Bruce Dickinson desafia o ouvinte em “The Mandrake Project”

Primeiro álbum solo do vocalista do Iron Maiden em 19 anos traz sonoridade obscura, com aspectos dramáticos e bastante influência progressiva

Os primeiros indícios de um novo álbum solo de Bruce Dickinson datam de 2015. À época, o vocalista anunciou que a faixa de abertura do álbum “The Book of Souls”, do Iron Maiden, seria usada originalmente para um projeto pessoal. “If Eternity Should Fail” acabou aproveitada pela banda, o que não incomodou o cantor – “Bring Your Daughter… To the Slaughter” já havia seguido o mesmo caminho em “No Prayer for the Dying”, de 1990.

Anos se passaram e a ideia parecia ter esmorecido. A Donzela de Ferro seguiu ocupando a maior parte do tempo de seu cantor, assim como outros projetos, que iam de palestrante a mestre cervejeiro. Veio a pandemia e a parceria com Roy Z se intensificou novamente, mesmo que à distância em um primeiro momento. O resultado pode ser conferido agora em “The Mandrake Project”, primeiro trabalho solo de Dickinson desde “Tyranny of Souls” (2005).

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De cara, é importante que o ouvinte tenha alguns pontos destacados. O principal é que se trata de um disco bem obscuro. Quase todas as músicas seguem uma pegada lenta. Não, Bruce não cometeu um álbum de doom metal, mas se trata de algo com bastante influência progressiva, com aspectos dramáticos tal qual prometido no projeto como um todo, que ainda inclui uma série em quadrinhos.

Outro ponto importante reside no fato de que uma primeira audição não deve servir como base para conclusões mais embasadas. Trata-se de um daqueles exemplares que precisa ser apreciado várias vezes para se ter um veredicto.

E o principal: não espere um álbum como qualquer outro que levou a assinatura do protagonista. Muito pouco de “The Chemical Wedding” (1998) pode ser notado e quase nada dos outros integrantes da discografia.

“Afterglow of Ragnarok” é a faixa de abertura e foi o primeiro single. Embora não necessariamente represente o play como um todo, dá uma boa ideia com seu clima dark. Os vocais contam com efeitos que os mais puristas não imaginariam, mas que se encaixam na proposta. Em “Many Doors to Hell” temos o mais próximo de uma canção roqueira convencional, com seu riff oitentista lembrando algo de Dio ou Scorpions, como o próprio Bruce referenciou em entrevistas.

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Outra previamente conhecida do público, a melódica “Rain on the Graves” traz Bruce incorporando um contador de histórias na interpretação. E é justamente onde reside o ponto forte da composição. Já “Resurrection Men” conta com violões ditando o ritmo na parceria de uma parte percussiva trazendo certa influência latina – lembremos que o Tribe of Gypsies, onde Roy Z foi revelado, era basicamente uma banda nessa linha. Há espaço, ainda, para variações de andamento na metade do arranjo.

Como seria se Jesus voltasse como um digital influencer? Ele seria levado a sério? Foi o que Dickinson propôs refletir na letra de “Fingers in the Wounds”. Mais curta do tracklist, a música adota um formato acessível, com orquestrações garantindo o tom dramático. Então, chega o aguardado momento de conferir “Eternity Has Failed”. Em comparação à versão do Maiden, ela é mais curta e há alterações na letra. Na inevitável disputa, a da banda de Steve Harris ainda me soa um pouco melhor, mas nada de muito diferente.

O momento mais metálico da audição vem em “Mistress of Mercy”, com o inevitável destaque para o baixo em uma textura sonora que mostra o quanto não há a preocupação em soar desconectado do atual. Ao contrário, Bruce e Roy sabem se valer muito bem do contemporâneo. A balada “Face in the Mirror” era outra muito aguardada desde que o frontman declarou que ela contaria com seu primeiro solo de guitarra. Na verdade, se trata de um momento bem primário ao violão. O grande destaque vai para a letra, que propõe uma reflexão sobre o alcoolismo e os julgamentos que as pessoas doentes sofrem.

“Shadow of the Gods” foi escrita para o projeto The Three Tremors, que reuniria Bruce, Rob Halford e Geoff Tate – ou Ronnie James Dio. É o momento onde a dramaticidade mais aflora, oferecendo alta carga emotiva. Dá até para imaginá-la sendo transportada ao universo do tributo a Jon Lord caso o projeto se mantenha. Curiosamente, ela guarda algumas semelhanças justamente com uma música do Halford produzida por Roy Z: “Silent Screams”, do álbum “Resurrection” (2000).

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Encerrando, temos os quase dez minutos de “Sonata (Immortal Beloved)”. A ideia mais antiga – em torno de 25 anos, de acordo com Dickinson – é baseada na “Sonata ao Luar” de Beethoven, além do filme “Immortal Beloved” – “Minha Amada Imortal” no Brasil –, lançado em 1994. É o momento mais experimental do disco e, justamente por isso, aquele em que a mente do ouvinte mais longe viaja. A ponto de você nem se dar conta da duração, um mérito em casos do tipo.

Como dito, “The Mandrake Project” não é um álbum fácil. Não deve ser encarado como um disco convencional. Há momentos em que ganha contornos de um filme ou até mesmo uma peça teatral, embora apenas uma pessoa fique responsável pela interpretação. Recentemente, o vocalista chegou a declarar que apenas 3 ou 4 faixas devem entrar nos shows. Faz sentido, levando em conta que o formato não parece muito propício para uma execução na íntegra em um show padrão. Talvez em uma apresentação temática a coisa pudesse mudar de figura.

E vamos concluir com uma observação importantíssima: Bruce Dickinson é um dos maiores cantores da história do rock e do metal. Pouquíssimos artistas chegaram aos 65 anos de idade cantando dessa forma. Sim, há diferenças em relação ao registro de outrora. Mas ele consegue driblá-los e adaptar ao que pode oferecer de forma gloriosa, digna de todos os elogios. Mesmo aqueles que o influenciaram não alcançaram tamanho feito.

*“The Mandrake Project” será lançado nesta sexta-feira (1º) pela BMG. O álbum poderá ser ouvido nas plataformas digitais neste link. A edição física em CD pode ser adquirida clicando aqui.

Bruce Dickinson – “The Mandrake Project”

  1. Afterglow of Ragnarok
  2. Many Doors to Hell
  3. Rain on the Graves
  4. Resurrection Men
  5. Fingers in the Wounds
  6. Eternity Has Failed
  7. Mistress of Mercy
  8. Face in the Mirror
  9. Shadow of the Gods
  10. Sonata (Immortal Beloved)

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João Renato Alves
João Renato Alveshttps://twitter.com/vandohalen
João Renato Alves é jornalista, 40 anos, graduado pela Universidade de Cruz Alta (RS) e pós-graduado em Comunicação e Mídias Digitais. Colabora com o Whiplash desde 2002 e administra as páginas da Van do Halen desde 2009. Começou a ouvir Rock na primeira metade dos anos 1990 e nunca mais parou.

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