Opeth consolida público no Brasil com seu maior show solo em São Paulo

Mesmo com qualidade de som abaixo do esperado, banda sueca recebe forte resposta da plateia e confirma ascensão no país

Havia um certo tom de incredulidade nas intervenções sarcásticas de Mikael Åkerfeldt entre as músicas durante o quarto show do Opeth em São Paulo nos últimos quatro anos. A ocupação da pista do Espaço Unimed ficou pouco além da metade de sua capacidade, de cerca de oito mil pessoas. Ainda assim, o retorno à casa onde se apresentou em 2025, ao lado do Savatage, foi o maior público para o qual o grupo sueco tocou sozinho na cidade.

Foto: Rafael Andrade @mfrafael

Com seu habitual jeito satírico, o vocalista e guitarrista muitas vezes parecia introduzir o Opeth a um público que não o conhecia, mesmo diante das reações entusiasmadas durante e nos intervalos entre as músicas, que incluíram até a entrega de um disco de vinil de presente — “Matança do Porco” (1973), do Som Imaginário. “Miguelito”, como era ovacionado em suas intervenções enquanto afinava sua guitarra para a próxima faixa, fez sua média com os fãs. Ele falou do seu gosto pelo Sepultura e lembrou do baterista original brasileiro, Anders Nordin. Depois de contar uma história escatológica logo em sua primeira interação, o líder avisou: “Nós damos a impressão de uma banda sofisticada. Não somos”.

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Difícil acreditar nisso quando se assiste uma apresentação como a de sexta-feira (6) em São Paulo. A qualidade do som não colaborou, mas não impediu que a habitual desenvoltura técnica do quinteto ao unir viagens progressivas ao metal extremo deixasse seus fãs embasbacados.

De volta a São Paulo após o Monsters

A própria maneira como o Opeth encerrou o set resumiu a relação construída com São Paulo nesta sétima visita ao Brasil — a primeira após a exposição no festival Monsters of Rock, em 2025. Antes de “Deliverance”, que encerrou todos os shows no país, Mikael repetiu o que tem se tornado uma tradição: tocar os quase dois segundos de “You Suffer”, do Napalm Death. Na sexta-feira, foram três vezes. A novidade foi deixar para o público “cantar” a letra política, como ele frisou, na derradeira repetição.

Então veio novamente a longa faixa-título do álbum de 2002, que causou a mesma comoção de sempre, com os fãs acompanhando aos pulos os riffs mais cadenciados. Por outro lado, o som do bumbo e algumas frequências graves do baixo, com a equalização bastante irregular, tiraram muito do impacto de seu trecho climático.

Foto: Rafael Andrade @mfrafael

A consagração do último disco

A turnê atual encerrou o ciclo promocional de “The Last Will and Testament”, lançado ao final de 2024, e marcou também a primeira vez que o Opeth tocou em outra cidade brasileira — Curitiba, na véspera do show paulistano. Apesar disso, a escolha das músicas do disco não mudou em relação à passagem anterior no Espaço Unimed.

O público, por outro lado, demonstrou mais familiaridade com um material que, na visita anterior, ainda era novidade. Já cantava junto desde a introdução pré-gravada de “§1”, cuja linha de baixo de Martin Méndez — de chapéu, assim como Åkerfeldt — abriu o show diante de um som bastante irregular nos PAs.

Foto: Rafael Andrade @mfrafael

A produção foi mais ambiciosa, com um telão intercalado ao jogo de luzes ao fundo do palco, acompanhado por painéis menores presos ao chão. Mesmo assim, tudo foi usado de forma a acentuar a atmosfera do show, sem roubar a atenção da performance dos músicos.

A recepção acalorada se manteve em “§7”, no meio do set, com a voz de Ian Anderson reproduzida nos PAs e o técnico de bateria ajudando na percussão, e não diminuiu em “§3”, já na reta final das duas horas de apresentação. Ao longo da turnê, das demais faixas do álbum conceitual que retomou o uso de vocais guturais, apenas “A Story Never Told” — a única sem o parágrafo juridiquês no título — recebeu poucas chances nos repertórios. A reação no Espaço Unimed indicou que havia mais espaço para o trabalho.

Foto: Rafael Andrade @mfrafael

Força do passado contra som irregular

Diferentemente das demais, a segunda música da noite, “Hjärtat vet vad handen gör”, não manteve o nível de participação, apesar da resposta provocada pela introdução de teclado de Joakim Svalberg. A faixa de “In Cauda Venenum” (2020), com suas letras em sueco, dificultou que a plateia cantasse junto. A bateria pulsante do finlandês Waltteri Väyrynen não foi suficiente para manter aceso o público, que reclamou na pista comum do volume geral do som ao seu final.

Foto: Rafael Andrade @mfrafael

Foi, no entanto, o único momento em que a pista esteve alheia. Quando as luzes se apagaram e o repertório fez sua primeira incursão na fase clássica com “Godhead’s Lament”, de “Still Life” (1999), os fãs permaneceram entregues ao grupo até o final. Os duetos de guitarra entre Åkerfeldt e Fredrik Åkesson foram acompanhados em coro, reação que se repetiria na introspectiva “Windowpane”, de “Damnation” (2003), ainda que o som irregular tenha atrapalhado na criação da atmosfera intimista dela e de “The Devil’s Orchard”, de “Heritage” (2011).

A resposta chegou a ser mais visceral na fusão de contratempos e ritmos percussivos tribais na hipnótica “The Grand Conjuration”, de “Ghost Reveries” (2005). A intensidade aumentou para “Demon of the Fall”. A faixa mais antiga do repertório, de “My Arms, Your Hearse” (1998), foi recebida como ae fosse um hit, com cantos em uníssono e palmas acompanhando várias passagens.

Não seria diferente para “The Drapery Falls”. A única extraída de “Blackwater Park” (2001), lançamento mais importante de sua carreira, obteve reação efusiva desde a melodia inicial até seus épicos solos finais.

Foto: Rafael Andrade @mfrafael

Futuro nas mãos do “chefe Miguelito”

A escolha para o encerramento do set regular, no entanto, foi um momento revelador. “Hex Omega”, do disco “Watershed” (2008), não é das canções mais populares entre a “comunidade de fãs nerd” da banda, como explicou “Miguelito”, que fez pouco da reação morna quando anunciou o álbum do qual é parte.

Foto: Rafael Andrade @mfrafael

A alternância entre seções pesadas e melancólicas já apontava, em 2008, para a transição que o Opeth aprofundaria nos álbuns seguintes, abandonando os vocais guturais e os elementos mais extremos. No Espaço Unimed, acabou servindo como uma espécie de resumo da imprevisibilidade dos próximos passos do grupo.

A posterior volta ao bis com as repetições do cover jocoso de “You Suffer” e a inevitável “Deliverance”, porém, mostrou como Åkerfeldt sabe manter o público em suas mãos para o que der e vier. “Eu sou seu chefe”, brincou o sueco ao se despedir dos brasileiros. Impossível negar.

Foto: Rafael Andrade @mfrafael

Opeth — ao vivo em São Paulo

  • Local: Espaço Unimed
  • Data: 06 de novembro de 2026
  • Turnê: The Last Will and Testament
  • Produção: Mercury Concerts

Repertório:

  1. §1
  2. Hjärtat vet vad handen gör
  3. Godhead’s Lament
  4. §7
  5. The Devil’s Orchard
  6. Windowpane
  7. The Grand Conjuration
  8. Demon of the Fall
  9. §3
  10. The Drapery Falls
  11. Hex Omega

Bis:

  1. You Suffer (cover de Napalm Death)
  2. You Suffer (cover de Napalm Death)
  3. You Suffer (cover de Napalm Death, cantada pelo público)
  4. Deliverance
Foto: Rafael Andrade @mfrafael

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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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