Quando os Sex Pistols enfureceram a Rainha Elizabeth II

Tocar a música "God Save the Queen" em um barco em frente ao Parlamento Britânico no dia do Jubileu de Prata da monarca pode não ter sido a melhor ideia

A Rainha Elizabeth II, do Reino Unido, comemorou em 1977 seu Jubileu de Prata, que representava os 25 desde sua coroação em 1952. Aproveitando a ocasião, os Sex Pistols soltaram no mesmo ano o irônico single “God Save the Queen”, que tem o mesmo título do hino nacional britânico.

Como era de se esperar, a música caiu como uma bomba na mídia e na sociedade do Reino Unido. “God Save the Queen” integra o único álbum da banda, “Never Mind The Bollocks… Here’s the Sex Pistols”, lançado apenas em outubro daquele ano – entretanto, o compacto com a faixa saiu em maio, bem antes do disco completo.

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Apesar da letra ácida da canção, que compara o governo britânico a um “regime fascista” e diz que a rainha “não é um ser humano”, o vocalista John Lydon, que na época apresentava-se como Johnny Rotten, nega que a obra seja um ataque. Em um comunicado disponível em seu site oficial, o cantor aponta:

“Você não compõe ‘God Save the Queen’ porque você odeia o povo inglês. Você compõe uma música como essa porque você os ama, e está farto de que sejam maltratados.”

Os créditos de “God Save the Queen” apontam Lydon, o baterista Paul Cook, o guitarrista Steve Jones e o baixista Glen Matlock (que já havia deixado a banda na época do lançamento) como os compositores. Sid Vicious, que substituiu Matlock, não participou do processo de criação ou gravação da faixa, mas certamente se divertiu em meio ao trabalho de divulgação do single.

Sex Pistols e o Jubileu de Prata

O feriado oficial do Jubileu de Prata da Rainha Elizabeth II estava marcado para o dia 7 de junho. Àquela altura, os Sex Pistols já recebiam ataques de monarquistas, revoltados com o sucesso de “God Save the Queen”. A canção chegou ao 2º lugar nas paradas britânicas e certamente poderia chegar ao topo se não ocorresse um boicote liderado pela BBC, rede de emissoras de TV e rádio estatal, que evitou tocá-la na época.

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Embora os integrantes neguem, veio a calhar o lançamento da faixa pouco tempo antes do evento real, pois a banda pretendia oferecer seus debochados cumprimentos à rainha pelo Jubileu de Prata. E assim foi feito: aproveitando-se de uma contestada proibição de realizarem shows em solo britânico, a banda, junto ao empresário Malcolm McLaren, organizou uma apresentação em um barco no rio Tâmisa, que atravessa Londres. A data? Obviamente, 7 de junho.

Além dos músicos e do empresário, uma equipe de filmagens e um grupo de jornalistas acompanharam a performance no barco, não à toa chamado “Queen Elizabeth”. Durante o dia, todos comeram e beberam, deram entrevistas e conversaram sob o inclemente clima londrino, muito apropriado ao sentimento de revolta da canção.

Ao passarem em frente ao prédio do Parlamento Britânico, em Westminster, os Sex Pistols começaram o show. Após a abertura com “Anarchy in the U.K.”, o repertório seguiu com a própria “God Save the Queen”, além de “No Feelings” e “Pretty Vacant”.

Também conforme esperado, o “Queen Elizabeth” começou a ser cercado por barcos da polícia de Londres. Fim da festa, início do tumulto: Malcolm McLaren discutiu com policiais e acabou apanhando e sendo preso quando a embarcação já estava de volta ao píer.

A multidão se dispersou, incluindo os músicos. Contudo, o recado estava dado: Deus salve a rainha.

Intencional?

Apesar de a data vir a calhar, os Sex Pistols garantem que o single não foi lançado pensando na festa do Jubileu da Rainha. O baterista Paul Cook chegou a falar sobre isso em uma entrevista para a biografia de Johnny Rotten (John Lydon), dizendo que a banda nem sabia quando seria a ocasião.

“Não foi composta especificamente para o Jubileu da Rainha. Nós não sabíamos disso na época. Não foi um esforço artificial para sair e chocar todo mundo.”

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Relançamentos de “God Save the Queen”

De qualquer forma, quando a rainha Elizabeth II comemorou o Jubileu de Ouro, em 2002, “God Save the Queen” foi relançada pelos gestores da obra dos Sex Pistols (a banda acabou em 1978). Na ocasião, alcançou o 20º lugar nas paradas do Reino Unido.

A piada perdeu um pouco de sua graça em 2012, na época do Jubileu de Diamante: a faixa chegou a uma modesta 80ª posição no ranking local. Apesar de uma campanha dos fãs para fazer o single atingir a primeira colocação, John Lydon, já mais velho e (não tão) maduro, repudiou a iniciativa do relançamento em nota divulgada pela BBC.

“Gostaria de me distanciar fortemente das histórias recentes e da campanha para colocar ‘God Save the Queen’ no primeiro lugar. Essa campanha prejudica totalmente o que os Sex Pistols significavam. Certamente não é meu plano ou objetivo pessoal.

Tenho e sempre terei orgulho do que conquistamos, mas essa campanha prejudica totalmente o que os Sex Pistols significavam. Essa campanha não é minha. Fico feliz que as gravações estejam saindo para uma nova geração, contudo, não desejo fazer parte do circo que está sendo construído em torno disso.”

* Texto redigido por André Luiz Fernandes com pauta e edição de Igor Miranda.

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André Luiz Fernandes
André Luiz Fernandes
André Luiz Fernandes é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Interessado em música desde a infância, teve um blog sobre discos de hard rock/metal antes da graduação e é considerado o melhor baixista do prédio onde mora. Tem passagens por Ei Nerd e Estadão.

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