Foto: Ron Pownall

Boston: como um mestre em engenharia fez o 2° álbum de estreia mais vendido da história

Tom Scholz, guitarrista e mestre em engenharia pelo MIT, estava acostumado a gravar em seu home studio desde os primórdios – e não abriria mão disso

O mundo do rock é feito, entre outras coisas, de histórias inusitadas e surpresas. O álbum de estreia do Boston, homônimo, certamente é um desses casos.

Lançado em 25 de agosto de 1976, o trabalho em questão, que apresentou ao mundo hits como “More Than a Feeling” e “Peace of Mind“, é produto do esforço e da insistência de um mestre em engenharia com seu estúdio caseiro. Como resultado, é, até hoje, o segundo disco de estreia mais vendido da história – perdeu o primeiro lugar após o também gigantesco “Appetite for Destruction” (1987), do Guns N’ Roses.

O mestre em engenharia citado no parágrafo anterior é o guitarrista Tom Scholz, formado pelo Massachussetts Institute of Technology (MIT), uma das instituições de ensino mais respeitadas dos Estados Unidos. O músico, que já estava com 29 anos em 1976, trabalhava na empresa de máquinas fotográficas Polaroid. Em seu tempo livre, construiu um estúdio no porão de casa, onde gravava demos.

Em entrevista à Guitar World, ele reconhece:

“Eu era basicamente um nerd que ‘devorava’ os livros e gostava de construir coisas e fazer todas as coisas que você não deveria fazer para ser popular. Mas de alguma forma acabei no palco, tocando guitarra na frente de todo mundo.”

O grande parceiro musical de Scholz, já nessa época, era o vocalista e guitarrista Brad Delp. Juntos com alguns outros músicos, já no final dos anos 60 e início dos anos 70, eles formavam uma banda chamada Mother’s Milk, que seria embrião do Boston e já trazia as ideias que seriam desenvolvidas no projeto seguinte.

Delp e Scholz idealizavam uma “banda perfeita”, na visão deles. Algo simples, mas de difícil execução: um rock de peso, mas com guitarras melódicas, vocais limpos e cristalinos e certa influência de música clássica.

As demos do Mother’s Milk

Dividindo o tempo entre o trabalho e o estúdio caseiro – que, àquela altura, era nada mais do que um hobby -, Tom Scholz começou a produzir demos do Mother’s Milk.

O material era enviado para todas as gravadoras possíveis. Todas elas recusaram trabalhar com a banda – com destaque à Epic Records, que respondeu com uma carta rude, onde o presidente da empresa, Lennie Petze, dizia que a banda não oferecia nada de novo.

Entre idas e vindas, Scholz continuou produzindo demos. Ele chegou a pedir que Brad Delp, já fora da banda, retornasse para gravar mais algumas músicas.

O guitarrista entregou o material a um colega de trabalho na Polaroid, que tinha um parente trabalhando na ABC Records. Demorou, mas as músicas chegaram nas mãos de executivos, que recomendaram a banda aos interessados.

Como uma história típica de filme, as demos voltaram a circular na Epic Records – aqueles mesmos, que haviam rejeitado a banda de forma dura. Agora com uma recomendação (o famoso QI), o grupo finalmente recebeu uma proposta da empresa.

Havia, porém, uma condição: eles deveriam fazer um show privado para executivos da CBS (proprietária da Epic) para provar que aquele trabalho não era apenas o resultado de “um cara sozinho em um estúdio”.

O show foi feito, ainda com uma formação diferente da que gravou o disco de estreia, em um galpão na cidade de Boston que servia como sala de ensaios para o Aerosmith na época. Um mês depois, o Mother’s Milk – que seria renomeado Boston, por sugestão do produtor John Boylan – assinava seu primeiro contrato com uma gravadora.

Missão Impossível: produzir o álbum

Os anos de home studio de Tom Scholz estavam começando a dar seus primeiros frutos. Porém, a forma de trabalho do músico se tornaria o primeiro grande empecilho enfrentado pelo Boston, prestes a começar a gravar seu álbum de estreia.

O já mencionado John Boylan era um aliado, mas não seria ele inicialmente o produtor do disco.

A Epic tinha um contrato com a Nabet, uma organização que funcionava como uma espécie de sindicato dos trabalhadores do audiovisual na época. O acordo faria com que a banda tivesse que gravar em Los Angeles, sob produção do veterano Eddie Kramer.

Scholz, que não gosta de trabalhar no estúdio dos outros, não gostou da ideia. Kramer, por sua vez, ouviu o material e achou que não poderia fazer nada para melhorá-lo, pois já estava bom o suficiente. O produtor acabou aceitando outro convite, para produzir o Kiss, no álbum ao vivo “Alive!” (1975).

A gravadora concordou que o disco deveria soar exatamente como as demos, mas desejava que tudo fosse gravado novamente. Tom Scholz, então, reforçou que não poderia fazer isso fora de sua casa.

Começou, aí, uma verdadeira operação de guerra para que a banda pudesse trabalhar da forma que queria, sem a interferência da CBS, com John Boylan sendo o responsável pelo “meio de campo”.

Scholz tirou um tempo de licença de seu trabalho na Polaroid e se dedicou integralmente a produzir o álbum, da forma como estava nas demos, em seu estúdio do porão. Enquanto isso, Boylan e o resto da banda – completa por Delp no vocal, Sib Hashian na bateria, Barry Goudreau na guitarra e Fran Sheehan no baixo – viajaram até a Califórnia, onde gravaram a música “Let Me Take You Home Tonight”, o que serviu como uma espécie de distração.

Além da faixa mencionada, os vocais de Brad Delp em todo o disco também foram gravados na Califórnia. Tirando isso, o material inteiro foi produzido no porão de Tom Scholz.

O guitarrista refletiu, à Guitar World:

“Eu trabalhava sozinho e pronto. Já fazia isso há anos. Não poderia trabalhar em um estúdio com pessoas circulando e algum engenheiro que eu tinha que esperar para rebobinar a fita. […] Foi um pouco chato, porque eu estava reproduzindo exatamente as mesmas partes que tinha tocado na demo.”

Para conseguir tal resultado, a banda precisou alugar um caminhão para colocar o equipamento de estúdio, com fios passando pelas janelas do cômodo, transferindo todo o material para as fitas master. Tudo isso sem que a gravadora soubesse.

Em entrevista à Goldmine, o saudoso Brad Delp, que nos deixou em 2007, comentou:

“Na verdade, não contamos a eles sobre como estávamos fazendo. O que os olhos não veem, o coração não sente. Dissemos que estávamos trabalhando no álbum com Boylan. Isso era tudo verdade – Tom ainda tinha coisas para fazer de volta para casa.

Muitas bandas eram contratadas e colocadas com um produtor e, de repente, virava o projeto do produtor. Antes que você perceba, não se parece com nada do que você estava fazendo. Tivemos a sorte de isso não aconteceu conosco. Boylan confiou que Tom conhecia bem um estúdio. Demos a eles uma fita completa, e eles pensaram: ‘uau, esses caras trabalham rápido’.”

Sucesso da missão

No fim das contas, a verdadeira operação de guerra montada pelo Boston para gravar seu disco de estreia foi muito bem-sucedida. O trabalho, também chamado “Boston”, conquistou disco de ouro nos Estados Unidos em apenas 3 semanas, ao ter 500 mil cópias vendidas. Bateu o primeiro milhão em apenas 3 meses, recebendo a certificação de platina.

As músicas “More Than a Feeling”, “Long Time” e “Peace of Mind” foram divulgadas como singles. Sábias escolhas, já que todas elas entraram no top 40 dos Estados Unidos.

Estima-se que, hoje, o álbum “Boston” tenha mais de 25 milhões de cópias vendidas no mundo inteiro. Desse número, 17 milhões foram somente nos Estados Unidos.

O álbum é considerado um dos mais importantes do hard rock dos anos 70, sendo influência para inúmeras bandas que vieram depois. Foi um dos grandes responsáveis por introduzir uma sonoridade mais melódica ao rock pesado e, certamente, um dos pioneiros do chamado AOR.

A única conquista que esse trabalho não obteve, por ser uma estreia, foi o primeiro lugar das paradas americanas. Felizmente, o disco seguinte, “Don’t Look Back” (1978), resolveu o problema e atingiu a gloriosa posição nos charts – ainda que a banda nunca mais tenha repetido o sucesso estrondoso do debut.

* Texto desenvolvido em parceria por André Luiz Fernandes e Igor Miranda. Pauta, argumentação base, redação complementar e edição geral por Igor Miranda; redação, argumentação complementar e apuração adicional por André Luiz Fernandes.

1 comentário
  1. Embora não seja uma matéria nova, para mim, o é, já que vim parar aqui meio que por acaso. Sou como um “viciado” nas músicas do Boston, por isso cheguei aqui. A matéria é ótima.
    Keep It up!!!

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