Por que Chuck D chamou Elvis Presley de racista em música do Public Enemy

Música também faz alusão ao ator John Wayne, defensor público da ideia de uma supremacia branca

Lançada em 1989 para a trilha do filme “Do the Right Thing” (“Faça a Coisa Certa”), de Spike Lee, a música “Fight the Power” se tornou um símbolo do Public Enemy. A faixa também aparece em “Fear of a Black Planet”, álbum disponibilizado pelo grupo no ano seguinte.

Talvez seu momento mais polêmico esteja no terceiro verso, quando Chuck D declara:

“Elvis foi um herói para a maioria, mas ele nunca significou m*rda nenhuma para mim. Um verdadeiro racista aquele otário, simples assim.”

Logo a seguir, é a vez de Flavor Flav completar fazendo menção a John Wayne, ator ícone de filmes sobre o Velho Oeste e que foi assumidamente um supremacista branco:

“F*da-se ele e John Wayne.”

Controvérsia explicada

Em artigo publicado pela BBC Culture, a discussão foi resgatada por conta do lançamento de “Elvis”, cinebiografia estrelada por Austin Butler e Tom Hanks. A obra traz à tona novamente o papel do rei do rock como figura transformadora da sociedade americana segregada dos anos 1950.

Porém, nem todos compactuam que Elvis Presley tenha tido um papel tão preponderante quanto a obra tenta passar. As mudanças aconteceriam de uma forma ou de outra, na visão dos críticos.

A matéria ainda resgata uma fala de Chuck D. para o documentário “The King”, de 2017. Nela, o rapper afirma:

Sam Phillips era um empresário. Ele tentou vender estes discos com negros e não conseguiu. Ele encontrou alguém para vender um som negro para rostos brancos, ele sabia o que vender para os EUA. Isso não é um problema. A cultura deve ser compartilhada. O que me deixa ofendido é que Elvis não era mais rei do que Little Richard, Bo Diddley e Chuck Berry. Então, quem o está consagrando rei?”

Em entrevistas, Chuck reconheceu que Presley era muito respeitado por músicos negros e que o próprio cantor os admirava também. O rapper disse que o polêmico verso de sua música tinha mais a ver com criticar a cultura branca que saudava Elvis como um “rei” sem reconhecer os artistas negros que vieram antes dele.

À Associated Press, enquanto exaltava o trabalho de Eminem, um rapper branco que se destacou em um cenário dominado por negros, o integrante do Public Enemy destacou o respeito de Presley pelos artistas negros.

“Eminem é o novo Elvis porque ele tinha o respeito pela música negra que Elvis tinha. Acho que ele é cortês e simpático à música negra e, infelizmente, é mais simpático à música negra do que muitos artistas negros.”

“Fight the Power” chegou ao número 1 na parada Hot Rap Singles da Billboard. O videoclipe atingiu premiação de ouro após ultrapassar 50 mil cópias vendidas no formato VHS.

Elvis Presley e Ray Charles

Outro músico que questionava a adoração a Elvis era Ray Charles. Em 1994, durante participação no programa televisivo Now, o músico falecido uma década mais tarde, foi questionado sobre o quão bom Presley era. E não mediu palavras.

“O que Elvis fez foi mostrar à população — e quando falam de população geralmente se referem às pessoas brancas — um monte de músicas que eles não iriam ouvir antes. Eu acho que eu vou perder pelo menos um terço dos meus fãs agora… mas, dizer que Elvis foi tão ótimo e tão incrível — como eles dizem, ‘ele é o rei’… eu me vi em problemas porque uma vez me disseram isso, eu perguntei ‘rei do quê?’ e ficaram bravos comigo.

Veja, eu não penso assim do Elvis porque eu conheço artistas demais que fizeram muito mais e eram muito melhores que ele. Eu acho que Elvis foi uma pessoa que surgiu na hora certa, um garoto branco que conseguia cantar rock and roll, R&B, como quiser chamar. E as garotas ficavam malucas com ele. Nat King Cole se viu em problemas no Alabama quando as garotas ficaram malucas com ele. Foi expulso da cidade.

Além disso, as pessoas negras estão por aí balançando seus traseiros há séculos. O que diabos há de tão diferente? Tudo que ele fez foi copiar isso. Ele estava fazendo o nosso tipo de música. Ele cantava ‘Jailhouse Rock’, que era de Willie Mae Thornton (nota da redação: provavelmente Ray quis se referir a ‘Hound Dog’). Isso é a música negra. Então com o que eu deveria ficar tão empolgado, cara? Eu acho toda essa coisa de dizer que ele é o rei uma besteira. Desculpa. Próxima pergunta — e não me pergunte mais sobre o Elvis porque já estou com problemas o suficiente.”

A cinebiografia “Elvis”

“Elvis” foi dirigido por Baz Luhrmann. O próprio escreveu o roteiro em parceria com Sam Bromell, Craig Pearce e Jeremy Doner. Austin Butler interpreta o rei do rock, enquanto Tom Hanks assume o papel de Parker. Olivia DeJonge é Priscilla.

Na primeira semana em cartaz nos cinemas americanos, a obra faturou US$ 30,5 milhões de bilheteria. O lançamento no Brasil ocorre em 14 de julho. A distribuição é da Warner Pictures.

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