De “Let it Be” para “Get Back”, as diferentes visões nos documentários dos Beatles

Relançado após décadas de sumiço, filme de 1970 difere de série e oferece oportunidade de enxergar possíveis recortes de um mesmo material

Lançado originalmente em maio de 1970 – cerca de um mês após o anúncio oficial do fim dos Beatles – e há décadas fora de circulação, o documentário “The Beatles: Let it Be” finalmente está acessível de forma oficial. Agora é possível conferir no Disney+ uma versão restaurada do longa-metragem dirigido por Michael Lindsay-Hogg, também responsável pelo filme-concerto “The Rolling Stones Flying Circus” e já conhecido do Fab Four por ter trabalhado em videoclipes de músicas como “Rain”.

Para alguns fãs, é bem capaz de que esse relançamento faça surgir algum tipo de confusão envolvendo outro documentário: a série “The Beatles: Get Back”. O projeto expandido do cineasta Peter Jackson (“O Senhor dos Anéis”, “King Kong”) foi disponibilizado em 2021.

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Ambas as produções tiveram como base o mesmo material: as sessões de estúdio realizadas pelos Beatles em janeiro de 1969, com intenção de gerar um projeto inicialmente chamado “Get Back”, mas que acabou saindo como o álbum “Let it Be”. Contudo, para além das durações, o que diferencia ambos os lançamentos é o recorte estabelecido por cada cineasta.

A intenção inicial dos registros de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr compondo e ensaiando novas músicas era lançar um filme para a televisão que acompanharia a transmissão de um show do grupo, que não subia em um palco desde 1966, embora continuasse produzindo álbuns. Entretanto, os planos mudaram no meio do caminho, pois a ideia da apresentação ao vivo foi abandonada — ao menos nos moldes originais.

Com isso, o documentário “Let it Be” passou a visar um lançamento nos cinemas. Para que o plano de uma performance do quarteto de Liverpool não fosse deixada de lado por completo, surgiu o conceito do “Rooftop Concert”. Realizada no telhado do prédio da Apple Corps (a gravadora dos Beatles), a apresentação seria o clímax do longa de Michael Lindsay-Hogg.

Os recortes de “Let it Be” e “Get Back”

Em 2024, é bastante interessante ter essa oportunidade de conferir “Let It Be” após “Get Back” – também disponível no Disney+ – e constatar, por meio de um exercício comparativo, a já mencionada ideia dos recortes que diferem entre si.

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Em “Let it Be”, Michael Lindsay-Hogg entregou um filme de cerca de uma hora e vinte minutos de duração que por anos foi visto como um registro do “crepúsculo dos Beatles”. Retratou uma banda tomada pela tensão entre os seus integrantes nos bastidores das gravações daquele que viria a se tornar o seu álbum derradeiro, de mesmo nome.

Já em “Get Back”, Peter Jackson adiciona horas e mais horas de material descartado na época para criar uma minissérie em três episódios – que juntos totalizam quase oito horas de duração. A linha narrativa é mais abrangente e até esclarecedora sobre esse período da história dos Beatles.

Até o tom da montagem de “Let it Be” colabora com uma visão de desordem criativa entre eles. Na maior parte do tempo, a película soa como uma colagem de sequências aleatórias de Lennon, McCartney, Harrison e Starr ensaiando músicas.

Estes são alternados com momentos como a famosa briga entre Paul e George. Até mesmo a presença de Billy Preston não é esclarecida para a audiência: o tecladista apenas surge “do nada” em determinado momento da projeção.

Paul McCartney saiu, nesse contexto, como o vilão da história. Porém, no final, “Let it Be” ainda culmina em performances organizadas e certeiras de algumas canções. Aqui, a mensagem que parece ter sido pretendida é a de que, apesar dos conflitos e de um certo caos, os Beatles ainda eram os Beatles; um grupo capaz de entregar obras-primas como “Two of Us”, “The Long and Widding Road” e a própria faixa-título “Let it Be”, só para citar algumas, além do antológico concerto no telhado.

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Em “Get Back”, por outro lado, a história sendo contada é mais consistente como um todo. A montagem dos episódios estabelece um sentido mais lógico para os acontecimentos. Além disso, Peter Jackson adiciona letreiros informativos, um calendário que vai marcando o dia a dia das sessões, além de toda uma sequência introdutória sobre o que havia levado os Fab Four até aquele momento específico.

Não era só treta

“Let it Be” ganhou a fama de ser esse testemunho do fim de uma banda cujos membros não se aguentavam mais. Em entrevistas, Michael Lindsay-Hogg tem dito que muitos fãs se espantaram com o filme de 1970 porque não estavam acostumados com a perspectiva dos Beatles adultos. Vários ainda tinham em mente a imagem dos garotos sorridentes com cabelo Moptop. Como a obra foi disponibilizada meses após o planejado e logo depois do encerramento do grupo, ganhou forte conotação negativa – ainda que o Fab Four tenha existido por meses após as filmagens, inclusive produzindo o álbum “Abbey Road” (1969).

Já “Get Back” ilustra que, apesar das tensões, os Beatles não se resumiam somente a brigas e desentendimentos enquanto trabalhavam juntos naquele período. As divergências estavam lá – em determinada ocasião, Harrison chega a abandonar o grupo –, mas são vários os momentos de interações lúdicas entre eles que adicionados por Peter Jackson.

Nessa versão remasterizada de “The Beatles: Let it Be”, há uma interessante sequência introdutória de um bate-papo entre Lindsay-Hogg e Jackson. No debate, em que Lindsay-Hogg esclarece algumas de suas intenções, a dupla concorda que “Let it Be” é o pai de “Get Back”.

Portanto, um documentário não anula o outro. O melhor é enxergá-los como complementares. E é claro que para os Beatlemaníacos, quanto mais Beatles, melhor.

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Guilherme Salomão
Guilherme Salomãohttps://igormiranda.com.br
Guilherme Salomão é Criador de conteúdo, Crítico de Cinema e Produtor Audiovisual carioca apaixonado por Cinema e Música desde que se conhece como gente. Administrador por formação, foi autor do TCC “O Poder da Marca no Cinema: O Caso Star Wars de George Lucas” na PUC-Rio, obtendo nota máxima em forma de reconhecimento pelo seu trabalho e dedicação. Cinéfilo de carteirinha, na produção já se dedicou a projetos que vão desde curtas e longas-metragens até videoclipes de artistas iniciantes.

2 COMENTÁRIOS

  1. E é isso aì. Tenho mais de 50 e vi Let it Be quando era moleque. A atmosfera do filme é de velório sim e mostra um Paul arrogante e se afirmando como líder musical da banda. Yoko nos ensaios com
    aquela cara de quem só atrapalha. E assim me geração viveu com essas lendas. Paul cantava os versos de Get Back olhando para Yoko. (Get back to where you once belong). Com a edição, o diretor conseguiu enviesar a história. Mas GET BACK veio e jogou luz na história. Paul e John se davam bem pra cacete! E todas as teorias de biògrafos vendedores de novidadaes foram por água abaixo. Viva Säo Ringo! Viva o Arcanjo Billy Preston!

  2. Ah!, bom!, vamos lá, todos nós humanos temos nossas titicas, tiracoes, sarcasmos, pirrasa, picuinhas, e outras cositas mais. Paul só queria grana, John, curtir a vida e a sua japona, Ringo, tudo estava ótimo, não sei se ele era cobrado, também quantos ritmos de bateria musicas, out takes afora, George, estava cansado, deixado para terceiro plano, veja nas filmagens que o sorriso dele mostra o descontamento com John e Paul, sem George não teria Beatles, a guitarra dele é única, é igual no Queen, os solos de guitarra do Brian, só encaixaria no Queen. E George estava a procura de seu criador, religião faz bem a qualquer um. De mais a mais, tudo se encaixou com a força da vida, a vida segue, 54 sem os caras, a saudade bate e dói pacas, eu não os vi em atividade, os conheci em 1972. Enfim, o
    g r a n d e legado dos Beatles junto a outras banda é com o woodstock, Live Aid, Rock Rio, Lapalluza e outros, foram no mais puro sentido de divulgar amor e paz a todos, principalmente os governista de todo o mundo numa missão de evitar a T E R C E I R A G R A N D E G U E R R A M U N D I A L. Até + V.

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