Exclusivo: Robby Krieger fala sobre The Doors e novo álbum instrumental

Bate-papo exclusivo com o site contou com a participação do tecladista Ed Roth, parceiro do guitarrista na empreitada

“Um monte de amigos fazendo um som e gravando de maneira descontraída”. É dessa forma que o press-release descreve a estreia, homônima, do Robby Krieger and the Soul Savages.

Lançado em 19 de janeiro, o álbum (clique aqui para ouvir) conta com o membro fundador e guitarrista do The Doors, juntamente com três renomados compositores e instrumentistas: o vencedor do Grammy e do Emmy Kevin “Brandino” Brandon no baixo, Ed Roth nos teclados, e Franklin Vanderbilt na bateria.

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Diretamente da Califórnia, Krieger e Roth concederam entrevista para o site IgorMiranda.com.br. Confira.

Antes, Ed Roth sobre os colegas

Com Robby atrasado, foi Ed quem começou respondendo às perguntas. Logo de cara, contou como seus caminhos se cruzaram. O tecladista confessa ser realmente ruim com datas, mas arrisca dizer que foi há pelo menos cinco ou seis anos.

“Nos encontramos em um evento beneficente organizado por um amigo em comum, Tommy Thayer, o guitarrista do Kiss. Tommy me chamou para um deles e disse: ‘Ei, o Robby Krieger vai participar. Preciso que você toque as músicas do The Doors. Tem outro tecladista, mas prefiro que você toque’. Curiosamente, como hoje, o Robby estava atrasado, e quando ele chegou, eu estava no banheiro ou algo assim, então o outro tecladista acabou tocando e falhou miseravelmente. Isso meio que me favoreceu, e o Robby começou a me chamar para tudo a partir daí. Como o estúdio dele fica bem aqui perto daqui, logo começamos a tocar e gravar juntos.”

Roth, que já tocou com Ringo Starr, Chad Smith e Annie Lennox, fez questão de destacar as qualidades individuais dos colegas de Soul Savages. Começando pelo baixista, Kevin “Brandino” Brandon, que conheceu da época em que ambos tocavam na igreja.

“Kevin tocou com todo tipo de gente, mas principalmente com Aretha Franklin por 20 anos. Participou de vários discos, de Beyoncé até Justin Timberlake. Kevin não apenas tem um groove matador, mas também é uma enciclopédia de harmonia.”

Daí estendeu os elogios ao baterista Franklin Vanderbilt, cujo currículo inclui tocar bateria para a lendária Chaka Khan, gravar com o pioneiro do jazz fusion Stanley Clarke e fazer turnês mundiais com Lenny Kravitz, entre outros. O tecladista disse:

“Além de ser exímio baterista, também é muito versado em jazz e diferentes estilos de música. Os dois [Kevin e Franklin] encontraram uma maneira de estabelecer um ritmo que inspirou Robby e eu a escrever melodias e criar variações.”

Obviamente, Ed não poderia deixar de falar do “patrão”, a quem descreve como “um guitarrista com uma sonoridade única”.

“Todos o conhecem pelo The Doors, mas eu entrego a ele coisas que você não esperaria que ele tocasse, e ele brilha. Nem sempre chama a atenção de cara, mas se você dedicar tempo para ouvir com atenção, o ouvirá tocando algo que mais ninguém vai tocar, e você nem imaginava que ele fosse capaz de tocar.”

Soul Savages e o fluxo de consciência sonoro

Musicalmente, “Robby Krieger and the Soul Savages” é uma odisseia totalmente instrumental inspirada por soul, jazz, blues, rock e além. É também, de acordo com Robby, “cem por cento produto de fluxo de consciência”. O guitarrista comenta:

“Estávamos apenas improvisando, tocando livremente, com o gravador ligado e depois voltamos a essas gravações para construir as músicas a partir desses improvisos. Então, foi um jeito de compor muito natural.”

Quanto ao ecletismo por parte da banda, que também poderia ser visto como uma forma de se conectar com o maior número possível de ouvintes diferentes, ele afirma que não houve um pensamento estratégico por trás. O motivo é simples, segundo Ed: “não somos tão espertos assim [risos]”. Ele continua:

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“Isso simplesmente aconteceu. Uma vez que as bases foram estabelecidas, Robbie e eu passamos um tempo escrevendo as melodias e, na real, fizemos isso bastante rápido.”

O estúdio onde o disco foi gravado não é outro senão o Love Street, propriedade de Robby em Glendale, Califórnia. De acordo com o guitarrista de 78 anos, ter seu próprio estúdio fez com que ele se aventurasse como músico. Entre as coisas que nunca tinha feito em suas mais de cinco décadas de carreira, ele aponta: “Foi a primeira vez que toquei cítara em um álbum”.

Robby e Ed creditam a maioria dos títulos das músicas ao seu empresário, Marco Moyer. Para eles, o “Big Brain” nasceu para isso. Inclusive, foi ele quem sugeriu o nome Robby Krieger and the Soul Savages. Krieger conta:

“Ele deve ter proposto uns cem nomes diferentes. Não me pergunte como chegamos a este, mas esse foi o único com que todos concordamos.

Ed acrescenta:

“Alguém sugeriu algo com Savages e outra pessoa, algo com Soul. Apenas juntamos os dois. Soa perfeito para o que as músicas são.”

Robby Krieger: do flamenco ao jazz

A amálgama musical presente em “Robby Krieger and the Soul Savages” pode parecer peculiar para os ouvintes que só conhecem o trabalho de Robby no The Doors. Mas a verdade é que o jazz e outros estilos entraram na vida do guitarrista, que costumava ir a shows de Wes Montgomery e Miles Davis, muito antes de ele começar a ouvir rock. Ele confessa:

“Eu esperava ser como um desses caras um dia. Ainda estou trabalhando nisso. É bom ter algo para aspirar.”

Essas aspirações ficam evidentes na carreira de Robby a partir dos anos 1970. Na época, sua música tomou direções mais jazzísticas e improvisacionais que remetem ao que ele ouvia quando criança.

“Tive sorte porque meu pai tinha discos de todos os estilos, centenas deles, e eu os ouvia, e os que eu mais gostava eram os de música flamenca. É provavelmente por isso que comecei a tocar violão. E ele tinha muitos de música clássica também, e meu favorito entre eles era ‘Pedro e o Lobo’.”

Embora tivessem um piano em casa, Robby nunca fez aulas. “As únicas aulas que fiz foram de trompete, mas nunca aprendi bem o suficiente!”, ri.

The Doors além dos rótulos

O assunto The Doors surge de maneira quase natural na conversa, quando Ed Roth, após afirmar que o rock de hoje poderia se beneficiar do intercâmbio com outros gêneros, como o jazz, pede a este jornalista para tentar classificar o The Doors. Acid rock? Blues rock? Rock psicodélico? Difícil, né?

Para Robby é tudo isso junto, mas com um elemento, segundo ele, faltante na música de hoje: poesia.

Do ponto de vista visual, quando falamos sobre The Doors, a primeira imagem que geralmente vem à mente é a de Jim Morrison, tipicamente em preto e branco, na pose clássica com os braços abertos. Robby assegura que esse aspecto de Jim sendo “a cara” do The Doors não foi premeditado e afirma que o próprio Morrison era contra isso.

“Ficava tudo bem para nós três [ele, o tecladista Ray Manzarek e o baterista John Densmore], mas Jim realmente não queria. E ele meio que cedeu no primeiro álbum [‘The Doors’, janeiro de 1967]. Há uma foto grande dele na frente e os demais na parte de trás. Mas no segundo álbum [‘Strange Days’, outubro de 1967], você notará que nenhum de nós aparece na capa. São os palhaços e o levantador de peso, e isso foi ideia do Jim. Sempre achei isso bem legal.”

Krieger conta que era ideia de Jim, pelo menos nos primeiros três álbuns, que a autoria das músicas fosse creditada ao The Doors. Envaidecido, sorri ao dizer:

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“Na verdade, ele realmente compôs a maioria das músicas nesses três primeiros álbuns… mas alguns dos maiores sucessos eram meus.”

O guitarrista também costumava pensar que o status lendário de Morrison, em parte devido à sua morte prematura, parecia às vezes ofuscar o legado musical do The Doors. Isso teria ocorrido especialmente nas décadas de 1970 e 1980, “quando Danny Sugerman escreveu seu livro [‘The Doors: The Illustrated History’ (1983)] e depois do filme de Oliver Stone [‘The Doors’ (1991)]”. Tal percepção mudou da seguinte forma:

“Ray e eu voltamos a nos apresentar como The Doors por volta do ano 2000, com Ian Astbury [The Cult] e alguns outros cantores. Só aí nos demos conta de o quão popular o The Doors ainda era. Tocamos nos quatro cantos do mundo. Eu diria que hoje a banda é mais popular do que nunca. Não apenas por causa de Jim e suas loucuras. Acho que, com o tempo, isso meio que vai perdendo o impacto.”

Em 2021, Robby lançou a autobiografia “Set the Night on Fire: Living, Dying, and Playing Guitar with The Doors”. Para ele, foi um bom exercício de memória, embora tenha tido ajuda: o coautor Jeff Alulis.

“Ele é realmente fera em pesquisar coisas. Encontrou um grupo de fanáticos por The Doors; esses caras que sabem tudo sobre a banda. Então, ele perguntava a eles, tipo, ‘o que aconteceu em 1968 neste show específico?’ e eles sabiam exatamente o quê. Então, isso foi muito útil.”

Quando perguntado sobre um momento dessa epopeia que reescreveria se pudesse, Robby cita a noite em que saiu num encontro com a cantora Linda Ronstadt para ver Joni Mitchell tocar em Nova York.

“Havia um cara da gravadora lá e ele disse, ‘ei, Robby, você quer produzi-la?’ e eu hesitei. Não percebi o quão incrível Joni era porque naquela noite só tinha olhos para Linda. [Se eu tivesse prestado atenção ao show], poderia ter produzido Joni! [risos]”

E para alguém que nunca ouviu o The Doors antes, quais discos melhor sintetizam o que a banda era? A resposta está na ponta da língua: tanto o primeiro quanto o último álbum, “L.A. Woman” (1971).

“Acho que são os melhores. São os meus favoritos. Mas para alguém que nunca nos ouviu, provavelmente o primeiro álbum, porque trabalhamos nessas músicas por dois anos antes de gravá-las. Essas músicas realmente incorporam o espírito do The Doors.”

Novos horizontes musicais à vista

Robby e Ed se despedem antecipando novidades. A primeira é que “definitivamente” haverá shows para divulgar o lançamento do álbum. O guitarrista conta:

“Temos tocado nos últimos dois anos pela cidade [de Los Angeles], nas casas de jazz e tal. Esperançosamente, se conseguirmos que o disco emplaque de alguma forma, faremos mais apresentações fora da cidade.”

A segunda novidade é um disco; não exatamente do Soul Savages, mas um álbum instrumental de reggae com participação de Phil Chen. O tecladista cita os feitos do falecido baixista jamaicano:

“Ele era um amigo muito querido meu. Ele tocou com Jeff Beck em ‘Blow By Blow’ (1975), com Rod Stewart, com — qual é o nome dele mesmo, o pianista maluco? — Jerry Lee Lewis. Phil era pau pra toda obra.”

Apesar de o foco das futuras apresentações, ainda sem data definida, ser a divulgação de “Robby Krieger and the Soul Savages”, Robby garante que não se limitarão a isso:

“Ainda toco músicas do The Doors e, felizmente, são músicas muito divertidas de tocar. Tocamos no aniversário de 60 anos do Whiskey a Go Go [famosa casa de shows de L.A.], com meu filho nos vocais. Então, provavelmente, nunca vou parar de tocar The Doors.”

*Clique aqui para ouvir o álbum de Robby Krieger and the Soul Savages em sua plataforma digital favorita.

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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