Como The Who popularizou a ópera rock com “Tommy”

Ícones do rock transcenderam a cena que lhes gerou e entraram para o panteão de lendas do estilo

Por trás de quase todo clichê do rock, você vai encontrar The Who. O quarteto inglês basicamente ajudou a criar o manual de excessos do gênero, que muitas bandas continuam seguindo até hoje. Entretanto, quando o fizeram, não era para satisfazer nenhuma regra ou tradição.

Quando Pete Townshend (guitarra), Roger Daltrey (voz), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria) faziam qualquer coisa, era para viabilizar a ambição desenfreada da banda. Sejam performances espalhafatosas quando todo mundo se comportava no palco, experimentação no estúdio ou álbuns conceituais, tudo isso vinha do impulso natural dos quatro músicos.

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A culminação disso ocorreu quando eles decidiram fazer uma versão moderna para um dos maiores símbolos da música clássica. Uma profanação completa da tradição vigente. Nada mais rock’n’roll.

Essa é a história de “Tommy”, a primeira grande ópera rock.

Origens estéticas

The Who era uma banda mod. Formado por três colegas de escola de Acton, bairro da zona leste da capital inglesa Londres, o grupo se tornou um dos primeiros símbolos da subcultura no Reino Unido, conhecida por sua moda e pelo consumo de R&B americano. Mas tocar covers para um público essencialmente underground não era suficiente.

Pete Townshend compôs uma música em 1964 chamada “I Can’t Explain” que deliberadamente soava como outro grupo londrino, The Kinks. Foi uma tentativa de chamar a atenção do produtor Shel Talmy.

Deu certo. Eles conseguiram um contrato de gravação e o single se tornou popular em rádios piratas operando no Mar do Norte para escapar das leis de censura do Reino Unido.

O segundo compacto do grupo, “Anyway, Anyhow, Anywhere”, continha vários elementos comuns às performances ao vivo do The Who, mas eram vistos como inaceitáveis pela gravadora. Townshend deslizava a palheta pelas cordas, usava o seletor de captador como efeito sonoro e moldava feedback de maneira musical. Inicialmente rejeitado pelo braço americano da gravadora Decca, o single chegou ao Top 10 britânico.

O ano de 1965 do The Who foi coroado em outubro quando eles lançaram sua canção mais clássica, “My Generation”. O petardo sonoro declarava guerra aberta entre gerações com direito a vocais gaguejados e um solo de baixo. O single chegou à 2ª posição no Reino Unido. Não era suficiente.

Lançado em 1966, o segundo álbum de estúdio do grupo tinha 10 minutos a menos que o necessário. Ao invés de simplesmente comporem três canções de qualquer jeito, o produtor Kit Lambert incentivou Townshend a trabalhar em uma peça musical mais longa. O resultado foi “A Quick One, While He’s Away”, uma faixa contando uma história de adultério, violência e perdão, com direito a personagens e narrativa clara. Tudo isso sem abrir mão da sonoridade característica do The Who.

O disco chegou ao 4º lugar no Reino Unido. Pete estava intrigado com as possibilidades.

Uma turnê bem-sucedida pelos Estados Unidos os colocou em evidência no país. A maneira que resolveram capitalizar em cima desse hype foi o álbum conceitual “The Who Sell Out” (1967). Construído como se fosse uma transmissão de uma rádio pirata – homenagem ao meio responsável por lhes apresentar ao público britânico –, o disco continha singles de vários estilos, assim como jingles comerciais compostos pela banda. Era um dos primeiros exemplos de pop art sendo aplicada no rock.

Podia ter sido um fracasso retumbante, considerando a pretensão do projeto, porém o single “I Can See for Miles” chegou ao Top 10 em ambos os lados do Atlântico. “The Who Sell Out” foi o primeiro álbum do grupo a atingir o Top 50 da Billboard.

Mesmo assim, seja num ponto de vista comercial ou criativo, não era suficiente.

Um garoto cego, surdo e mudo

Pete Townshend experimentou com o formato da ópera rock algumas vezes antes. Em 1966, o guitarrista trabalhou em um ciclo musical apelidado “Quads” sobre um futuro no qual pais poderiam escolher o sexo de seus filhos. Apesar do projeto não ter saído completamente do papel, ainda assim rendeu o single “I’m A Boy”, que já nos anos 60 lidava de uma maneira embrionária com disforia de gênero.

The Who tinha várias canções com letras tabu. “A Quick One, While He’s Away” é sobre adultério e o impacto emocional de traições em uma relação. “A Legal Affair” fala sobre divórcio. “Pictures of Lily” era sobre masturbação.

Entretanto, sucesso comercial era a principal métrica da viabilidade de uma banda naquela época — e mesmo com uma turnê lucrativa pelos EUA, a banda estava com o futuro ameaçado. Eles não eram mais adolescentes. A cultura mod estava em decadência. Os singles lançados após “The Who Sell Out” não tiveram o mesmo sucesso dos antecessores. E o grupo havia sido reduzido à destruição de seus instrumentos em shows, uma prática financeiramente irresponsável.

A necessidade de uma mudança de rumo era real para garantir a sobrevivência do grupo. Tanto Townshend quanto Kit Lambert viram esse momento como uma oportunidade para expandir as explorações de ópera para um formato de álbum. Vale ressaltar que eles não eram os únicos exploradores dessa ideia. O grupo Pretty Things também trabalhava no álbum “S.F. Sorrow” ao mesmo tempo, uma exploração psicodélica da vida de um homem.

Entretanto, como é refrão dessa história, isso não era suficiente para Pete Townshend. Em entrevista de 1968 à Rolling Stone, ele falou sobre o objetivo por trás do próximo álbum da banda:

“Queremos produzir algo que diga: ‘você precisa ter fé em algo maior que vocês mesmos’, mas ninguém vai levar a gente a sério. Dá pra imaginar Roger [Daltrey] no palco cantando algo assim?”

Nesse período, Pete Townshend foi apresentado por um amigo chamado Mike McInnerney em 1967 aos ensinamentos de Meher Baba. O indiano era um guru que passou os últimos 44 anos de sua vida em um voto de silêncio, se comunicando através de gestos. Ele pregava uma versão compilada de várias doutrinas religiosas de seu país de origem, com um foco em amor, compaixão e introspecção.

O guitarrista escreveu, em um artigo para a Rolling Stone em 1970, sobre a descoberta:

“Toda vez que eu bolava uma teoria sábia que tinha levado anos para clarificar, ele [McInnerney] falava: ‘Que coincidência, cara. Esse cara Meher Baba falou algo similar no livro ‘The God Man’.’ Depois que ouvi a última das minhas revelações preciosas subir no telhado ao som da voz de Mike declarando que Baba já tinha dito isso eu precisei ir atrás do livro. O que encontrei, além da foto de capa mostrando um senhor de idade estranho, foi acachapante. Realmente, cada teoria que eu tinha bolado, muitas a ver com reincarnação e sua inevitabilidade considerando lógica, tudo resumido em uma frase. (Sei que vai irritar a maioria dos leitores o fato que esqueci a frase).”

No fim das contas, essa descoberta ofereceu amparo espiritual para o músico. As ideias com as quais estava trabalhando não eram apenas os devaneios de um rockstar. Líderes religiosos respeitados lhe davam respaldo.

Em entrevista de 1968 à Rolling Stone, ele falou publicamente sobre o projeto pela primeira vez:

“A gente tem discutido fazer uma ópera; temos conversado sobre fazer que nem álbuns, temos falado sobre um monte de coisas, e o que aconteceu é que condensamos todas essas ideias, toda essa energia e todos esses golpes de marketing, tudo que decidimos sobre álbuns futuros, tudo num pacote suculento só. O projeto espero se chamar ‘Deaf, Dumb and Blind Boy’ [Garoto surdo, mudo e cego]. É uma história sobre um garoto nascido surdo, mudo e cego, e o que acontece com ele ao longo de sua vida. O garoto surdo, mudo e cego é interpretado pelo The Who, a entidade musical. Ele é representado musicalmente, representado por um tema que tocamos, que começa a ópera em si, e então tem uma canção descrevendo o garoto surdo, mudo e cedo. Mas o significado real é o fato de que por ser assim, ele vê coisas como vibrações que se traduzem como música. É isso que queremos fazer: criar essa sensação de quando se escuta a música, dá para perceber o garoto, e perceber a motivação dele, porque o estamos criando enquanto tocamos.”

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A questão seria como viabilizar esse conceito.

Quem sabe faz ao vivo

As gravações do álbum começaram no IBC Studios em 19 de setembro de 1968. Apesar de ser um projeto idealizado por Townshend, os outros integrantes do The Who tiveram voz ativa no processo. John Entwistle foi convidado pelo guitarrista para compor duas canções que lidavam com temas mais sombrios – bullying e abuso sexual – e a banda toda trabalhou no desenvolvimento dos arranjos.

No livro “Anyway, Anyhow, Anywhere: The Complete Chronicle of The Who: 1958-1978”, de Andy Neill e Matthew Kent, Roger Daltrey disse:

“Pete costumava chegar alguns dias com apenas uma demo pela metade. A gente conversava por horas, literalmente. A gente provavelmente falava mais que gravada, bolando arranjos e coisas assim.”

Townshend no mesmo livro elaborou sobre seu processo:

“Eu não compus ‘Tommy’ cronologicamente. Eu já tinha parte do material – ‘Sensation,’ ‘Welcome,’ ‘Sparks,’ e ‘Underture.’ ‘We’re Not Gonna Take It’ foi meio que uma declaração antifascista. O primeiro tratamento da ideia eu coloquei em um gráfico. Era pra mostrar Tommy de fora e as impressões ocorrendo dentro dele.”

O processo de composição e gravação foi lento, com a banda demorando cerca de seis meses para finalizar o álbum. A conta do estúdio chegou a quantias tão exorbitantes a ponto do The Who precisar fazer shows nos fins de semana para se manter à tona. Isso foi algo positivo nessa empreitada toda, pois o repertório era constantemente colocado à prova perante plateias antes mesmo do lançamento.

Originalmente um álbum simples, “Tommy” se tornou duplo para comportar a narrativa completa e, principalmente, nenhuma canção ser cortada, arriscando afetar o fluxo da história. Mesmo que essa não fizesse muito sentido.

No final das contas, “Tommy” é sobre um garoto inglês cujo pai desaparece na Primeira Guerra Mundial. Sua mãe conhece outro homem e o menino cresce achando que essa é sua família de verdade. Uma noite, o desaparecido retorna, encontrando sua esposa com outro. Em um acesso de fúria, ele mata seu substituto na frente do filho.

A privação de sentidos de Tommy vem do trauma desse episódio, no qual seus pais lhe falam que o menino viu nada, ouviu nada e, acima de tudo, fale nada. Após uma juventude sendo levado de charlatão a charlatão atrás de uma cura, os adultos descobrem a habilidade singular do jovem: fliperama.

Esse aspecto da trama tem uma história inusitada por trás. The Who tinha uma noção afiada da pretensão desse tipo de projeto, especialmente de quais jornalistas poderiam torcer o nariz mais publicamente. No caso, Nik Cohn. O crítico musical do New York Times era um dos maiores céticos com relação às ambições artísticas do rock. Ele também era um fã ferrenho de fliperama. Logo, Pete Townshend compôs “Pinball Wizard” para agradá-lo.

A canção se tornou o principal single do álbum e um clássico do grupo, mas o resto de “Tommy” demonstrava uma nova faceta musical deles. Em “Anyway, Anyhow, Anywhere: The Complete Chronicle of The Who: 1958-1978”, Keith Moon falou sobre o material:

“Na época, era muito pouco a ver com The Who. Muitas das canções eram suaves. Nunca tocávamos assim.”

Townshend em seguida complementou:

“Quando você escuta nosso material mais antigo, é bem barulhento, energético, mas ‘Tommy’ era bem relaxado, e Kit deliberadamente mixou desse jeito, com as vozes em primeiro plano. A música foi estruturada para deixar o conceito respirar…”

Apesar dessas declarações, o final das gravações foi caótico. Ao longo de seis meses, a banda gravou várias versões de praticamente todas as canções, e não parecia haver um consenso sobre quais eram as versões finais. A paciência da Decca com The Who estava por um fio.

Aí “Pinball Wizard” saiu. Inicialmente rejeitada pela BBC por conteúdo inapropriado, a canção chegou ao 4º lugar das paradas no Reino Unido e ao Top 20 da Billboard. No dia do lançamento, o grupo teve a sessão de gravação final do álbum.

Após atrasos com relação à arte de capa, “Tommy” saiu no dia 19 de maio de 1969 no Reino Unido e 23 nos EUA. O álbum foi um sucesso instantâneo, chegando ao número 2 na Inglaterra e 7o lugar na Billboard. O disco ainda retornou às paradas americanas no ano seguinte, atingindo a 4ª posição.

A turnê de promoção foi a apoteose do grupo, enchendo arenas e teatros pelo mundo todo. Além disso, a forma ao vivo do The Who na época foi imortalizada no álbum ao vivo “Live at Leeds”. Eles também abriram uma exceção à regra de não se apresentar em festivais nos EUA para tocar em Woodstock.

A apresentação deles no maior símbolo daquela geração imortalizou o grupo, especificamente naquela versão. Isso acabou se tornando uma faca de dois gumes, pois eles se viram para sempre atrelados a “Tommy” como parte vital de seus shows. Mas isso é história para outro dia.

The Who — “Tommy”

  • Lançado em 19 de maio de 1969 nos Estados Unidos pela Decca/MCA e 23 de maio de 1969 no Reino Unido pela Polydor/Track
  • Produzido por Kit Lambert

Faixas:

  1. Overture
  2. It’s a Boy
  3. 1921
  4. Amazing Journey
  5. Sparks
  6. The Hawker (Sonny Boy Williamson II
  7. Christmas
  8. Cousin Kevin
  9. The Acid Queen
  10. Underture
  11. Do You Think It’s Alright?
  12. Fiddle About
  13. Pinball Wizard
  14. There’s a Doctor
  15. Go to the Mirror!
  16. Tommy Can You Hear Me?
  17. Smash the Mirror
  18. Sensation
  19. Miracle Cure
  20. Sally Simpson
  21. I’m Free
  22. Welcome
  23. Tommy’s Holiday Camp
  24. We’re Not Gonna Take It

Músicos:

  • Roger Daltrey (vocais, gaita)
  • Pete Townshend (guitarra, vocais, teclados, banjo)
  • John Entwistle (baixo, trompa, vocais)
  • Keith Moon (bateria, vocais)

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Pedro Hollanda
Pedro Hollanda
Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como Rock'n'Beats e Scream & Yell.

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