Entrevista: Steve Hackett fala de Brasil, Ritchie e álbum “cinquentão” do Genesis

Tocando o álbum “Seconds Out”, guitarrista tem três apresentações marcadas no país o qual visita desde 1977

Steve Hackett mal via a hora de voltar ao Brasil. O guitarrista que fez história no Genesis antes de embarcar em frutífera carreira solo tem shows marcados em três cidades: Rio de Janeiro, Niterói e São Paulo, respectivamente nesta sexta-feira, sábado e domingo.

Nesta ocasião ele tocará, acompanhado de músicos argentinos, o mesmo repertório de “Seconds Out” (1977), talvez o mais célebre álbum ao vivo da banda que primeiro o revelou. Em Niterói, cabe destacar, a apresentação será na praia de São Francisco, com entrada gratuita.

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Mas essa não é de longe a única novidade. Está previsto para setembro o lançamento de “Foxtrot at Fifty + Hackett Highlights”, gravado durante a turnê comemorativa de 50 anos do clássico “Foxtrot”, do Genesis; e a empolgação de Steve para com o novo trabalho rendeu uma fala digna de causar palpitações nos fãs mais árduos do grupo e do rock progressivo como um todo.

Brasil: amor verdadeiro, amor eterno

Os primeiros shows de Steve Hackett no Brasil foram em 1977, ano em que a turnê do álbum “Wind & Wuthering” (1976) trouxe o Genesis para uma temporada de 14 apresentações em 12 dias no país. Três anos antes, porém, o guitarrista esteve aqui a passeio e pode tomar algumas notas mentais úteis:

“Percebi que as rádios daí estavam tocando muito Genesis. Provavelmente éramos maiores aí do que nos Estados Unidos. Naquela época, o Brasil só recebia um show internacional a cada dois anos. Era quase como se houvesse uma proibição ou algum tipo de toque de recolher. A ditadura militar ainda sufocava. Não sei se os generais pensavam que haveria tumultos nas ruas se mais shows internacionais fossem realizados.”

Referindo-se à supracitada turnê como “brilhantemente boa”, Hackett recorda-se de alguns detalhes específicos do giro:

“Lembro-me de tocar no Rio, fazendo dois shows por noite no Maracanãzinho. A mesma coisa em São Paulo [no Ginásio do Ibirapuera] e Porto Alegre [no Gigantinho]. Foi muito interessante porque nunca havíamos tocado no Brasil e de repente estávamos tocando para um grande número de pessoas. Ficamos maravilhados com o fato de sermos tão conhecidos. A TV Globo estava envolvida na época, então isso significava que havia um anúncio do show a cada quinze minutos da programação. Não dava para fugir do Genesis! [Risos.]”

Nos vindouros compromissos por aqui, Steve terá como banda de apoio a argentina Genetics, com a qual já tocou antes. Em relação ao repertório a ser tocado, Hackett definiu como uma “amostra” do que foi a banda até aquele ponto.

“Inclui músicas de ‘Nursery Cryme’ (1971), ‘Foxtrot’ (1972), ‘Selling England by the Pound’ (1973), ‘The Lamb Lies Down on Broadway’ (1974), ‘A Trick of the Tail’ (1976) e ‘Wind & Wuthering’; todos os álbuns considerados Genesis clássico.”

O parceiro Ritchie

Em Niterói, Hackett terá como atração de abertura um velho conhecido: Ritchie. O cantor do sucesso “Menina Veneno” está de volta aos palcos para comemorar os 40 anos de lançamento de seu primeiro álbum, “Voo de Coração” (1983), no qual Steve é creditado por ter gravado a faixa-título.

“[Naquela época] ele estava compondo para um possível álbum solo e nós éramos amigos; nos conhecíamos há algum tempo e cheguei a trabalhar com ele em algumas faixas, entre elas ‘Voo de Coração’, que se tornou um grande sucesso para ele. Foi uma grande alegria para mim vê-lo decolar. Ele se tornou uma espécie de Elvis brasileiro, e fiquei muito feliz por ele.”

Sem revelar se haverá uma canja no palco, Hackett diz:

“Ele é um cara imensamente inteligente, doce e talentoso. Ainda somos amigos agora, mantemos contato. Estou ansioso para vê-lo.”

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“Foxtrot”: 50 anos de um clássico

Em setembro, Steve Hackett lançará um novo disco ao vivo. Como o próprio título já denuncia, “Foxtrot At Fifty + Hackett Highlights” traz performance na íntegra do álbum do Genesis de 1972, além de cortes selecionados da carreira do guitarrista. Após definir a experiência de revisitar “Foxtrot” como “muito interessante” e “maravilhosa”, Hackett justifica:

“O Genesis nunca chegou a tocar o ‘Foxtrot’ na íntegra. Tocamos algumas faixas, mas não todas. É uma alegria para mim tocar ‘Time Table’, que nunca tinha sido tocada ao vivo.”

Um episódio relacionado à canção de pouco mais de 4 minutos foi suscitado pelo guitarrista:

“Estávamos tocando em Madri [em 25 de junho deste ano], e o público cantou ‘Time Table’ de cabo a rabo! Eles sabiam cada verso de cor. Eis o poder da música: mesmo as faixas obscuras e menos conhecidas encontram lugar no coração das pessoas.”

Considerado um dos mais icônicos e influentes álbuns do rock progressivo, “Foxtrot” acumula todos os predicados obrigatórios de um clássico. Mas o que um de seus principais criadores tem a dizer a respeito dele? Quando questionado sobre o que torna “Foxtrot” tão único e especial, Hackett aponta:

“A qualidade das composições. E éramos cinco compositores. E, claro, éramos todos jovens idealistas, e nem sempre foi fácil porque, quando você compõe em parceria, tudo pode ser muito competitivo. O efeito disso [do caráter colaborativo das composições] foi John Lennon dizendo que considerava o Genesis como os verdadeiros herdeiros dos Beatles.”

Ele vai além, destacando talentos individuais de dois ex-colegas e a variedade temática presente nas letras de um deles:

“Acho que o Genesis foi provavelmente a banda mais ritmicamente sofisticada de sua época devido ao [baterista] Phil Collins. Já no [vocalista] Peter Gabriel, você tinha um humanitário em ascensão, com suas tendências socialistas já bem manifestas. E acho que todas essas qualidades vinham à tona com certo humor. As letras tratavam de ficção científica, comédia, crítica social, nostalgia; muitos vieses diferentes, e sempre uma bela contação de histórias.”

O sucesso do álbum — foi o primeiro do Genesis a chegar às paradas no Reino Unido, alcançando a 12ª posição, e chegou ao número um na Itália — surpreendeu o guitarrista.

“Na época, não achei nada comercial; temi que a gravadora fosse rescindir nosso contrato. Parecia óbvio que eles não aceitariam. E eu não poderia estar mais equivocado, e fiquei muito satisfeito por ter menosprezado seu potencial comercial.”

Quanto à escolha dos “Hackett Highlights” que compõem a fatia sobressalente do ao vivo, o critério de escolha foi simples e direto: são músicas que funcionaram muito bem ao vivo, por isso estão lá. Dentre esses “Highlights”, o músico reitera a importância de dois; curiosamente, oriundos de fases completamente distintas de sua carreira:

“‘Ace of Wands’, a primeira faixa do primeiro álbum solo que fiz [‘Voyage of the Acolyte’ (1975)] e ‘The Devil’s Cathedral’, do ‘Surrender of Silence’ (2021), que é o meu álbum mais contemporâneo.”

Sendo assim, o que esperar do disco? A resposta equivale a uma opinião um tanto quanto impopular e que pode repercutir de maneira polêmica na seara dos puristas do prog:

“É um álbum com uma ótima sonoridade. Ouso dizer que soa melhor para mim do que o álbum original. Isso pode parecer um sacrilégio para alguns, mas vou deixar que essas pessoas julguem por si mesmas quando ouvirem.”

*Steve Hackett se apresenta no Rio de Janeiro (18/08, Vivo Rio), Niterói (19/08, praia de São Francisco) e São Paulo (20/08, Espaço Unimed). Clique no nome de cada cidade para comprar ingressos. A apresentação em Niterói tem entrada gratuita.

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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