Uma linha do tempo das acusações de abuso sexual contra Marilyn Manson – até agora

Várias mulheres alegam, algumas delas na Justiça, que foram vítimas de diversos crimes por parte do cantor; ele nega e diz ser alvo de movimento que visa destruir sua carreira

De tortura a tráfico humano, Brian Warner, mais conhecido como Marilyn Manson, lida com uma série de denúncias relacionadas ao espectro do abuso sexual. As quase três décadas de polêmicas na conta do artista mostram agora os impactos negativos em sua carreira, com direito a perda de contrato com gravadora e papéis como ator.

A primeira denúncia contra Manson foi feita publicamente pela atriz Evan Rachel Wood, no primeiro semestre deste ano. Com o passar do tempo, várias outras mulheres, famosas ou anônimas, também alegaram abusos por parte do cantor – algumas delas formalizadas na Justiça americana.

Em relatos que vêm desde a década de 1990, a lista abaixo apresenta uma linha do tempo de acusações contra Marilyn Manson e declarações do próprio artista confirmando seu comportamento. Caso prefira, assista a uma versão em vídeo deste artigo clicando aqui.

Aviso de gatilho: esse texto contém relatos de violência e abuso sexual, torturas físicas e psicológicas, tráfico humano e tentativa de feminicídio.

Relatos em livro do próprio Marilyn Manson (1998)

Em fevereiro de 1998, pouco tempo após ficar famoso com seus trabalhos na música, Marilyn Manson lançou a autobiografia “The Long Road Out of Hell”. A obra chamou a atenção da mídia por conta de relatos de tortura e violência sexual.

No capítulo mais chocante do livro, “Meating the Fans / Meat and greet” (que propositalmente compara fãs a “carne”, tradução da palavra “meat”), o músico relata um episódio que teria acontecido na década de 1990, onde ele e Trent Reznor, líder da banda Nine Inch Nails, supostamente agrediram física e sexualmente uma mulher embriagada.

Na época em que começavam as denúncias contra Marilyn Manson, no início de 2021, o capítulo ressurgiu na internet. Somente em fevereiro de 2021, Trent Reznor se explicou em um comunicado enviado ao site Pitchfork. Na ocasião, disse não tem contato com Manson há mais de 25 anos e que a passagem no livro é uma invenção.

Segurança processa Marilyn Manson por assédio (2001)

Em dezembro de 2001, Marilyn Manson foi acusado de agredir um segurança, Joshua Keasler, durante uma apresentação no estado americano do Michigan.

O cantor teria cuspido e esfregado as partes íntimas na cabeça de Keasler, o que lhe rendeu a acusação de conduta sexual criminosa com agressão. A ação foi encerrada após acordo entre as partes.

Acusação de homicídio culposo (2002)

Em abril de 2002, Manson foi processado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, pela mãe da atriz Jennifer Syme, falecida em um acidente de carro no ano anterior.

Na noite anterior ao óbito de Jennifer, ela estava em uma festa na casa do músico. A mãe da atriz alegou que Manson lhe teria dado drogas e encorajado a dirigir embriagada, o que acarretou na colisão automobilística.

Na época, Marilyn se retratou publicamente em uma nota publicada em seu site. Ele disse que o processo era infundado e calunioso, afirmando ainda que garantiu que Jennifer fosse para casa com um motorista.

“Isso serve apenas para reabrir as feridas e a dor sentida por todos os que amam Jennifer. É uma pena que Maria St. John (mãe dela) manche a reputação de sua própria filha entrando com esse processo infundado.”

O processo foi encerrado após um acordo entre as partes.

Relacionamento com Evan Rachel Wood (2007)

Já com 37 anos em 2007, Marilyn Manson começou um relacionamento com a atriz Evan Rachel Wood, que na época tinha 19 anos. O casal rompeu pela primeira vez no ano seguinte. Pouco tempo depois, o cantor relatou, em entrevista à revista Spin, episódios de abuso psicológico.

“Toda vez que liguei para ela naquele dia – liguei 158 vezes –, peguei uma lâmina de barbear e me cortei no rosto ou nas mãos. […] Isso foi intencional, foi uma escarificação e isso foi como uma tatuagem. Eu queria mostrar a ela a dor que ela me fez passar. Foi como “Eu quero que você veja fisicamente o que você fez”.”

Manson ainda disse que a música “I Want to Kill You Like They Do in The Movies” (“Eu quero te matar como eles fazem nos filmes”) é sobre fantasias que ele tinha de quebrar o crânio de Wood com uma marreta.

Após a repercussão de suas falas e a publicação de outro artigo – agora pelo L.A. Weekly – onde um jornalista o descreveu como viciado em cocaína, Manson subiu o tom contra a imprensa por meio de uma nota divulgada em seu site oficial.

“Eu sou muito diferente do que esta imprensa que logo será assassinada em sua própria casa decidiu fabricar. E se mais um ‘jornalista’ fizer uma declaração arrogante sobre mim e minha banda, eu irei pessoalmente, ou com a ajuda dos meus fãs, cumprimentá-los em suas casas e descobrir o quanto eles acreditam em sua liberdade de expressão.”

Evan Rachel Wood relata abuso (2016)

Em entrevista à revista Rolling Stone, em novembro de 2016, Evan Rachel Wood revelou ter sofrido abuso físico, psicológico e sexual o que acarretou em uma tentativa de suicídio. Nesta ocasião, a atriz não cita nomes.

Ela declarou ter sido estuprada por uma personalidade conhecida quando estava em um relacionamento aos vinte e poucos anos. A linha do tempo batia com o período em que namorava Manson.

Alegações de Charlyne Yi (02/2018)

Em fevereiro de 2018, por meio de uma publicação no Twitter, a atriz Charlyne Yi expôs uma situação de assédio que sofreu no set da série “The House”. Ela cita diretamente o nome de Marilyn Manson.

“Ugh, nem me fala de Marilyn Manson. Sim, isso aconteceu há muito tempo atrás – na última temporada de ‘The House’. Ele veio ao set fazer uma visita porque era um grande fã da série e assediou praticamente todas as mulheres perguntando se iríamos colar velcro, além de me chamar de ‘homem da China’.”

Charlyne deletou o tweet após sofrer ataques nas redes sociais, mas retomou o assunto dizendo que esperava que o músico procurasse ajuda.

Depoimento de Evan Rachel Wood no Congresso (02/2018)

Ainda em fevereiro de 2018, Evan Rachel Wood deu uma declaração no Congresso dos Estados Unidos onde detalhou os episódios de violência doméstica e sexual que viveu. Mais uma vez, o nome do agressor não é citado.

A declaração foi parte de um movimento para garantir uma declaração de direitos para pessoas sobreviventes de abusos sexuais nos EUA.

Denúncia no #MeToo (08/2018):

O período de agosto de 2018 representou o auge do #MeToo. O movimento incentivou milhares de vítimas a denunciarem abusos, com destaque aos escândalos de Hollywood.

Nesta época, veio a público um processo em que Marilyn Manson havia sido acusado de manter uma mulher em cativeiro por 48 horas em 2011. O advogado de Manson negou as acusações e a promotoria não quis dar prosseguimento ao caso.

Novo depoimento de Evan Rachel Wood (2019)

Em abril de 2019, Evan Rachel Wood voltou a dar depoimento, agora em audiência pública na Califórnia, sobre os abusos que sofreu. A atriz relatou como sofria ameaças de morte e era chantageada e até torturada com aparelhos de choque.

“Ele acabou comigo me privando de comer e dormir, além de ameaças contra minha vida, às vezes com armas mortais, o que resultava em ataques de pânico graves em que não conseguia respirar ou parar de tremer.”

Wood ainda revelou que tinha o celular monitorado e não entrava em contato com amigos e familiares pois tinha medo do que o agressor pudesse fazer. A atriz colocou que, mais uma vez, não revelou o nome do agressor por medo.

Marilyn Manson é questionado sobre entrevista à Spin (2020)

Com as declarações de Evan Rachel Wood, surgiram especulações de que Marilyn Manson era o agressor. Em novembro de 2020, enquanto concedia entrevista à Metal Hammer por telefone, o músico abandonou a conversa ao ser questionado quanto aos relatos da atriz.

Devido a esse episódio, a assessoria do cantor divulgou um comunicado dizendo:

“Os comentários na Spin onde Manson teve uma fantasia de usar um martelo em Evan e se cortou 158 vezes foram obviamente uma entrevista teatral de um rock star promovendo um novo disco, e não um relato factual.”

Evan Rachel Wood cita Marilyn Manson (02/2021)

Em 1º de fevereiro de 2021, Evan Rachel Wood fez uma publicação no Instagram onde confirmou que Marilyn Manson era o agressor. O post dizia:

“O nome do meu agressor é Brian Warner, também conhecido como Marilyn Manson. Ele começou a me corromper quando eu era adolescente e abusou horrivelmente de mim durante anos. Fui submetida a uma lavagem cerebral e manipulada até a submissão. Estou cansada de viver com medo da retaliação, calúnia ou chantagem. Estou aqui para expor esse homem perigoso e avisar às muitas indústrias que o capacitaram antes que ele estrague outras vidas. Estou com as vítimas que não serão mais caladas.”

No mesmo dia, Manson se manifestou, também pelo Instagram.

“Obviamente, minha arte e minha vida sempre foram ímãs para polêmica, mas essas recentes afirmações sobre mim são horríveis distorções da realidade. Meus relacionamentos íntimos sempre foram consensuais com parceiras que pensam como eu. Independentemente de como – e por que – os outros agora estão optando por deturpar o passado, essa é a verdade.”

Marilyn Manson perde contratos (02/2021)

Ainda no dia da denúncia, duas participações de Manson em séries de TV foram canceladas. O empresário do músico, Tony Ciulla, rompeu a parceria de 25 anos que tinha com ele.

Além disso, a gravadora Loma Vista Recordings anunciou o encerramento do contrato com o artista sem planos futuros de colaborações.

Mais denúncias contra Marilyn Manson (02/2021)

Após a revelação de Evan Rachel Wood, outras vítimas foram encorajadas a compartilharem suas histórias.

Phoebe Bridgers

Pelo Twitter, no dia 4 daquele mês, a cantora Phoebe Bridgers relatou:

“Fui à casa do Marilyn Manson quando eu era adolescente com alguns amigos. Eu era uma grande fã. Ele se referiu a um quarto na sua casa como o ‘quarto do est*pro’. Pensei que era apenas o seu senso de humor horrível, mas deixei de ser fã. Estou com todo mundo que se pronunciou. A gravadora sabia, os empresários sabiam, a banda sabia. Distanciar-se agora ou fingir estar chocado e horrorizado é patético.”

Evan Rachel Wood contra Lindsay Usich

No dia 6, em outra publicação no Instagram, Evan Rachel Wood disse que estava sendo chantageada pela atual esposa de Manson, Lindsay Usich. A atriz registrou boletim de ocorrência que foi divulgado na rede social.

Para a chantagem, Lindsay estaria ameaçando divulgar uma foto em que Evan aparece drogada. A própria atriz divulgou a imagem, como forma de colocar fim à intimidação. Ela também relatou ter sofrido preconceito por sua origem judia por parte de Manson, que supostamente desenhava em sua cama quando estava com raiva.

Ellie Rowsell (Wolf Alice)

Por meio do Twitter, também no dia 6, a vocalista da banda Wolf Alice, Ellie Rowsell, disse que foi vítima de Manson, já em 2018.

“Solidariedade a Evan Rachel Wood e aqueles expondo Marilyn Manson. É triste ver pessoas o defendendo. Só porque ele colocou sua depravação à vista, isso não lhe dá passe livre para abusar de mulheres. Conheci Marilyn Manson nos bastidores de um festival há alguns anos. Depois que seus elogios à minha banda se tornaram mais e mais hiperbólicos, comecei a suspeitar de seu comportamento. Fiquei chocada ao olhar para baixo e ver que ele estava subindo a minha saia com uma GoPro.”

Bianca Allaine

Na mesma data, a atriz Bianca Allaine revelou em entrevista ao The Sun que teve um relacionamento abusivo com Marilyn Manson na década de 1990. O primeiro contato entre os dois aconteceu quando a atriz tinha apenas 16 anos, nos bastidores de um show em Dallas no Texas.

“Eu estava meio que me afastando quando ele colocou a mão atrás da minha cabeça, me puxou de volta e me beijou por alguns segundos. Saí do ônibus e fui embora. Não sabia o que pensar, fiquei tipo: isso é bom? Isso é ruim? O que está acontecendo? Fiquei com medo.”

Os dois se reencontraram em 1999, em Los Angeles, e começaram um relacionamento de três meses cheio de altos e baixos. A atriz afirmou que não sofreu violência física, mas presenciou um assistente ser espancado pelo cantor.

Bianca ainda contou que era induzida pelo ex-namorado a ter relações sexuais com outras pessoas para que ele assistisse.

“Muitas vezes eu não queria fazer sexo com esses caras, mas ele dizia: ‘por favor, por favor, eu realmente preciso disso, preciso ver isso’.”

Esmé Bianco e acusação de tráfico humano (04/2021)

Ainda em fevereiro, Esmé Bianco, atriz da série “Game of Thrones”, disse que também foi vítima de abusos durante os dois anos de relacionamento com Marilyn Manson entre 2009 e 2011. Em entrevista ao The Cult, ela disse ter sofrido vários tipos de violência enquanto morava com o artista, como mordidas, mutilação, privação de sono e alimentação. Ela só conseguiu encerrar a relação após fugir da casa do músico, que a teria perseguido com um machado.

Dois meses depois, em abril, a atriz entrou com processo contra Manson por agressão física e sexual, além de tráfico humano. Britânica, Esmé relatou ter sido atraída para Los Angeles por meio de uma oferta de emprego feita por Manson, que prometeu facilitar o processo de visto para os Estados Unidos.

Uma vez envolvido no processo, o músico teria chantageado e mantido Esmé presa. Ela ainda relatou que tinha que realizar trabalhos não-remunerados como forma de pagar a ida para os Estados Unidos e que o roqueiro a oferecia sexualmente aos integrantes da banda.

Em comunicado à Rolling Stone, o advogado de Manson afirmou que as alegações são “comprovadamente falsas”.

Ashley Morgan Smithline relata abusos (05/2021)

Em maio de 2021, a revista People publicou, como matéria de capa, uma entrevista com Ashley Morgan Smithline. A modelo teve um relacionamento com Manson entre 2010 e o início de 2013.

Ela relatou ter sido estuprada, torturada, ameaçada, mutilada e ainda disse ser obrigada a assistir vídeos de suicídio e pornografia infantil.

Durante a entrevista, Ashley ainda falou sobre a existência de um cômodo de vidro, à prova de som, na casa do músico em Los Angeles, onde ela ficava presa por horas, privada de sono e alimentação.

Em junho, foi divulgado que Smithlime movia um processo contra o ex-namorado. Ela também o acusou de tráfico humano, ao tê-la atraído com promessas de trabalho.

Novamente, as acusações foram negadas pelos representantes de Marilyn.

Ashley Walters move ação (05/2021)

Em maio, a ex-assistente de Marilyn Manson, Ashley Walters abriu processo contra o músico por abuso e assédio sexual, abuso psicológico e outras violências.

Ela disse que conheceu o artista por meio das redes sociais em março de 2010. Após ser elogiada, foi convidada à casa dele para conversar sobre uma oferta de trabalho, mas acabou sendo assediada e até amarrada na cama dele.

O depoimento de Ashley confirmou relatos de outras vítimas, como a existência do cômodo de vidro citada por Ashley Morgan Smithline. Em entrevista à Rolling Stone, Walters afirmou que as vítimas eram presas na caixa por horas quando faziam algo que contrariasse o músico.

Os assédios, segundo ela, também abrangiam amigos de Manson. A ex-assistente ainda disse que era ameaçada e obrigada a trabalhar por 48 horas seguidas.

Denúncia anônima (05/2021)

Outra denúncia, agora anônima, contra Marilyn Manson foi feita por uma ex-namorada que não se identificou. O TMZ obteve acesso ao processo movido pela mulher, que relata abusos cometidos durante um relacionamento em 2011.

Ela alegou que o músico a obrigava a assistir filmagens de fãs sendo torturadas por Manson e outros integrantes da banda. A autora da denúncia ainda relatou ter sido estuprada e ameaçada de morte pelo artista.

Reportagem e mandado de busca e apreensão (11/2021)

Em novembro de 2021, uma reportagem publicada pelo site da revista Rolling Stone traz alguns dos relatos, concedidos em entrevistas ou obtidos a partir dos processos, de abuso cometidos por Marilyn Manson.

De acordo com as responsáveis pelas acusações, Manson apresentava uma espécie de padrão. De início, ele demonstrava bastante afeto com intuito de ganhar confiança das mulheres. Em alguns casos, ia até rápido demais: chegava a propor casamento e constituir família logo nas primeiras semanas.

Com o passar do tempo, o comportamento ficava agressivo. O cubículo com isolamento acústico, de vidro, citado por Ashley Smithline Morgan, era chamado de “sala das garotas más”. As mulheres eram trancadas lá quando tinham “mau comportamento” e ficavam por horas. Poderiam gritar e bater que não conseguiriam sair de lá.

No mesmo mês, policiais cumpriram mandado de busca e apreensão na mansão de Marilyn Manson em West Hollywood, Los Angeles. A visita fez parte das investigações de abuso. Equipamentos que armazenam arquivos digitais, como discos rígidos, foram apreendidos.

Com o cerco apertando, Manson considera oferecer um acordo universal às mulheres que o acusam na Justiça. O advogado do vocalista, Stephen D. Rothschild, disse em uma audiência que uma das responsáveis pela acusação já terá essa oferta.

O caso ainda está em trâmite na Justiça dos Estados Unidos. Acesse o site regularmente e fique por dentro de todas as novidades sobre as ações movidas contra Marilyn Manson.

* Texto e pauta por Tairine Martins, do canal de YouTube Rock N’ Roll TV, com edição de Igor Miranda. Assista a uma versão em vídeo deste artigo no player abaixo.

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