Crítica: em outro lugar do multiverso, talvez The Flash fosse bom

Produção que encerra o Snyderverso e abre novas possibilidades com James Gunn até diverte, mas não convence - e meio que até envergonha o público

Antes de tudo, importante reforçar uma coisa a respeito desta primeira incursão cinematográfica solo do Flash – apesar da destacada participação do Batman (seja na versão Ben Affleck, seja na versão Michael Keaton, ou então…) nos materiais de divulgação, este não é de fato um filme do Homem-Morcego, como parecia. O foco está declaradamente no Velocista Escarlate. Isso é um dos pontos mais positivos da trama de “The Flash”. Infelizmente, talvez seja também um dos únicos.

A produção é, de fato, bem melhor do que eu imaginava quando coloquei os pés na sala de cinema, o que não significa muito. E preciso dizer que nem de longe ela corresponde aos comentários acalorados de gente que teve a chance de vê-la ainda inacabada, uma turma (que inclui até figurões famosos como Tom Cruise e Stephen King) que chegou a chamar de “um dos melhores filmes de super-heróis da história”. Menos, minha gente.

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Nos momentos em que “The Flash” se foca especificamente no lado mais humano de Barry Allen – aqui interpretado por Ezra Miller em dois perfis diferentes, um mais velho e cada vez mais em busca do amadurecimento e um mais jovem, ainda mais pentelho e insuportável do que a sua versão na história da “Liga da Justiça” –, a coisa tem lá um gostinho diferente e até chega a divertir. Só que, antes de qualquer coisa, este filme tem uma função muito clara. O personagem, por conta da habilidade de viajar no tempo e da estranha mania de querer bagunças com as linhas temporais, é a desculpa perfeita para martelar o último prego restante no caixão do chamado Snyderverso e abrir o leque de oportunidades para a vindoura gestão James Gunn na TV e nos cinemas.

É justamente nestes momentos que a história escorrega. Aliás, “escorrega” é um verbo muito sutil: ela derrapa e capota com vontade. E não consegue, de fato, entregar metade do que era prometido, a tal tradução da mudança que representou Ponto de Ignição (ou Flashpoint, para os íntimos) nas telonas.

Tudo frouxo, sem amarração e sem o impacto devido (tanto visual quanto narrativo, diga-se). As coisas simplesmente… acontecem. “Hey, vamos entrar na casa do velho milionário excêntrico”, “hey, vamos buscar o Superman que está sendo mantido refém na Rússia”, “hey, vamos nos meter a surrar uns kryptonianos superpoderosos que por acaso estão parados num deserto, longe da civilização”. E cabe a você, querido espectador, engolir ou não.

É um filme de super-herói, eu sei, sempre vai ter um deus ex machina tirado do bolso. Mas não é pra tanto.

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Eu não engoli. E olha que eu amo um filme farofa, que abraça a mais pura galhofa. Mas não é, de fato, o caso deste Flash. Para isso, faltou se levar bem menos a sério pra chegar no ponto de me fazer entrar na onda.

Um pouquinho de história, vai

Depois de uma constrangedora cena de salvamento envolvendo um monte de bebês e um cachorro além de um encontro com os chapas de Liga de Justiça – incluindo um Bataffleck usando um uniforme tenebroso de feio –, tal qual nos quadrinhos ou na recente série de TV, Barry Allen descobre que sua velocidade pode levá-lo a romper as fronteiras do tempo e viajar pro passado e futuro. E isso acontece às vésperas do julgamento de seu pai, injustamente acusado de matar sua mãe muitos anos atrás.

Ainda sem provas para ajudar a provar sua inocência e saudoso de sua mãe, Barry resolve voltar ao dia em que Nora morreu para impedir que a tragédia aconteça. Ao mover uma mera lata de tomate de lugar, ele causa – obviamente – uma ruptura que cria uma linha do tempo alternativa. Arremessado da dimensão da Força da Aceleração por um antagonista desconhecido (talvez fosse até melhor permanecer assim…), ele vai parar num tempo passado desta realidade divergente, encontrando um Barry Allen adolescente, com ambos os pais vivos… e justamente no dia em que deveria sofrer o acidente no laboratório que lhe deu seus poderes.

As mudanças que ele causou passam não apenas por sua família, mas também pela indústria cinematográfica (no que é talvez a sequência mais inspirada do filme, em especial pra quem conhece os bastidores dos filmes clássicos ali citados) e pelo mundinho dos heróis. O General Zod (Michael Shannon) está de volta à Terra e eles acabam cruzando não o caminho de Kal-El, mas sim de sua prima, Kara Zor-El (Sasha Calle, simpática mas com pouquíssimo tempo de tela pra mostrar na real a que veio). E o Batman, mais velho e agora aposentado, é uma pessoa completamente diferente – no caso, o Michael Keaton dos filmes dirigidos por Tim Burton. Se tem alguém que parece estar se divertindo horrores ali, definitivamente é ele.

Talvez quem não estivesse se divertindo, no entanto, fosse a galera da equipe de efeitos visuais.

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Viagens no tempo, multiversos e participações

Tão constrangedora quanto a sequência inicial no hospital é, de fato, a cena final. Porque vejam vocês: da mesma forma que este é um filme do Flash e não do Batman, está claro que ele é mais uma história sobre viagem no tempo e a responsabilidade sobre o chamado efeito borboleta do que uma trama sobre multiversos. Não, a pegada não é, definitivamente, nem Aranhaverso e tampouco Multiverso da Loucura.

Mas, como era de se esperar, as cagadas de Barry Allen desencadeiam uma série de mudanças bizarras que vão além da linha temporal na qual ele está – e eis que acontece, aos 45 do segundo tempo, o momento com a maior parte das tão aguardadas “participações especiais”. Entre aspas mesmo, porque todas elas acabam sendo num CGI de execução bastante duvidosa, transformando o que deveria ser um momento de pura nostalgia e emoção em um espetáculo de vergonha alheia. Temos versões de heróis clássicos num formato bonecão plastificado sem qualquer expressão, o que é uma pena. E sim, antes que alguém diga, havia muitas formas de fazer a mesma coisa de jeitos bem diferentes.

Pra quem reclamou lá daquela cena da temporada final da série dos Titans que vazou, na qual o Mutano vê diferentes dimensões potenciais (incluindo um olhar metalinguístico a la Homem-Animal do Grant Morrison em pessoa), bom… preciso dizer que a conclusão do filme, que tinha tudo para ser incrível, é ainda pior e mais vergonhosa.

Aliás, agora que assisti enfim ao filme do herói, posso dizer sem medo de errar: a série é muito melhor. Pelo menos as duas primeiras temporadas são um retrato muito melhor e mais fiel do Flash, um Barry Allen muito mais coração e emoção do que este que vemos retratado aqui. Uma pena.

Se era pra ser um ponto de partida pra nova DC, acho que começa bem mal. Mas em James Gunn eu confio e prefiro imaginar que isso é só uma forma do cara “limpar” o que um certo alguém fez antes para poder começar sem ter muitos elos de ligação necessários. Já como funeral do Snyderverso, digamos que “The Flash” funciona que é uma beleza (?). Resultado final justíssimo para tudo que foi entregue até ali.

E que descanse, definitivamente, em paz.

*“The Flash” estreia nos cinemas brasileiros em 15 de junho.

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Thiago Cardim
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Thiago Cardim é uma mistura de jornalista com publicitário, salpicada com cinéfilo, temperada com metaleiro e reforçada com gibizeiro. Escreve sobre cultura pop no Gibizilla, fala sobre coisas do mundo no podcast Imagina Se Pega No Olho e sobre música no Imagina Se Pega no Ouvido.

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