Johnny Gioeli desfila carisma e classe vocal durante show sold-out em SP

Com set curto e certeiro, vocalista do Hardline e Axel Rudi Pell compilou melhores momentos de sua carreira com apoio de banda afiada

Ao introduzir “Life’s a Bitch” – música do Hardline e sexta do repertório – durante o show realizado na última sexta-feira (10) em São Paulo, Johnny Gioeli declarou que o trabalho como músico “não é fácil, mas é muito belo”. Em seguida, ampliou o discurso: “Às vezes não estamos felizes com nosso trabalho, com a esposa ou o marido, com a namorada ou o namorado, daí o alarme toca e você só pensa… ‘life’s a bitch”.

O trecho final da fala me despertou uma identificação curiosa. Durante parte da minha adolescência, a música em questão – responsável por abrir “Double Eclipse” (1992), um dos meus álbuns favoritos de todos os tempos e certamente um disco que faria muito sucesso se lançado três anos antes – era o alarme do despertador do meu celular.

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Foto: Gustavo Diakov

Foi um público nostálgico como eu que lotou o modesto, mas ajeitado Legends Music & Bar, naquele que foi o primeiro show da carreira de Gioeli no Brasil. O cantor ainda se apresentará no Hard Rock Café em Curitiba, neste sábado (11), concluindo uma turnê que só foi possível porque o artista já estaria na América do Sul para outra apresentação. Dias antes, Johnny tocou em um evento no Chile destinado a fãs de animes e cultura geek no geral – ele também empresta sua voz ao projeto Crush 40, responsável pelas trilhas de vários games do personagem Sonic, por isso a ligação com este segmento.

Mas não importa o que trouxe ao Brasil o cantor do Hardline, Axel Rudi Pell e tantos outros projetos. Importa que ele veio e fez uma apresentação histórica para os fãs dos renegados do hard rock.

*Fotos de Gustavo Diakov / @xchicanox. Caso as imagens apareçam pequenas, atualize a página.

Abertura morna

Responsável por abrir o show, a banda paulistana Nite Stinger reúne figuras conhecidas da cena. O baterista é ninguém menos que Ivan Busic, membro do Dr. Sin e uma das referências em seu instrumento quando se fala de som pesado no Brasil. O baixista Bento Mello (também Sioux 66) e o guitarrista Bruno Marx trabalhavam juntos no Tales from the Porn, que trazia até mesmo o gringo Stevie Rachelle (Tuff) no vocal. A formação do novo grupo é completa por Jack Fahrer (voz) e Leonardo Gonçalves (guitarra, também Desert Dance).

Foto: Gustavo Diakov

O início do set pareceu promissor com a enérgica “You Want It, You Got It”, mas a sequência, infelizmente, não foi das mais empolgantes. Todos os envolvidos são bons ou ótimos no que fazem, mas além da timbragem ligeiramente abelhuda de Gonçalves não ter colaborado e Busic ter soado um pouco “preso” demais, as músicas não atraíram. Por vezes, toleramos e até nos divertimos com a replicação de alguns clichês do hard rock oitentista por serem funcionais – há um leque imenso de canções grandiosas e pegajosas no “portfólio” deste estilo. Quando isso não nos é entregue, perde o propósito.

Foto: Gustavo Diakov

Nesse sentido, uma das grandes fragilidades está no desenvolvimento das linhas vocais de Jack Fahrer. Não estamos falando de um amador: é visível que ele sabe cantar. A questão parece ser mais criativa, já que boa parte das músicas ali apresentadas traziam poucas variações de sua voz. Houve pouco uso de sua tessitura. Nem todo cantor do gênero precisa ser o rei dos agudos, mas é preciso explorar um pouco mais o gogó para dar mais vida às composições.

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Foto: Gustavo Diakov

Faixas como a cadenciada “Hell is Getting Higher” e a tipicamente oitentista “Heading Out” foram as mais afetadas nesse sentido. Já entre as que funcionaram melhor, estiveram a semibalada “Let Me In” e a já mencionada “You Want It, You Got It”. Em meio a um set de 45 minutos, ainda soou insuficiente para deixar uma marca no público – nem mesmo a versão heavy de “Danger Zone”, hit de Kenny Loggins presente na trilha sonora de “Top Gun”, empolgou os presentes –, mas há espaço para evolução.

Sangue quente

Desde os primeiros segundos de sua chegada ao palco, às 22h10, Johnny Gioeli não conseguiu esconder sua felicidade. Volta e meia um sorriso espontâneo surgia em sua face ao interagir com os fãs – dos que estavam nas primeiras fileiras aos que ocupavam os espaços ao fundo. Um deles, que chegou a levar e mostrar o encarte de “Double Eclipse” no meio do show, foi apelidado de Arnold Schwarzenegger pelo carismático cantor.

Estivemos diante de um descendente de italianos com o natural sangue quente. O calor do público paulistano visivelmente fez bem a Gioeli, que entregou uma performance daquelas. Alguém que não conhecesse nada sobre o artista e assistisse àquele show jamais diria que ele tem 55 anos de idade. Na maior parte do tempo, parecia um garoto.

Foto: Gustavo Diakov

Como enfatizado: na maior parte do tempo. Johnny pode ter muita disposição, fôlego invejável e boa parte da voz preservada, mas sabe que não é menino. Logo nas primeiras músicas, a dobradinha “Tear Down the Walls” (Axel Rudi Pell) e “Takin’ Me Down” (Hardline), deu para ver como ele gerencia bem o gogó. No mundo do futebol, seria como aquele camisa 10 veterano que não corre o campo todo, mas sabe dar o passe que deixa o companheiro na cara do gol. Gioeli sabe os atalhos. Sem eles, estaria ferrado, já que especialmente as músicas de “Double Eclipse” têm altíssimo nível de dificuldade na interpretação.

Toda essa sabedoria aliada a talento – dele e de sua afiada banda de apoio composta por Bruno Luiz (guitarra; Command6 e StormSons), Bento Mello (em jornada dupla no baixo), Bruno Sá (teclados; Geoff Tate, Angra etc) e Gabriel Haddad (bateria; Sioux 66) – e muito carisma fizeram com que o público fosse conquistado já nos primeiros momentos. Não foi de se espantar o coro “Johnny, Johnny” já ao fim da terceira faixa do set, “Dr. Love”; coro este que se repetiu em diferentes momentos da noite.

Embora o frontman tenha dito que havia muitos “crushers” – fãs do Crush 40 – na plateia, o repertório girou em torno do Hardline e de Axel Rudi Pell, geralmente em uma saudável alternância. Houve mais ARP na primeira etapa do setlist, com destaques à cadenciada “Voodoo Nights” e à efetiva “Strong as a Rock”, mas as pérolas do álbum “Double Eclipse” permearam toda a execução. Gioeli sabia que muitos ali estavam para ouvir as interpretações de seu disco de 1992 – ainda que “Fever Dreams”, faixa que representou o renascimento do Hardline em “Danger Zone” (2012), tenha sido um dos momentos mais empolgantes no geral.

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Além de “Fever Dream”, estiveram entre os momentos de maior interação do set o hino “Hot Cherie” (cover de Danny Spanos / Streetheart devidamente “apropriado” pelo Hardline), a climática “Masquerade Ball”, a grudenta “Everything” (dedicada a seu coautor Marc Tanner, falecido em 2022) e a intensa “Rhythm from a Red Car”, que, com seu peso oriundo de instrumentos em afinação mais grave, encerrou a curta performance de 80 minutos.

Os já mencionados músicos de apoio merecem um parágrafo à parte. Bruno Luiz e Gabriel Haddad, em especial, se saíram formidavelmente bem mesmo com duas “bombas” na mão. Coube ao primeiro, guitarrista, reproduzir linhas de ninguém menos que Neal Schon e Axel Rudi Pell. Já o segundo, baterista, teve que emular Deen Castronovo e Mike Terrana na maior parte do evento. Tiraram de letra, assim como Bento Mello e Bruno Sá, que ofereceram consistência aos outros três – e Sá, “o homem que roubou os sapatos de Ace Frehley”, ainda tomou o protagonismo em momentos específicos com suas teclas.

Foto: Gustavo Diakov

Demorou, mas Johnny Gioeli veio ao Brasil. Se conseguir vê-lo em Curitiba, não perca a oportunidade. Se não puder, torça para um retorno – que precisa acontecer, já que o público mostrou ter interesse. Se leu até aqui sem saber quem cargas d’água é Gioeli, faça um favor a si mesmo e vá escutar “Double Eclipse”.

*Fotos de Gustavo Diakov / @xchicanox. Caso as imagens apareçam pequenas, atualize a página.

Johnny Gioeli – ao vivo em São Paulo

  • Local: Legends Music & Bar
  • Data: 10 de fevereiro de 2023

Repertório – Nite Stinger:

  1. You Want It, You Got It
  2. Hell is Getting Higher
  3. That Feeling
  4. By Your Side
  5. Heading Out
  6. Let Me In
  7. Gimme Some Good Lovin’
  8. Saturday Night
  9. Danger Zone (original de Kenny Loggins)

Repertório – Johnny Gioeli:

  1. Tear Down the Walls (Axel Rudi Pell)
  2. Takin’ Me Down (Hardline)
  3. Dr. Love (Hardline)
  4. Voodoo Nights (Axel Rudi Pell)
  5. Strong as a Rock (Axel Rudi Pell)
  6. Life’s a Bitch (Hardline)
  7. The Masquerade Ball (Axel Rudi Pell)
  8. Carousel (Axel Rudi Pell)
  9. Fever Dreams (Hardline)
  10. Everything (Hardline)
  11. Hot Cherie (Hardline; original de Danny Spanos / Streetheart)
  12. Rock the Nation (Axel Rudi Pell)
  13. Rhythm from a Red Car (Hardline)

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Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

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