Quando o Firehouse veio ao Brasil para cantar na Xuxa e no Programa Livre

Banda americana cumpriu agenda promocional divulgando o álbum “3” e o hit “I Live My Life for You”, presente em trilha de novela

Banda cofundada por CJ Snare, vocalista falecido na última sexta-feira (5) aos 64 anos, o Firehouse veio três vezes ao Brasil. A primeira viagem traz ares inusitados, pois não ocorreu para a realização de shows.

À época, o grupo completo por Bill Leverty (guitarra), Perry Richardson (baixo) e Michael Foster (bateria) cumpriu apenas uma agenda promocional. Concedeu entrevistas e realizou performances em programas de rádio e TV, como “Xuxa Park”, “Programa Livre” e “Programa Raul Gil”, respectivamente da Globo, SBT e Record.

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A ideia da visita era promover “3”, álbum lançado pelo Firehouse em abril de 1995. A faixa final do disco era “I Live My Life for You”, balada incluída na trilha sonora da novela “A Próxima Vítima”, exibida pela Globo entre março e novembro de 1995. Nomes como Tony Ramos, Susana Vieira, José Wilker, Aracy Balabanian e Cláudia Ohana compunham o elenco.

Curiosamente, vir ao Brasil apenas para cumprir agenda de divulgação não era novidade para artistas, sobretudo de hard rock. No início da década de 1990, o Nelson visitou ao país para dar entrevistas e realizar performances em programas de TV e rádio, como o “Show do Mallandro”, exibido pela TV Globo.

Retrospecto do Firehouse

O sucesso do quarteto já era considerado um pouco inusitado àquela altura. Embora tenha lançado seu primeiro álbum em 1990, o grupo tinha uma sonoridade bastante inclinada ao hard rock da década de 1980, que estava em baixa. O rock no mainstream vivia outro momento, com atenções voltadas ao grunge e outros subgêneros alternativos.

Mas desde 1991 o Firehouse já contrariava essa lógica. Em janeiro de 1992, os músicos conquistaram o prêmio de Artista Favorito de Hard Rock/Heavy Metal no American Music Awards, que correspondia ao ano de 1991. Artistas como Nirvana e Alice in Chains, que já haviam se estabelecido em meio ao estouro do grunge/rock alternativo, foram desbancados naquele evento.

“Hold Your Fire” (1992), segundo álbum, conquistou disco de ouro nos Estados Unidos. O já mencionado “3” (1995) foi seguido por um registro acústico, “Good Acoustics” (1996), também premiado com certificação dourada, mas em mercados alternativos como Malásia, Tailândia e Filipinas.

“I Live My Life for You” era, em meio a tudo isso, um fenômeno ainda mais à parte, pois obteve repercussão bastante satisfatória em território americano. Enquanto seu álbum, “3”, chegou a uma modesta 66ª posição na parada Billboard 200, o single da canção atingiu o oitavo lugar do principal ranking nacional, Billboard Hot 100.

As apresentações na TV brasileira

De toda a agenda promocional cumprida pelo Firehouse no Brasil, há registros online apenas das presenças no “Xuxa Park” e “Programa Livre”. A primeira, inclusive, levou um bom tempo até aparecer no YouTube.

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Na atração de Xuxa Meneghel, ao som de “I Live My Life for You”, os músicos precisaram se apresentar em playback. Rolou o mais puro suco do programa de auditório: não havia microfones nem para os instrumentistas fingirem seus backing vocals, Michael Foster ocupou seu espaço no palco com sua bateria à-la Menudos (somente caixa e chimbal), a vinheta do quadro “Xuxa Hits” surgiu aem meio à canção e CJ Snare saiu cumprimentando a plateia. Veja a seguir.

Já no “Programa Livre”, foi possível executar as canções ao vivo. Não há registros online de “I Live My Life for You”, mas a gravação de “Here for You”, outra faixa do álbum “3”, está disponível. O registro vocal de Snare impressiona, tamanha a fidelidade à gravação original. Confira abaixo.

Em entrevista a Serginho Groisman, CJ até prometeu retornar no que seria a primavera de 1995 para shows — o que não aconteceu. Sobre isso, o guitarrista Bill Leverty explicou anos depois, à revista Roadie Crew:

“Fomos ao Brasil apenas para uma promo tour e naquela época tínhamos mesmo a intenção de voltar aí para fazer uma turnê, mas não houve acerto com os promotores de shows. Nós estávamos esperando uma oferta legítima para assinar o contrato, mas isto nunca de fato aconteceu. […] Com relação à música ‘I Live My Life For You’, na época ficamos sabendo que ela seria incluída numa novela para a TV e nos sentimos honrados com isso, pois sei que as novelas brasileiras fazem muito sucesso, inclusive em outras partes do mundo.”

Em entrevista ao Rock Eyez, no ano de 2005, CJ Snare relembrou essa aventura curiosa do Firehouse no mainstream da década de 1990, com sucesso em mercados considerados alternativos e até mesmo um hit nas paradas americanas em 1995.

“No início dos anos 1990, surpreendemos muitas pessoas por sermos a única banda do estilo a ter um hit no top 20 em meio à cena de Seattle. Isso foi com ‘I Live My Life For You’, em 1995. Lembro como a indústria reagiu a isso… foram pegos com as calças arriadas. Agora que você tem conglomerados musicais que monopolizam o que você escuta, para mim, o ‘pop’ é o que gravadoras querem que seja. Se é o que vai tocar na MTV e o que tem dólares das grandes companhias por trás, é o que os garotos vão escutar.”

Firehouse após o meio dos anos 1990

Apesar do grande feito, a dobradinha “3” e “Good Acoustics” representou o último suspiro do Firehouse no mainstream. O contrato com a Epic Records foi encerrado na sequência e a banda assinou com o selo japonês Pony Canyon. A popularidade do grupo passou a ser trabalhada em território asiático daquele momento até o início da década de 2000, com três discos – “Category 5” (1999), “O2” (2000) e “Prime Time” (2003).

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Depois disso, as próprias atividades do Firehouse deram uma esfriada. O único disco lançado após “Prime Time” foi “Full Circle” (2011), com regravações dos hits passados. A partir daí, o grupo passou a focar apenas em suas apresentações ao vivo, com agenda restrita praticamente só aos Estados Unidos.

Para shows de fato, no fim das contas, o Firehouse veio ao Brasil duas vezes. A primeira ocasião se deu em 2007, com data única no Circo Voador, Rio de Janeiro. A segunda ocorreu em 2013, também em compromisso singular, no Manifesto Bar, em São Paulo.

Morre CJ Snare, vocalista do Firehouse

O Firehouse confirmou, neste domingo (7), a morte de CJ Snare. O vocalista americano tinha 64 anos e faleceu na última sexta-feira (5).

A causa foi um câncer colorretal. Sabe-se que o cantor passou por pelo menos duas cirurgias nos últimos anos: uma em região não especificada em 2021 e outra no abdômen em 2023. Porém, o grupo afirma que o óbito ocorreu de forma inesperada. Andrew Freeman (Last in Line) e o canadense Travis Cormier o substituíram em shows recentes.

Leia comunicado publicado pela banda de hard rock em suas redes sociais. Este texto será atualizado em breve.

“Hoje é um dia triste para o rock n’ roll. É com grande tristeza que informamos ao mundo que perdemos nosso irmão: CJ Snare, guerreiro do rock and roll, vocalista principal e membro fundador do Firehouse.

CJ Snare faleceu inesperadamente em casa na noite de sexta-feira, 5 de abril de 2024. Ele era um jovem de 64 anos.

Como todos sabem, era esperado que CJ voltasse aos palcos com a banda neste verão (inverno no hemisfério sul), após se recuperar de uma cirurgia.

Estamos todos em choque com a morte prematura de CJ. Ele foi indiscutivelmente um dos melhores talentos vocais de uma geração, viajando pelo mundo com o Firehouse sem parar nos últimos 34 anos.

Nossas mais sinceras condolências vão para toda a família Snare, Katherine Little, amigos e todos os nossos amados fãs em todo o mundo.

‘Reach for the sky’, CJ! Sua falta será para sempre sentida pela família, amigos, fãs e seus companheiros de banda. Você está cantando com os anjos agora.”

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Igor Miranda
Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

1 COMENTÁRIO

  1. Teve várias bandas de glam / hard rock que surgiram no final dos anos 80 e início dos anos 90, por todo mundo: Guns N’ Roses, L.A. Guns, Faster Pussycat, Gorky Park (Rússia), Pink Cream 69 (Alemanha), Wander Taffo e Banda Taffo (Brasil), Mr. Big, Extreme, Winger, Firehouse (1990), Nelson (1990)
    As bandas iriam ter que sobreviver ao advento Grunge
    O Firehouse é, quase que totalmente (como tantas outras), uma banda que marcou a década de 90
    Seu sucesso fez com que três remanescentes chegassem até 2024 vivendo.de música e de sua obra autoral de mais de 30 anos atrás
    Se a família de CJ Snare permitir (os lances de direitos autorais), creio que os dois membros do Firehouse que estão desde o início.da banda, deveriam continuar com a banda. Coloca um vocalista que o timbre se aproxima do CJ
    Vida após a morte
    Enfim
    Pode ser um caminho, já que em vida CJ não ficou contrariado de ser substituído

    Por
    Alexandre Fernandes
    Cantor e Compositor
    51 anos
    João Pessoa

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