Em Brasília, Paul McCartney desfila tributos e genialidade em show que vai além do óbvio

Após apresentação surpresa no Clube do Choro, Macca se despede da capital com espetáculo emocionante que contempla Beatles, Wings e até Hendrix

Paul McCartney passou por Brasília como um furacão: contundente e imprevisível, não necessariamente nessa ordem. Primeiro, atacou com um surpreendente show intimista no Clube do Choro, na terça-feira (28). Depois arrematou com um espetáculo repleto de momentos emocionantes, na noite de quinta (30), no estádio Mané Garrincha.

Foi a estreia da turnê “Got Back” no Brasil. E por mais que o Beatle já esteja em sua 10ª passagem pelo país, uma nova vinda é sempre sinônimo de grande expectativa. Ainda mais com uma apresentação que sobressai ao óbvio e entrega além do que promete.

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A olhos nus, o repertório não tem lá grandes surpresas e deve se repetir em todas as cidades — as próximas paradas serão em Belo Horizonte (3 e 4 de dezembro), São Paulo (7, 9 e 10/12), Curitiba (13/12) e Rio de Janeiro (16/12). No entanto, uma análise mais criteriosa revela algumas pérolas escondidas do cancioneiro dos Beatles, como “She’s a Woman”, “She Came in Through the Bathroom Window” e “Birthday”.

Macca contempla também sua carreira solo, músicas emblemáticas do Wings e até uma palhinha com “Foxy Lady”, da Jimi Hendrix Experience. O lendário guitarrista, porém, não é o único a ser lembrado. John Lennon e George Harrison, ex-colegas dos tempos de Fab Four, ganharam belíssimas homenagens que sensibilizaram a todos.

Como de costume, ele se esforça para falar em português e ser compreendido, nem que para isso precise ler frases e palavras aleatórias como “show de bola”, “boa noite, véi”, e “brasilienses”. Mal sabe que o idioma de sua música é universal.

Mas sedentos por esse carisma e quase três horas de beatlemania, fãs de diversas localidades marcaram presença. O Mané Garrincha, que já havia recebido Paul em 2014, esteve muito perto de lotar. Apesar disso, os relatos foram de facilidade tanto para chegar ao estádio como para transitar em seu interior, sem maiores contratempos.

Foto: Marcos Hermes

Uma novidade foram as ilhas de hidratação distribuídas em vários setores, só que o clima fresco já amenizava a situação. Nuvens carregadas chegaram a tomar conta do céu da capital, mas se dispersaram ao som dos primeiros acordes, como se a presença de um Beatle fosse capaz de eliminar qualquer ameaça de chuva.

Admiração e perplexidade

Paul McCartney e banda — Rusty Anderson (guitarra), Brian Ray (baixo e guitarra), Abe Laboriel Jr. (bateria) e Paul ‘Wix’ Wickens (teclados) — subiram ao palco às 20h50, com 20 minutos de atraso. Nada que tirasse, porém, a calma e a devoção do público.

Foto: Marcos Hermes

A espera foi marcada pela curiosidade e admiração em relação às imagens que passavam no telão, ao som de versões levemente mais dançantes de músicas variadas dos Beatles. E seguiu com total perplexidade quando o maestro do espetáculo entrou.

Caminhando calmamente, como quem vai à padaria, Macca assumiu sua posição e deu o sinal para começarem. Nada efusivo, nada de estardalhaço. Um início simples e objetivo, com “Can’t Buy Me Love” abrindo os trabalhos ao invés de “A Hard Day’s Night”, que fora escolhida para começar o show surpresa no Clube do Choro.

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Essa foi a única novidade de um setlist que, para quem fez o dever de casa, estava praticamente na ponta da língua. A escolha e a ordem das quase 40 músicas executadas seguiram o roteiro de todo show da “Got Back Tour”, na estrada desde 2022 e que passou por México e Austrália recentemente (novembro e outubro).

“Junior’s Farm” e “Letting Go” introduzem a obra de Paul com os Wings. É quando surge também o trio de metais Hot City Horns, composto por Mike Davis (trompete), Kenji Fenton (saxofone) e Paul Burton (trombone). Na primeira aparição, eles estão nas cadeiras, quase em meio aos fãs. Só depois é que se dirigem ao palco.

Foto: Marcos Hermes

“Got to Get You Into My Life” mostra que se Paul não tem mais a mesma potência vocal de outrora, ainda sobram técnica e afinação ao veterano de, pasmem, 81 anos. Um senhor grisalho e de barba por fazer que segue produzindo em alto nível, como comprova “Come On to Me”, a qual ele diz ser “uma música nova” — ela vem do álbum “Egypt Station”, de 2018. Já o mais recente, “McCartney III” (2020), passou em branco.

Em “Let Me Roll It”, Paul saca o blazer para ficar mais à vontade e também troca o baixo Hofner pela guitarra. Como se sabe, nada é por acaso. Pois é ao fim dela que o Beatle presta a primeira homenagem da noite, tocando um trecho de “Foxy Lady” em memória do velho amigo Jimi Hendrix. Bonito de se ver!

O simpático baterista Abe Laboriel, há muito conhecido do público, rouba a cena com sua dancinha em “Dance Tonight” e abre caminho para Macca encantar a todos com “Blackbird”, uma das favoritas nas casas de apostas dos beatlemaníacos.

Outros destaques da primeira metade da apresentação são “Getting Better”, “Nineteen Hundred and Eighty-Five”, a insuperável “Maybe I’m Amazed”, “Lady Madonna” (com o trio de metais arrebentando) e “Here Today”, dedicada a John Lennon, que logo daria as caras de forma mais efetiva (e tecnológica) no segundo ato.

Clímax

A segunda parte do show começa e termina com músicas do “Abbey Road” (1969), último disco gravado pelos Beatles e o penúltimo a ser lançado. “You Never Give Me Your Money” e “She Came in Through the Bathroom Window” podem não ser arrasa-quarteirões, mas funcionam muito bem ao vivo. E a trinca “Golden Slumbers”, “Carry That Weight” e “The End” é a suíte perfeita para um encerramento em grande estilo.

No entanto, o clímax da apresentação começa com outra canção do mesmo disco: “Something”. Paul sobe em um elevado no palco e, sozinho, anuncia que irá tocar uma música em homenagem ao “irmão George”. É a deixa para uma das mais belas composições do saudoso guitarrista dos Beatles, falecido em 2001.

Sentado ao piano, Paul encanta de formas distintas: seja com a melancólica “Let It Be” ou a explosiva “Live and Let Die”, que é a senha para o momento pirotécnico. Fogos tomam contam tanto do palco como do teto do estádio, iluminando Brasília.

“Ob-La-Di, Ob-La-Da” e “Hey Jude”, que dificilmente alguém ainda se dá ao trabalho de parar para ouvir em casa hoje em dia, conseguem levantar os fãs de forma impressionante. Explicam, assim, o motivo de raramente saírem do setlist, apesar de já terem entrado para aquela cota das “manjadas” em demasia.

Foto: Marcos Hermes

E no bis temos o grande momento de emoção do show, quando Paul McCartney faz um breve dueto com John Lennon em “I’ve Got a Feeling”. As imagens de John tocando e cantando na apresentação que a banda fez no topo do prédio da Apple Corps, em Londres, no dia 30 de janeiro de 1969, são projetadas no telão e sua voz entra em cena, enquanto Paul se vira para olhar e admirar o antigo parceiro — assim como todos nós.

O contraste nos timbres de voz de Lennon e McCartney dá o charme definitivo e reforça aquele que foi um dos maiores trunfos dos Beatles: ter dois cantores muito acima da média. Impossível não se emocionar nesse instante do show.

Foto: Marcos Hermes

“Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, executada como no modo “reprise” do álbum homônimo, e “Helter Skelter” fizeram o Mané Garrinha pulsar e se preparar para a despedida com a já citada suíte que encerra “Abbey Road”.

Uma noite de tributos a mestres (Hendrix), camaradas (Lennon e Harrison) e à própria história de quem esteve lá para escrevê-la e permanece aqui para contá-la. Afinal, “In Spite of All the Danger”, como bem lembrou Macca, foi a primeira música gravada pelos Beatles, em 1958, ainda sob a alcunha embrionária de The Quarryman.

Se no início da semana Paul McCartney chegou a Brasília surpreendendo todo mundo, com o show inesperado e uma grata quebra de script, o ato final reservou nada menos do que todos esperavam: a genialidade que lhe é habitual. E um passeio pelo brilhante legado de seis décadas do maior artista musical que ainda caminha entre nós.

Foto: Marcos Hermes

Paul McCartney – ao vivo em Brasília

  • Local: Estádio Mané Garrincha
  • Data: 30 de novembro de 2023
  • Turnê: Got Back

Repertório:

  1. Can’t Buy Me Love (Beatles)
  2. Junior’s Farm (Wings)
  3. Letting Go (Wings)
  4. She’s a Woman (Beatles)
  5. Got to Get You Into My Life (Beatles)
  6. Come On to Me (carreira solo)
  7. Let Me Roll It (Wings)
  8. Getting Better (Beatles)
  9. Let ‘Em In (Wings)
  10. My Valentine (carreira solo)
  11. Nineteen Hundred and Eighty-Five (Wings)
  12. Maybe I’m Amazed (carreira solo)
  13. I’ve Just Seen a Face (Beatles)
  14. In Spite of All the Danger (The Quarryman)
  15. Love Me Do (Beatles)
  16. Dance Tonight (carreira solo)
  17. Blackbird (Beatles)
  18. Here Today (carreira solo)
  19. New (carreira solo)
  20. Lady Madonna (Beatles)
  21. Fuh You (carreira solo)
  22. You Never Give Me Your Money (Beatles)
  23. She Came in Through the Bathroom Window (Beatles)
  24. Jet (Wings)
  25. Being for the Benefit of Mr. Kite! (Beatles)
  26. Something (Beatles)
  27. Ob-La-Di, Ob-La-Da (Beatles)
  28. Band on the Run (Wings)
  29. Get Back (Beatles)
  30. Let It Be (Beatles)
  31. Live and Let Die (Wings)
  32. Hey Jude (Beatles)

Bis:

  1. I’ve Got a Feeling (Beatles)
  2. Birthday (Beatles)
  3. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – reprise (Beatles)
  4. Helter Skelter (Beatles)
  5. Golden Slumbers (Beatles)
  6. Carry That Weight (Beatles)
  7. The End (Beatles)

Banda:

Paul McCartney (vocal, guitarra, violão, baixo, piano e ukelele)
Rusty Anderson (guitarra)
Brian Ray (baixo e guitarra)
Abe Laboriel Jr. (bateria)
Paul ‘Wix’ Wickens (teclados)

Hot City Horns:

Mike Davis (trompete)
Kenji Fenton (saxofone)
Paul Burton (trombone)

Foto: Marcos Hermes
Foto: Marcos Hermes

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Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves é jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). É repórter do Globo Esporte e atua no jornalismo esportivo desde 2008. Colecionador de discos e melômano, também escreve sobre música e já colaborou para veículos como Collectors Room e Rock Brigade. Atualmente revisa livros da editora Estética Torta e é editor do Morbus Zine, dedicado ao death metal e grindcore.

1 COMENTÁRIO

  1. PAUL MCCARTNEY E O SEU SHOW NOS DÃO MOTIVOS PARA UM BILHÃO DE PALAVRAS DE APLAUSOS E ELOGIOS. MAS, ESTUPEFATOS, FICAMOS SEM PALAVRAS, VÃO OS ELOGIOS NOS APLAUSOS.

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