo para mais três músicas: duas delas, “By the Blues” e “She Dragoon”, do disco mais recente, e separando-as, “Reach Out”, cheia de efeitos eletrônicos e com um groove de difícil digestão para o público quando “Flow” foi lançado em 1997, mas devidamente assimilado mais de vinte e cinco anos depois.

O retorno ao palco não foi demorado, afinal já se passavam das onze da noite. A tensa “My Dark Symphony”, faixa-título do EP de 2018, veio sob uma iluminação forte que dificultava a visão. O final, previsível, foi com “Roll the Fire”. A canção mais celebrada de “Parallel Minds” recebeu coros do público no refrão e  encerrou a marcante estreia do Conception no Brasil.

A apresentação de pouco menos de duas horas, longe de ser nostálgica, mostrou uma banda orgulhosa do passado, confiante no presente e prometendo voltar no futuro. Talvez para um lugar menor, mas certamente com um público barulhento.

*Mais fotos ao fim da página.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Conception — ao vivo em São Paulo

  • Local: Carioca Club
  • Data: 9 de junho de 2024
  • Turnê: Latin America Tour 2024
  • Produção: Far Music Entertainment

Repertório:

  1. re:conception (Intro pré-gravada)
  2. Grand Again
  3. A Virtual Lovestory
  4. Waywardly Broken
  5. No Rewind
  6. The Mansion
  7. A Million Gods
  8. Quite Alright
  9. Silent Crying (Acústica)
  10. Sundance (Acústica)
  11. Gethsemane
  12. Parallel Minds
  13. Feather Moves
  14. By the Blues
  15. Reach Out
  16. She Dragoon

Bis:

  1. My Dark Symphony
  2. Roll the Fire
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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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