Com o “ingrediente” que faltava, Men at Work encorpa seu rodízio de hits em SP

Inclusão de “Everything I Need” em relação a Rio e Curitiba prende atenção dos fãs ao repertório antes do que nas duas capitais

Dependendo de sua idade, é certeza que os clássicos do Men at Work formaram parte de sua vida e talvez você nem pense a respeito, de tão familiarizado que está com a sonoridade do grupo australiano. E se você aceita uma confissão, controle o riso, mas é bem provável que o primeiro contato deste escriba com o grupo, ainda que de modo involuntário, tenha sido em algum capítulo da segunda metade de “A Gata Comeu”, novela de 1985…

Sendo assim, fazendo-se as contas, a referência de idade esperada para o Vibra São Paulo era de, no mínimo, quarentões. Sim, eles foram majoritários, mas as surpresas da noite começaram já ao notarmos perfis diferentes de todas as idades.

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Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Além disso, se enganou quem achava que o show floparia com o ingresso de pista inteira saindo a R$ 600. A sensação era justificável com a casa ainda vazia às 20h. Adiante, porém, o cenário seria outro: todos os setores estavam bem ocupados, ainda que com aquela “maquiada” das “poltronas” ao fundo da pista e dois bares tomando espaço nos cantos.

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Mudanças sutis para público que queria hits

Se você acompanhou a cobertura feita pelo colega Guilherme Salomão no Rio de Janeiro, sabia o que viria. O primeiro grande sucesso seria “Who Can It Be Now?”, apenas a décima no setlist. Contudo, residiu aí a novidade do repertório: alguém deve ter dado um toque a Colin Hay, pois ele incluiu “Everything I Need” como a sexta, para a admiração geral. No mais, houve sutis trocas de ordem em relação ao mostrado no Rio de Janeiro e em Curitiba.

Parece besteira, mas a adição da faixa indiretamente citada no parágrafo de abertura, como um tempero secreto, passou a saciar a fome da plateia antes das outras cidades brasileiras, não mais forçada a aguardar transcorrer metade da noite para genuinamente se empolgar com algum material. Afinal de contas, sejamos sinceros: a galera saiu de casa para ouvir as duas mencionadas, “Down Under”, “Overkill” e “It’s a Mistake”. O que rolasse a mais seria lucro.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Também é bem possível que boa parte das pessoas sequer tenha constatado que do Men at Work original, desde o falecimento de Greg Ham em abril de 2012, hoje reste “somente” Hay, vocalista e guitarrista. Outro detalhe que passa batido é o auge do grupo ter compreendido pérolas comprimidas em “apenas” três álbuns: “Business as Usual” (1981), “Cargo” (1983) e “Two Hearts” (1985). Com boa vontade, podemos estender o boom de Colin no Brasil até o começo da década de noventa com a inclusão de “Into My Life”, já de sua empreitada solo, em outra trilha sonora global, “Rainha da Sucata” (1990), culminando em sua participação no Rock in Rio de 1991.

Sobre os músicos do grupo um dia australiano, atualmente há um saladão de nacionalidades com generosas pitadas latinas: o guitarrista San Miguel Perez e baixista Yosmel Montejo são cubanos; Scheila Gonzalez, responsável pelo saxofone, flauta e teclados, é guatemalteca; Cecilia Noël, em cargo dos backing vocals e eventuais colaborações percussivas, é peruana; e apesar do nome, o baterista Jimmy Branly também nasceu no maior país insular da América Central. Vale ressaltar ainda que Colin Hay — que admite usar o nome da banda para vender shows mais facilmente — é um escocês que emigrou para Melbourne na adolescência.

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Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

O show

Retrocedendo, ainda que as chuvas tenham castigado a tarde da cidade, o comentário de um ávido fã ao lado deste que vos escreve mostrou-se respeitável: “Para marcar às 21h e atrasar vinte e dois minutos enchendo de propagandas nos telões, não era melhor ser pontual às 21h30? Você não passa nervoso esperando e se organiza melhor”. A ansiedade só passou ao som de “Music for a Found Harmonium” (Penguin Café Orchestra)”, disparada como intro, e com Colin Hay ganhando a massa logo de partida, num esforço em nosso idioma: “Boa noite a todos! Obrigado por terem vindo ao nosso show”. Sucinto e efetivo!

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

“Touching the Untouchables” inaugurou a festa e bastou uma música para a constatação: há de se estudar como Colin Hay fez para preservar a voz, pois ela permanece idêntica à que você se acostumou a ouvir, mesmo após tantos anos! Antes de “No Restrictions”, ele tirou onda com um espirituoso “Sorry about the rain” e, como brasileiro adora um “Ô, ô, ô, ô, ô, ô…”, ela foi tão bem aceita quanto sua sucessora, “Come Tumblin’ Down”, mais recente em toda a noite, extraída de “Fierce Mercy” (2017) e bem menos country ao vivo do que no play.

O final de “Can’t Take This Town” foi a primeira amostra do talento de Scheila Gonzalez no sax, o que pode tirar sua dúvida quanto à versão de referência: voz e violão como no álbum “Peaks & Valleys” (1992) ou com uma banda inteira em “Topanga” (1994)? A segunda opção. Já “Down by the Sea” é daquelas faixas que você não dá tanta bola no LP, até descobri-la e nunca mais ignorá-la – seu término, aliás, foi especialmente preparado para Jimmy Branly solar e ser merecidamente aplaudido.

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Embora machuque admitir, a impressão transmitida foi a de faltar pegada em “Everything I Need”, mas a vida seguiu em: “Blue for You”, evidentemente sob luzes azuis; “I Can See It In Your Eyes”; e “Dr. Heckyll & Mr. Jive”, esta tirando o povo para dançar. Aqui cabe um adendo: havia generosa parcela de casais, porém, pelo menos ao lado deste repórter, as letras não eram cantadas de cabo a rabo e os fãs preferiam curtir a apresentação dançando, pulando, filmando, meramente observando, bebendo ou até comendo pipoca como numa sala de cinema (sim, acredite!).

Uma pena o volume do microfone de Cecilia Noël soar tão baixo em suas falas, esmerando-se para se comunicar em português e dando um show já a partir do figurino amarelo e preto. Seu jeito trouxe graça e leveza, não sendo apenas “a esposa de Colin Hay” e, caso tenha curtido sua atuação e deseje tirar a prova, confira seu trabalho com a The Wild Claims em “Bongoland” (2003) ou deguste “Havana Rocks” (2014), saborosa gravação com versões de clássicos do rock em ritmo caribenho por ela cantados — com destaque para uma impagável releitura de uma tal de “Who Can It Be Now?”…

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Com a adição de “Everything I Need”, “No Sign of Yesterday” deixou de ser a única representante do disco “Two Hearts” e foi outra grata surpresa ao vivo. Nela, houve tempo e espaço para Yosmel Montejo brilhar no baixo e Scheila dar uma segunda amostra, mais ampla, de seu potencial no sax. Chegando a uma hora de espetáculo, “Who Can It Be Now?” tornou a abrir a caixa de sucessos numa trinca consecutiva de “Business as Usual” com “Underground” e “Catch a Star” – esta trazendo o reggae para o palco, não à toa iluminado de amarelo, verde e vermelho. Antecipando, das dez do disco, rolaram oito, com “Helpless Automaton” e “People Just Love to Play with Words” preteridas, respectivamente a última do lado A e a primeira do B.

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Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Enquanto reparávamos que a decoração de palco consistia exclusivamente do nome do conjunto na pele do bumbo, o sexteto executou “Upstairs In My House”, puxando outro trio do mesmo disco, desta vez de “Cargo”. As outras duas? “Overkill”, e a partir dela o show e a noite nunca mais seriam os mesmos com a galera cantando alto, e a certeira “It’s a Mistake”, com o perdão do trocadilho.

Última do set regular e repleta de minissolos, “Down Under” durou onze sensacionais minutos e desta vez não apenas Scheila detonou, agora na flauta, como novamente Yosmel no baixo e Jimmy na bateria, mas também San Miguel na guitarra. A questão que fica é a cilada de sempre para tais casos: alongar o hit em demasia não o descaracteriza? Enfim… Na prática, ninguém ligou e Colin Hay até arriscou uma sambadinha de causar inveja a qualquer Rubens Barrichello da vida num pódio!

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Para o bis, a ótima “Into My Life” e a não menos interessante e dançante “Be Good Johnny”. O saldo enquanto ecoava “Love is the Sweetest Thing” (Ray Noble And His New Mayfair Dance Orchestra)? Conforme apontamos, foram oito de “Business as Usual” e, do Men at Work em si, mais seis de “Cargo” e duas de “Two Hearts”, fora três da carreira solo. Se o início foi morno e o final quente, o “miolo” foi de respeito, especialmente pelo mencionado acréscimo de “Everything I Need”, sem querer soar repetitivo. E com passos lentos para a saída devido ao local cheio, ainda conferimos uma segunda outro, “Dream” (Roy Orbison), chegando a uma hora e cinquenta e cinco minutos.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Men at Work – ao vivo em São Paulo

  • Local: Vibra São Paulo
  • Data: 21 de fevereiro de 2024

Repertório:

Intro: Music For A Found Harmonium [Penguin Café Orchestra]
01) Touching The Untouchables
02) No Restrictions
03) Come Tumblin’ Down [Colin Hay]
04) Can’t Take This Town [Colin Hay]
05) Down By The Sea
06) Everything I Need
07) Blue For You
08) I Can See It In Your Eyes
09) Dr. Heckyll & Mr. Jive
10) No Sign Of Yesterday
11) Who Can It Be Now?
12) Underground
13) Catch A Star
14) Upstairs In My House
15) Overkill
16) It’s A Mistake
17) Down Under
Bis:
18) Into My Life [Colin Hay]
19) Be Good Johnny
Outro 1: Love Is The Sweetest Thing [Ray Noble And His New Mayfair Dance Orchestra]
Outro 2: Dream [Roy Orbison]

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1 COMENTÁRIO

  1. ”Be Good Johnny” também foi -além de ser a minha preferida dessa banda— um grande sucesso do Men At Work. Por isso, não fiquei surpreso ao ver que ela foi uma das últimas faixas do setlist do show.

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