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Luto exorcizado: os 25 anos do álbum de estreia do Foo Fighters


Foo Fighters – ‘Foo Fighters’
Lançado em 4 de julho de 1995

Sim, é um pouco mórbido reconhecer isso, mas o Foo Fighters não existiria da forma que o conhecemos sem a morte de Kurt Cobain. O líder do Nirvana cometeu suicídio em 5 de abril de 1994, o que deu fim à banda que ele comandava e que contava com o baterista Dave Grohl desde 1990.

Grohl, aliás, era figurinha carimbada da cena underground. Envolveu-se com diversas bandas na adolescência até se juntar ao Scream, com 17 anos, em 1986. Por isso, Kurt Cobain não viu problema em chamar um músico que nem sequer vinha de Seattle, a cinzenta cidade americana onde nasceu o grunge.

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O baterista era o ingrediente que faltava para o Nirvana explodir, em 1991, com ‘Nevermind’. Embora estivesse muito empolgado, Dave Grohl admite que sentia medo de ser demitido da banda em algum momento, já que era o quinto integrante a sentar no banquinho da bateria deles. Talvez por isso, nunca deixou de compor músicas que jamais foram sugeridas a Kurt Cobain, compositor incontestável do grupo.

Cobain faleceu menos de um ano após o lançamento de ‘In Utero’ (1993), segundo álbum com Grohl. O choque foi enorme, já que os dois, claro, se tornaram grandes amigos naqueles tempos de Nirvana. Não à toa, Dave entrou em um estado de depressão e não conseguia tocar nenhum instrumento ou mesmo ouvir música.

“Quando Kurt morreu, não havia forma certa ou errada de luto. Eram curvas engraçadas. Você ficava paralisado, daí se lembrava das coisas boas, depois se lembra de situações sombrias. Fiquei afastado da música por um tempo, nem ligava o rádio. Depois, percebi que a música era a única coisa que me fazia bem e me ajudaria nisso”, afirmou, em entrevista à ‘Rolling Stone’, em 2019.

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Por ser um baterista competente, Dave Grohl foi chamado para entrar em outras bandas após o fim do Nirvana. Entre elas, estavam Pearl Jam, Danzig e Tom Petty and the Heartbreakers. Recusou todos os convites, apesar de, não muito tempo depois, ter topado gravar uma edição do ‘Saturday Night Live’, programa de TV, com Petty e os Heartbreakers. “Tocar simplesmente me lembrava de estar no Nirvana. Sempre que eu sentava em um set de bateria, pensava naquilo”, declarou, em 2005, à ‘Classic Rock’.

Levou algum tempo, mas Grohl entendeu que sua depressão só acabaria pela música. “Eventualmente, saí do sofá e pensei: ‘ok, eu sempre amei tocar, compor e gravar’. Era o que eu precisava fazer”, destacou, neste ano, à ‘Variety’.

Dave Grohl sai do sofá

Já no segundo semestre de 1994, Dave Grohl tomou a iniciativa de fazer alguma coisa. Ele já sabia que não queria se envolver com outra grande banda – até por isso, recusou os convites anteriores.

“Em vez de sair em uma turnê abrindo para uma grande banda em arenas, pensei em fazer do jeito que todo mundo começa. Inicialmente, excursionar de van, como todos começam. Eu sabia que seria detonado e que haveria comparação com o Nirvana. Era duro, mas não era tão difícil assim. Se alguém falasse bobagem, era só dizer: ‘vá se f*der, filho da p*ta’”, afirmou, a um podcast da Apple.

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Antes de trabalhar no álbum que se tornaria a estreia do Foo Fighters, ele tocou com a Backbeat Band no MTV Movie Awards de 1994, no mês de junho. Em seguida, o baterista foi convidado para tocar em ‘Ball-Hog or Tugboat?’ (1995), álbum de Mike Watt. Topou, gravou, curtiu e decretou: a música seria sua terapia, especialmente as próprias composições.

“O primeiro álbum do Foo Fighters não deveria ter sido um álbum. Foi uma espécie de experiência – ou quase um exorcismo. Foi como se eu não tivesse feito nada após a morte de Kurt e, enfim, fui fazer algo, gravar alguma coisa. Reservei seis dias no estúdio, o que foi uma eternidade para mim, e concluí 14 músicas tocando todos os instrumentos”, afirmou em uma entrevista.

Esses seis dias citados por Dave Grohl foram agendados no Robert Lang Studios, bem perto de sua casa em Seattle, onde trabalhou com o produtor Barrett Jones. Os dois eram amigos de adolescência e Jones já havia gravado Grohl na demo ‘Pocketwatch’, em 1992, além da banda de juventude do então ex-Nirvana, Freak Baby, na década de 1980.

“Após a morte de Kurt, Dave saiu de cena por alguns meses. Quando ele estava pronto para voltar, ele me ligou, marcou e fizemos tudo aquilo em menos de uma semana”, relembrou Barrett Jones, à ‘Variety’.

O álbum

Gravado entre 14 e 20 de 1994, o álbum de estreia do Foo Fighters, também intitulado ‘Foo Fighters’, traz Dave Grohl em todos os instrumentos: guitarra, baixo e bateria, além dos vocais. Há apenas uma participação, do guitarrista Greg Dulli (The Afghan Whigs), na faixa ‘X-Static’ – ele, que se apresentou com Grohl naquele show da Backbeat Band no evento da MTV, estava assistindo ao trabalho no estúdio quando foi convidado a tocar.

Grohl e Barrett Jones chegavam cedo ao estúdio, mas começavam a trabalhar apenas à tarde. A rotina era acelerada: quatro faixas eram gravadas por dia, até chegar às 12 finais. Dave relembra que ainda estava suando e tremendo por ter gravado a bateria e já corria direto para outra sala, onde fazia a guitarra. Depois, trabalhava no baixo, tomava um café e seguia para a próxima. Levava, em média, 45 minutos para gravar todo o instrumental de cada música, sempre em apenas um take – com exceção de ‘I’ll Stick Around’, que exigiu uma regravação. Os vocais foram feitos por último, também numa tacada só.

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“Dave leva jeito. Ele raramente comete erros ao tocar e tem uma noção de tempo perfeita, além de saber exatamente como o resultado final vai ficar. Não havia tempo para inventar moda. Se trouxesse alguém de fora, levaria muito tempo para explicar”, relembra Barrett Jones, à ‘Variety’.

Apesar disso, Grohl não escondia sua insegurança por ter que cantar. Até por isso, músicas como ‘Floaty’ tiveram várias camadas de vocais – nesta, em especial, são quatro.

Como não havia tempo a perder, a maioria do repertório já estava composto antes mesmo da morte de Kurt Cobain, pois Dave vivia gravando demos em casa. As únicas quatro canções criadas após a morte de Cobain foram ‘This Is a Call’, ‘I’ll Stick Around’, ‘X-Static’ e ‘Wattershed’.

Na maior parte dos casos, mesmo aquelas que estavam prontas não tinham letra, então, os versos eram compostos 20 minutos antes da gravação. Por isso, há algumas canções com frases ou até estrofes que não fazem muito sentido.

Outras já estavam mais encorpadas, como ‘Alone + Easy Target’, que chegou a ser apresentada a Kurt Cobain nos tempos de Nirvana, conforme Dave Grohl revela na série documental ‘Sonic Highways’. A reação de Cobain foi inesperada. “Ele parecia bem animado, disse que soube que gravei algumas coisas com Barrett Jones. Eu confirmei e ele pediu para ouvir. Fiquei com medo de estar perto dele enquanto ouvia. Kurt ouviu e me deu um beijo no rosto, enquanto estava no banho”, contou Grohl.

Além de ‘Alone + Easy Target’, destacam-se no repertório as quatro músicas lançadas como singles: ‘This Is a Call’, a feroz canção selecionada como a primeira a divulgar o álbum; ‘I’ll Stick Around’, que, com sua pegada alternativa, foi a primeira a ganhar clipe; a romântica ‘Big Me’, com seu clipe que faz uma paródia dos tradicionais comerciais televisivos da Mentos; e ‘For All The Cows’, que mostra a doce voz de Grohl em meio a uma pegada quase ambiente. Vale mencionar, ainda, a punk ‘Good Grief’, com seu refrão que repete “hate it” diversas vezes.

O discreto lançamento

Inspirado por Stewart Copeland (The Police), que lançou um grupo, Klark Kent, onde apenas ele tocava, Dave Grohl decidiu lançar o álbum de estreia do Foo Fighters como uma banda, mesmo sendo, até então, um projeto solo. A ideia era clara: ele não queria ser reconhecido.

O nome Foo Fighters saiu de uma descrição que pilotos da Segunda Guerra Mundial usavam para falar de diversos OVNIs. A capa, fotografada pela então esposa de Dave Grohl, Jennifer Youngblood, traz a pistola desintegradora XZ-38 de Buck Rogers, oriundo de quadrinhos de ficção científica. Houve quem considerasse a imagem da arma como sendo de mau gosto, pela forma como Kurt Cobain morreu, mas Grohl aponta que foi apenas uma coincidência.

Além disso, como o próprio diz, não havia intenção nem mesmo de divulgar esse trabalho como um disco propriamente dito, então, ele mandou fazer apenas 100 cópias em LP e outras 100 em fita K7. As tapes eram distribuídas para amigos e para qualquer pessoa que falasse sobre o Nirvana. Garotos chegavam dizendo a ele que o Nirvana era a favorita deles e ganhavam a fita.

“Pensei em chamar de Foo Fighters, por ser plural. Soa tão estúpido. Achei que as pessoas pensariam: ‘The Foo Fighters? Quem são eles?’. Fiz uma centena de fitas K7 e entreguei a um grupo de pessoas. Daí, as gravadoras começaram a ligar, dizendo que queriam lançar o álbum. E eu pensava: ‘Aquela fita? Isso nem é um álbum’”, conta.

É claro que o plano de Dave Grohl era bastante inocente. “Dave era muito bom em não se achar demais. Ele era muito humilde. Ele achava que seria uma demo que sairia dando para os amigos”, relembrou Barrett Jones, à ‘Variety’. “Eu sabia que aquelas músicas eram tão boas que mesmo que ele não fosse do Nirvana, as pessoas gostariam de ouvir. Mas o fato de ele ter feito parte do Nirvana, claro, garantiu esse interesse”, completou.

Em janeiro de 1995, o vocalista do Pearl Jam, Eddie Vedder, tocou duas músicas dessa demo, que se tornou o álbum, em seu programa de rádio. Começava, ali, a crescer o interesse pelo Foo Fighters, que se materializou em uma proposta da Capitol Records para lançar o álbum. Gary Gersh, presidente da gravadora, era amigo de Dave Grohl desde quando os dois trabalharam juntos na Geffen, com o Nirvana.

Temos uma banda – e uma turnê em vans

O Foo Fighters não apenas ganhou a cara de Dave Grohl como, também, era necessário ter outros integrantes para tocar as músicas em shows. O ex-colega de estrada no Nirvana, Pat Smear, foi chamado para a guitarra. Para a cozinha, dois antigos membros do Sunny Day Real Estate foram convocados: o baixista Nate Mendel e o baterista William Goldsmith.

Dos três, apenas Nate Mendel seguiu na formação desde 1995. Em circunstâncias diferentes, Pat Smear e William Goldsmith saíram em 1997. Smear, que acabou voltando em 2010 e ainda está com os caras, estava exausto pela rotina da banda, enquanto Goldsmith brigou com Dave Grohl após ele ter regravado todas as baterias do segundo álbum, ‘The Colour and the Shape’ (1997). Ainda nos dias de hoje, é, talvez, o único músico com coragem de criticar Grohl como pessoa nesse planeta.

Fato é que essa formação, que realizou seu primeiro show em 23 de fevereiro de 1995 em Arcata, na Califórnia, fez uma turnê à moda antiga, em vans, pelos Estados Unidos. Em boa parte dessas datas, tocou como atração de abertura de Mike Watt. Outra banda, o Hovercraft (com Eddie Vedder) também abria as apresentações. Watt chegava a ter Grohl e Vedder em sua banda na performance principal, respectivamente como baterista e guitarrista.

A tour poderia trazer o Foo Fighters recorrendo, inclusive, a um caminho bem fácil: tocar músicas do Nirvana para fazer o local ir abaixo. Todos esperavam por isso, aliás. Dave Grohl nadava contra a corrente e só tocava músicas da banda. Até hoje, ele não toca nada do Nirvana nos shows do Foo.

“Não tenho tocado essas canções do Nirvana mais do que apenas algumas vezes desde o fim da banda. De certa forma, estão fora dos limites. Houve algumas vezes, como no Rock and Roll Hall of Fame e um show de uns anos atrás. Parece que você está de volta com seus amigos na banda, mas algo está faltando. Gravamos uma música com Paul (McCartney) uma vez: eu, Pat Smear e Krist Novoselic (baixista do Nirvana). Foi uma viagem. Simplesmente encaixa, é muito fácil. Algumas batidas e parece o Nirvana quando Krist e eu tocamos juntos. Ninguém mais faz aquele som. Toco com eles e é um sonho. Daí, eu percebo: ‘oh, espere, Paul está aqui também’”, explicou Grohl, à ‘Rolling Stone’.

O segundo mais vendido do Foo Fighters

Pelo menos nos Estados Unidos, o álbum de estreia do Foo Fighters é o segundo mais vendido da discografia da banda, atrás apenas de ‘The Colour and the Shape’ (1997). Demorou um pouco para engrenar na comercialização, mas cresceu com o tempo.

Na primeira semana, foram vendidas 40 mil cópias nos Estados Unidos. Esse número se multiplicou para 900 mil após 5 meses – apenas no país, já que, mundialmente, passava de 2 milhões de cópias. Hoje, acumula mais de 1,5 milhão de unidades comercializadas na terra do Tio Sam.

Em outros países, também fez sucesso: ganhou disco de ouro na Austrália e no Reino Unido (onde vendeu mais de 350 mil cópias até hoje), além de platina no Canadá.

Nenhum single chegou a emplacar de verdade, mas os clipes na MTV e a extensa turnê de divulgação podem ter ajudado a promover o álbum. O Foo Fighters ainda ganharia status de superestrelas com ‘The Colour and the Shape’ com seus vários hits, mas isso é outra história.

Os números ajudam a mostrar, mas não custa reforçar: o exorcismo de Dave Grohl após atravessar um dos períodos mais difíceis de sua vida gerou não apenas um álbum de estreia autêntico e interessante, como provocou o nascimento de uma das bandas de maior sucesso dos últimos anos. O Foo Fighters não é, exatamente, fruto de uma tragédia – é a melhor resposta que poderia ser dada a ela.

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Igor Miranda
Jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital pela Universidade Estácio de Sá. Apaixonado por rock desde a pré-adolescência, começou a escrever sobre música na internet em 2007. Anos depois, co-fundou o site Van do Halen e trabalhou como repórter do jornal Correio de Uberlândia. Atualmente, é redator-chefe da Petaxxon Comunicação, que gerencia sites como o Cifras, Ei Nerd e outros. Também é redator do Whiplash.Net, o maior site de rock e heavy metal do Brasil.
http://igormiranda.com.br

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