Sepultura se despede em grande momento com show longo e especial

Banda encerra atividades — em decisão ainda difícil de se acreditar — enquanto vivencia um de seus auges no palco; quase 3 horas não bastaram para resumir seus 42 anos

Na quinta-feira (5), ao adquirir o copo no merchandising oficial do Sepultura no Cine Joia, algo não caiu bem para este repórter. Pode parecer besteira, mas ao ler “Último Show 7/Nov/2026” no souvenir, finalmente começava a cair a ficha de que o grande nome do heavy metal brasileiro podia estar, de fato, se despedindo dos palcos. É o princípio do luto.

A princípio, a despedida estava marcada para a Mercado Livre Arena Pacaembu, fechando um ciclo e aludindo ao histórico, mítico e incompleto show ocorrido na Praça Charles Miller em maio de 1991, em que um fã acabou morto. Na prática, a mudança para a Suhai Music Hall — espaço com capacidade para 9 mil pessoas, sensivelmente inferior à do estádio — esgotou os ingressos. O local recebeu a apresentação mais extensa da carreira do grupo: duas horas e quarenta e oito minutos incluindo intros e “outro”, com 30 músicas, 28 delas autorais (sendo uma incompleta) e dois covers – fora dois solos.

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Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Sacred Reich

Coube ao Sacred Reich, ausente do Brasil desde 2017, a, por vezes, ingrata missão de abrir os trabalhos. Os fãs heroicos que resistiram à chuva, conseguiram chegar cedo e, porventura, não entraram na vibe dos caras logo de imediato ao som das ótimas “Manifest Reality” e “The American Way” certamente se renderam a Phil Rind (voz e baixo) em sua primeira fala, ao discorrer sobre o fator de união gerado pelo poder da música e seu efeito de máquina do tempo.

Foto: Igor Miranda @igormirandasite

A conexão do grupo thrash fundado em Phoenix em 1985 com o Sepultura vem de longa data. Tocaram na mesma noite de estreia dos brasileiros em solo americano, em outubro de 1989 em Nova Iorque, junto ao Toxik e King Diamond. Phil também colaborou em “Inner Self”, do projeto “SepulQuarta” (2021). O baterista Eduardo Baldo (ex-Hibria) é brasileiro. Ele, Phil e os guitarristas Wiley Arnett e Joey Radziwill vieram ao palco uniformizados com camisetas do próprio Sepultura. Outros destaques foram “Independent”, que chegou a ter veiculação nos áureos tempos de MTV no Brasil, e a saideira “Surf Nicaragua”.

Setlist — Sacred Reich — 48 minutos (17h a 17h48):
Intro: Immigrant Song [Led Zeppelin]
01) Manifest Reality
02) The American Way
03) Salvation
04) One Nation
05) Love…Hate
06) Who’s to Blame
07) Independent
08) Death Squad
09) Surf Nicaragua
Outro: What a Wonderful World [Louis Armstrong]

Krisiun

O Krisiun nunca decepciona ao vivo. Do discurso afiado de Alex Camargo (voz e baixo) defendendo o metal nacional — em frases fortes como “doa a quem doer” e “não nos vendemos por m*rda” — à atitude demonstrada no palco, o efeito provocado é o despertar de representatividade. São gente como a gente.

Foto: Igor Miranda @igormirandasite

Não se engane pensando que o setlist foi curto por ter “apenas” oito músicas: as composições tão elaboradas quanto viscerais e ardidas ocuparam tempo similar aos 48 minutos da atração anterior. “Blood of Lions” foi o ponto alto, mas também foi possível apreciar petardos como “Kings of Killing”, “Hatred Inherit” e “Combustion Inferno”. Pelo tempo de estrada, é a banda mais adequada a erguer e carregar a tocha do metal extremo brasileiro por terras estrangeiras.

Setlist — Krisiun — 50 minutos (18h15 a 19h05):
01) Ravager
02) Kings of Killing
03) Scourge of the Enthroned
04) Necromanical
05) Combustion Inferno
06) Blood of Lions
07) Vicious Wrath
08) Hatred Inherit
Outro: Per Qualche Dollaro in Più [Ennio Morricone]

Metal Allegiance

Show de abertura mais descontraído da noite, o Metal Allegiance trouxe, em seu lineup itinerante, os seguintes músicos: Chuck Billy (Testament, voz), Troy Sanders (Mastodon, voz), Alex Skolnick (Testament, guitarra), Phil Demmel (Kerry King, ex-Vio-Lence / Machine Head, guitarra), Mark Menghi (baixo) e Mike Portnoy (Dream Theater, bateria).

Foto: Igor Miranda @igormirandasite

Foi interessante observar Troy livre do baixo, mas o uso do teleprompter pelos cantores mostrou-se abusivo. Chegou ao ponto de deixar Chuck às cegas em “Gift of Pain”, forçando Alex a temporariamente cantar alguns de seus versos. Profissionais competentes que são, eles não desapontaram. Ainda assim, imperou um quê de improviso. Talvez seja esse o espírito da proposta: meio “festa da firma”.

O repertório alternou material autoral com covers. Evidentemente o que a galera mais apreciou foram as releituras de: “Wrathchild” (Iron Maiden, com direito à introdução com “The Ides of March”); “More Than Meets the Eye” (do próprio Testament); “Creeping Death” (do Metallica, com Andreas Kisser entrando no palco para os gritos de apoio em “Die! Die! Die!”); e “Iron Fist” (do Motörhead e última do set). Belo entretenimento!

Setlist — Metal Allegiance — 56 minutos (19h30 a 20h26):
01) The Accuser
02) Let Darkness Fall
03) Can’t Kill the Devil
04) The Ides of March [Iron Maiden]
05) Wrathchild [Iron Maiden]
06) Gift of Pain
07) Black Horizon
08) Voodoo of the Godsend
09) More Than Meets the Eye [Testament]
10) Creeping Death [Metallica]
11) Iron Fist [Motörhead]
Outro: Jamie’s Cryin’ [Van Halen]

Sepultura

Em relação aos horários divulgados, o único atraso — e mesmo assim de somente cinco minutos —, foi justamente o do Sepultura. Ao término de “Arise”, a primeira do longo repertório, bateu um sabor agridoce de: “Então nunca mais vamos ouvi-la ao vivo?”. Ou você controlava tal sensação e aprendia a com ela conviver, ou seria arrastado por uma chateação in loco, ou se concentrava no alto nível de performance, escolhas de repertório, qualidade de som e iluminação.

O que poderia ser criticado? Um leve delay entre o que se via ao vivo e o que ocasionalmente se mostrava no telão e a inserção de dois solos, um de bateria e outro de guitarra, este seguido pelo simbólico “hasteamento” de uma linda Flying V branca numa tela enquanto Andreas a “pintava”. Excessos à parte, o momento “pintura ao vivo” eternizou o show a nível material e os solos ofereciam descanso aos companheiros. Agora, se alguém entendeu a razão de Paulo Jr tocar “Sepulnation” de boina vermelha, compartilhe o conhecimento conosco.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Algumas escolhas musicais serão eternamente obrigatórias. Não daria para deixar de tocar “Refuse/Resist”, “Territory” ou “Roots Bloody Roots”, todas guardadas para o fim. Do recente EP “The Cloud of Unknowing”, só “Sacred Books” foi preterida. Entre os resgates, “Altered State” e “We’ve Lost You” — que, confiando em dados do site Setlist.fm, não eram executadas desde 2013 e 2015.

“Itsári”, em versão um tanto alternativa, e “Reza” também não eram incluídas no repertório desde 1998 e 2005, mas o propósito delas era oposto. Na primeira, Andreas e Moyses Kolesne, do Krisiun, dividiram o palco fazendo-a no violão oferecendo calmaria. A segunda abriu as portas para João Gordo mandar tudo pelos os ares. O vocalista e amigo das antigas do Sepultura ainda teve a companhia de Jão, guitarrista e parceiro de Ratos de Porão, para versões explosivas de “Crucificados pelo Sistema” e “Beber Até Morrer”.

Houve mais participações especiais para todos os gostos:

  • Vindos do Chained Saint — descrito por Andreas como “um mini-Sepultura” —, o guitarrista Ethan Kahn e o vocalista Sean Sterling, ambos do jovem Chained Saint, ajudaram a revigorar “Propaganda”;
  • Do Eminence, grupo de Belo Horizonte que abriu shows do Sepultura e trouxe Kisser para participações, o guitarrista Alan Wallace fez “Dusted”.
  • Fechando trinca consecutiva, Yohan Kisser tocou uma linda guitarra de seu pai com adesivos do projeto De La Tierra em “Convicted in Life”;
  • Conforme citado, Moyses contribuiu em “Itsári” e permaneceu no palco para “Kaiowas”, também a contar com apoio de Dante Rozalini, guitar tech de Andreas, no violão. Quanto à parte percussiva na faixa instrumental de “Chaos A.D.” (1993), seria impossível dar os devidos créditos de identificação às dezenas de pessoas (incluindo crianças) que brotaram no palco — até Serginho Groisman deixou sua marca;
  • Parceiros mais intimamente ligados ao Sepultura também abrilhantaram a noite, a começar por Amilcar Christófaro em “Beneath the Remains”. O baterista já havia dado uma força ao grupo em cinco datas europeias, em julho de 2011, ao substituir Jean Dolabella devido a uma tendinite, e também em Ceilândia, em setembro de 2019, em decorrência do falecimento do pai de Eloy Casagrande.
  • João Gordo e Jão tiveram seus momentos já comentados;
  • De todos os convidados, o possivelmente mais aguardado era Jairo “Tormentor” Guedz, hoje à frente do The Troops of Doom e membro do Sepultura a gravar o EP “Bestival Desvastation” (1985) e “Morbid Visions” (1986). Ao todo, ele participou de “Biotech is Godzilla”, “Slave New World” e “Troops of Doom”, no momento mais poderoso a ter duas guitarras no show.

Dentre a extensa discografia do grupo, só não houve faixas de “Schizophrenia” (1987), “Roorback” (2003), “The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart” (2013) e “Machine Messiah” (2017). Quanto à dinâmica do setlist, supõe-se ter sido bem complicado montá-lo levando-se em conta as fases da banda, o que incluir e em qual parte, especialmente considerando-se o entra-e-sai testemunhado.

De cara, foram três de “Arise” (1991), saciando a fome de quem venera tempos antigos. Em seguida, um trio mais “atual” e todo da fase Derrick Green: “All Souls Rising”, a atemporal “Kairos” e “Means to an End”. Até aqui, sem convidados, que, referidos acima, entrariam em “Propaganda”, “Dusted” e “Convicted in Life”. Chegando à ótima “Attitude”, décima do set e batendo em uma hora de relógio, sabendo-se que seriam em torno de trinta no total, era fácil projetar o quão longa seria a festa.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

De “We’ve Lost You” a “Kaiowas”, com “Against”, “The Place”, “Itsári” no recheio, foi possível notar certa quebra de concentração da plateia. “Dead Embryonic Cells” e “Beneath the Remains” preencheram o vazio temporário de clássicos, até nova oscilação com “Breed Apart”, o solo de Andreas e “Sepulnation”. Porém, o que se viu da entrada de João Gordo até o final da noite foi um arregaço, exceção feita apenas à balada “Beyond the Dream”, posicionada no miolo entre a saída de Jairo e “Territory”.

Quanto às performances individuais, a saber:

  • Derrick mantém o vozeirão inabalável, segue esbanjando carisma e, se bobear, fala português numa super boa, apenas não fazendo questão de demonstrar;
  • Sempre em seu canto e questionado no início da carreira, Paulo é hoje um baixista super consistente de primeiro nível;
  • Greyson, aos 24 anos, poderia facilmente fixar residência no país, arranjar um CPF e por aqui ficar tocando com quem quisesse, seja lá que tipo de música for;
  • Andreas, rosto e alma do Sepultura nas últimas décadas, segue voando, seja tocando ou capitaneando o conjunto. E que não passe batido o “That’s all, Folks!”, icônico encerramento dos desenhos animados “Looney Tunes”, estampado em sua camiseta.
Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Como não poderia deixar de ser, em seu mini-discurso derradeiro, Kisser agradeceu a cada um dos ex-membros do Sepultura, incluindo os bateristas Jean Dolabella e Eloy Casagrande, sem deixar de mencionar os irmãos Max e Iggor — e também a mãe deles, Vania Cavalera, além de sua própria esposa, Patrícia, ambas falecidas.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Por ora, é aceitar e digerir o luto. Ainda é difícil de acreditar. No entanto, se, de fato, o Sepultura acabou, isso foi feito com cuidado, maestria e no auge.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Sepultura — ao vivo em São Paulo

  • Local: Suhai Music Hall
  • Data: 7 de novembro de 2026
  • Turnê: Celebrating Life Through Death
  • Produção: Live Nation

Repertório (2h48min — 21h05 a 23h53):

Intro 1: War Pigs [Black Sabbath]
Intro 2: Polícia [Titãs]
01) Arise
02) Altered State
03) Desperate Cry
04) All Souls Rising
05) Kairos
06) Means to an End
07) Propaganda (com Ethan Kahn e Sean Sterling, ambos do Chained Saint)
08) Dusted (com Alan Wallace, do Eminence)
09) Convicted in Life (com Yohan Kisser)
10) Attitude
11) We’ve Lost You
12) Against
13) The Place
14) Itsári Jam (com Moyses Kolesne, do Krisiun)
15) Kaiowas (com Moyses Kolesne e Dante Rozalini, guitar tech de Andreas)
16) Dead Embryonic Cells
17) Beneath the Remains (com Amilcar Christófaro, do Torture Squad)
18) Breed Apart
19) Solo + Pintura de Andreas Kisser
20) Sepulnation
21) Reza (com João Gordo)
22) Crucificados pelo Sistema [Ratos de Porão] (com João Gordo e Jão)
23) Beber Até Morrer [Ratos de Porão] (com João Gordo e Jão)
24) Biotech Is Godzilla (com Jairo Guedz)
25) Slave New World (com Jairo Guedz)
26) Troops of Doom (com Jairo Guedz)
27) Beyond the Dream
28) Territory
29) Refuse/Resist
Bis
30) Solo de Greyson Nekrutman
31) Ratamahatta (parcial) + Roots Bloody Roots
Outro: Easy Lover [Philip Bailey Feat. Phil Collins]

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

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