Pequeno grande Tyketto: passado, presente e futuro em entrevista com Danny Vaughn

Quantas reencarnações pode ter uma banda de hard rock considerada “pequena” para os altos padrões da indústria musical? No caso do Tyketto, a resposta pode ser: “algumas”  – desde que se tenha a qualidade dos grandes nomes, como é o caso desse grupo, um dos meus favoritos há, pelo menos, uma década.

Formado por Danny Vaughn após sua saída do Waysted, de Pete Way (ex-UFO), ainda nos anos 1980, o Tyketto emergiu no início da década seguinte, com o disco “Don’t Come Easy” (1991), um clássico cult do chamado “hard rock melódico”. A banda perdeu seu baixista, Jimi Kennedy, antes de gravar “Strength In Numbers” (1994) e após o álbum ter sido lançado, foi Vaughn quem abandonou o barco. Foi substituído por Steve Augeri, com quem foi concebido “Shine” (1995). Em 1996, as atividades foram encerradas. Rolaram reuniões em 2004 (temporária) e 2007 (permanente), com a formação original, e um álbum – “Dig In Deep”, de 2012 – foi divulgado, mas Kennedy e o guitarrista Brooke St. James saíram em 2014.

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Com tantas mudanças na formação, o ímpeto de Danny Vaughn e o baterista Michael Clayton poderia ter se perdido em algum momento. Felizmente, não foi o que aconteceu: o Tyketto se reformulou com Chris Green na guitarra, Chris Childs (Thunder) no baixo e Ged Rylands nos teclados, com quem já lançaram o disco “Reach” (2016) e o ao vivo “Live From Milan” (2017), que saiu em CD e DVD pela Frontiers Music Srl. E, ao que tudo indica, é só o começo: em entrevista exclusiva, o simpático e solícito Vaughn falou sobre as glórias do passado, a estabilidade do presente e os planos futuros da banda.

“Live From Milan”, lançamento mais recente, chegou a público em outubro de 2017, após ter sido gravado durante um show no Frontiers Music Festival em Milão, Itália, no dia 29 de abril do mesmo ano. Na ocasião, a banda tocou o disco “Don’t Come Easy” na íntegra – só que na ordem inversa, começando com “Sail Away” e terminando com “Forever Young” –, além das canções “Rescue Me”, “Dig In Deep” (esta, apenas no DVD) e Reach”. “Tocamos ao contrário porque se começássemos com ‘Forever Young’, todos iriam embora após isso”, explicou Vaughn, aos risos. “Antes do show em Milão, fizemos turnê pela Europa tocando o disco na íntegra. Os fãs realmente queriam que fizéssemos isso. Obviamente, é o álbum do Tyketto que eles mais gostam. Acho que eles realmente queriam o ‘Don’t Come Easy’ inteiro e tê-lo em DVD, pois já tocamos todas as músicas dele ao longo dos anos, mas nunca no mesmo show”, completou.

Segundo o vocalista, o feedback dos fãs com relação a “Live From Milan” tem sido bastante positivo. “Como todos, eu estava preocupado, porque nem sempre as coisas soam tão bem, mas mesmo com pequenos erros, não nos saímos mal”, disse Danny, que, no fim das contas, não é grande fã de discos ao vivo. “Gosto dos clássicos, do Thin Lizzy, UFO, mas não costumo ouvir muito. Seria diferente se fosse um show que eu tivesse presenciado. Além disso, quando se é de uma banda menor, sem grandes orçamentos, é diferente de quando o Aerosmith, por exemplo, resolve fazer um disco ao vivo e grava todos os shows da turnê para escolher as melhores cópias. Em uma banda a nossa, você grava uma vez e cruza os dedos”, revelou.

As performances de Chris Green, Chris Childs e Ged Rylands também chamam a atenção em “Live From Milan”, já que o material original não foi composto ou gravado por eles. “Sou amigo de Chris Green há  anos e quando o vi tocar pela primeira vez, pensei: ‘preciso ficar de olho nele’. Ele consegue tocar muito rápido, mas também tem bom senso para saber quando não fazer isso. Ged Rylands entrou um pouco antes. Estava na hora de acrescentar teclados a músicas como ‘Burning Down Inside’, que estão na gravação original, mas não nos shows. Tocamos juntos no Rage Of Angels e nas turnês solo e percebi que seria bom tê-lo no Tyketto, pois escolhemos bem com quem trabalhamos – não há dinheiro envolvido de fato, então, é bom que seja divertido. E, tecnicamente, temos dois baixistas agora: Chris Childs, que é um grande amigo com quem trabalhei em várias bandas e é o melhor baixista do Reino Unido, mas às vezes está ocupado com o Thunder, e Greg Smith, que já tocou com Ted Nugent, Ritchie Blackmore e Ted Poley”, afirmou.

Opinião sobre Steve Augeri, a voz do outro ao vivo

Antes de “Live From Milan”, o único disco ao vivo lançado oficialmente pelo Tyketto era “Take Out & Served Up Live”, de 1996. Além de conter demos de diferentes períodos da banda, o álbum contém 8 faixas gravadas ao vivo no período em que Steve Augeri era o vocalista. Durante o bate-papo, Danny Vaughn negou que tivesse sentido a necessidade de ter outro registro ao vivo só para que fosse o primeiro com ele nos vocais e fez elogios a Augeri – que, inclusive, foi recomendado pelo próprio Vaughn após ter saído da banda, em 1995.

“Steve e eu somos velhos amigos. Quando o Tyketto começou, ele tinha uma banda chamada Tall Stories e o primeiro disco deles, de 1991, é um dos melhores daquele estilo de todos os tempos. Gosto mais dele do que do meu próprio disco (risos). Quando falei com Michael que estava saindo, eu o recomendei. Disse que se fosse seguir com o Tyketto, era para chamar Steve Augeri, porque ele é incrível. O disco que eles gravaram, ‘Shine’… todos têm boas performances ali, mas acho que o erro é que tentaram soar diferente e, talvez, poderiam não chamar de Tyketto. Poderiam ter formado uma nova banda ou algo assim. Mas não se pode dizer essas coisas, pois não se sabe o que estavam passando naquela época”, disse Vaughn, que não só é fã das músicas “Jamie” e “High”, como também tocou “Let It Go” em alguns shows recentes do Tyketto.

“Não assista ao show por trás do celular”

Durante a gravação de “Live From Milan”, Danny Vaughn soltou uma declaração que chamou a atenção dos fãs: ele pediu para que as pessoas não assistissem ao show todo por trás da p*rra do celular. Assim como muitos outros artistas, Vaughn não gosta dessa postura de parte do público nas apresentações ao vivo.

“Não me importo das pessoas filmarem, mas se passamos muito tempo atrás das câmeras, não participamos tanto. Para um show de todo tipo, não só de rock, isso indica que você nunca vai se deixar ser levado pelo show. E, para mim, shows são eventos dos quais eu quero me lembrar. Quero me lembrar do que senti quando vi o Iron Maiden, Steve Miller, Stevie Wonder… e é engraçado, as pessoas que filmam esses shows todos assistem aos vídeos depois? Acho que não”, disse, com risos ao fim.

Por que Brooke e Jimi saíram

As saídas do guitarrista Brooke St. James e do baixista Jimi Kennedy pareceram um pouco repentinas para os fãs de Tyketto, já que a reunião da formação original seguia em curso e havia rendido um disco, “Dig In Deep” (2012). E o motivo para St. James e Kennedy terem deixado a banda foi um pouco mais simples do que pode parecer, segundo Danny Vaughn.

“Por razões esmelhantes, Brooke e Jimi apenas não queriam fazer isso mais. Algumas pessoas pensam: ‘como é possível alguém não querer ser um rockstar’, mas, sabe, eles têm família, filhos, trabalhos… você não pode deixar de lado. Se você está no Iron Maiden, a banda é tudo o que você faz, mas se você não está nesse nível, precisa ter outros trabalhos, então, é muito difícil encontrar tempo para turnês. Quando Brooke saiu, ele apenas disse: ‘caras, não está sendo divertido e não é culpa de vocês, sinto falta dos meus filhos’. Michael e eu somos loucos (risos), então, queremos continuar”, afirmou.

Para Danny Vaughn, foi um processo natural dar sequência ao Tyketto com Michael Clayton, já que o vocalista descreve o baterista como “seu melhor amigo”. “Somos como um casal de velhos: nós terminamos as falas um dos outros e sabemos como lidar um com o outro. Michael cuida dos negócios do Tyketto e eu cuido da parte criativa, mas não de forma exclusiva, às vezes trocamos os papéis também”, disse.

As memórias dos tempos de Waysted

O Waysted, formado por Pete Way após ele ter deixado o UFO, foi a primeira grande banda que Danny Vaughn fez parte. Ele entrou em 1985, no lugar de Fin Muir, e gravou o quarto disco do grupo, “Save Your Prayers” (1986). Já em 1987, Vaughn deixou de integrar a formação e partiu em direção ao Tyketto.

As lembranças que Vaughn tem da época do Waysted são boas o bastante para que o Tyketto toque, ocasionalmente, a música “Heaven Tonight” em seus shows. “Quando trabalhei com Pete Way, aprendi muito do que fazer no negócio da música, assim como o que não fazer. Ele é um personagem único, temos sorte de ainda tê-lo conosco. Para mim, claro, foi o primeiro passo e foi importante. Foi a minha primeira grande banda e uma das maiores turnês que fiz, pois abrimos para o Iron Maiden na Europa e na América do Norte, além do Status Quo. Foi quando aprendi a cantar diante de muitas pessoas”, disse.

Os planos futuros do Tyketto

O Tyketto deve trabalhar bastante no futuro próximo, já que há planos traçados e desejos pessoais de Danny Vaughn a serem executados. Um dos projetos já consolidados é o lançamento de um novo DVD ao vivo, mas em formato diferente de “Live From Milan”: as músicas serão tocadas em arranjos diferentes e com instrumentos de orquestra e três cantoras de apoio, além de convidados especiais. Os shows foram gravados nos últimos dias 23 e 24 de junho, em um pequeno teatro no País de Gales. “É o maior projeto que já tentamos fazer. Algumas músicas estarão diferentes, acho que as pessoas vão gostar. E, normalmente, bandas pequenas como nós não têm orçamento para fazer esse tipo de coisa, então, temos muita sorte”, afirmou Vaughn, que revelou, ainda, que a ideia é lançar a gravação em outubro deste ano.

O vocalista também contou que quer gravar um novo disco, já que ficou muito satisfeito com “Reach” – “muitos disseram que é o melhor desde ‘Don’t Come Easy’”, afirmou –, mas que pode ficar para 2019 ou 2020, já que os integrantes precisam se dedicar a outros projetos paralelamente. E, claro, Vaughn destacou que o Tyketto gostaria de voltar ao Brasil. O único show que a banda fez no país até hoje aconteceu em 2008, no festival Hard In Rio, no Rio de Janeiro. “Gostaria de fazer outro show, porque acho que aquele não foi nosso melhor show e acho que também deveríamos passar pelo menos por São Paulo”, afirmou.

E será que, em 2019, o Tyketto vai fazer shows comemorativos pelo 25° aniversário de lançamento de “Strength In Numbers”? “Não sei, talvez façamos”, respondeu Danny Vaughn, após relatar que muitas pessoas pediram por isso nas redes sociais da banda. “Sempre amei esse disco. Quando saiu, gostava mais dele do que de ‘Don’t Come Easy’, porque ‘Don’t Come Easy’ é a estreia perfeita, é aperfeiçoado, as músicas soam parecidas entre elas e estão amarradas. Em ‘Strength In Numbers’, tentamos fazer sons diferentes, fomos de ‘Inherit The Wind’, que é pesada, a ‘Why Do You Cry’, que é blues. Estávamos experimentando e sempre gostei disso”, disse.

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Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

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