Havia um certo tom de incredulidade nas intervenções sarcásticas de Mikael Åkerfeldt entre as músicas durante o quarto show do Opeth em São Paulo nos últimos quatro anos. A ocupação da pista do Espaço Unimed ficou pouco além da metade de sua capacidade, de cerca de oito mil pessoas. Ainda assim, o retorno à casa onde se apresentou em 2025, ao lado do Savatage, foi o maior público para o qual o grupo sueco tocou sozinho na cidade.

Com seu habitual jeito satírico, o vocalista e guitarrista muitas vezes parecia introduzir o Opeth a um público que não o conhecia, mesmo diante das reações entusiasmadas durante e nos intervalos entre as músicas, que incluíram até a entrega de um disco de vinil de presente — “Matança do Porco” (1973), do Som Imaginário. “Miguelito”, como era ovacionado em suas intervenções enquanto afinava sua guitarra para a próxima faixa, fez sua média com os fãs. Ele falou do seu gosto pelo Sepultura e lembrou do baterista original brasileiro, Anders Nordin. Depois de contar uma história escatológica logo em sua primeira interação, o líder avisou: “Nós damos a impressão de uma banda sofisticada. Não somos”.
Difícil acreditar nisso quando se assiste uma apresentação como a de sexta-feira (6) em São Paulo. A qualidade do som não colaborou, mas não impediu que a habitual desenvoltura técnica do quinteto ao unir viagens progressivas ao metal extremo deixasse seus fãs embasbacados.
De volta a São Paulo após o Monsters
A própria maneira como o Opeth encerrou o set resumiu a relação construída com São Paulo nesta sétima visita ao Brasil — a primeira após a exposição no festival Monsters of Rock, em 2025. Antes de “Deliverance”, que encerrou todos os shows no país, Mikael repetiu o que tem se tornado uma tradição: tocar os quase dois segundos de “You Suffer”, do Napalm Death. Na sexta-feira, foram três vezes. A novidade foi deixar para o público “cantar” a letra política, como ele frisou, na derradeira repetição.
Então veio novamente a longa faixa-título do álbum de 2002, que causou a mesma comoção de sempre, com os fãs acompanhando aos pulos os riffs mais cadenciados. Por outro lado, o som do bumbo e algumas frequências graves do baixo, com a equalização bastante irregular, tiraram muito do impacto de seu trecho climático.

A consagração do último disco
A turnê atual encerrou o ciclo promocional de “The Last Will and Testament”, lançado ao final de 2024, e marcou também a primeira vez que o Opeth tocou em outra cidade brasileira — Curitiba, na véspera do show paulistano. Apesar disso, a escolha das músicas do disco não mudou em relação à passagem anterior no Espaço Unimed.
O público, por outro lado, demonstrou mais familiaridade com um material que, na visita anterior, ainda era novidade. Já cantava junto desde a introdução pré-gravada de “§1”, cuja linha de baixo de Martin Méndez — de chapéu, assim como Åkerfeldt — abriu o show diante de um som bastante irregular nos PAs.

A produção foi mais ambiciosa, com um telão intercalado ao jogo de luzes ao fundo do palco, acompanhado por painéis menores presos ao chão. Mesmo assim, tudo foi usado de forma a acentuar a atmosfera do show, sem roubar a atenção da performance dos músicos.
A recepção acalorada se manteve em “§7”, no meio do set, com a voz de Ian Anderson reproduzida nos PAs e o técnico de bateria ajudando na percussão, e não diminuiu em “§3”, já na reta final das duas horas de apresentação. Ao longo da turnê, das demais faixas do álbum conceitual que retomou o uso de vocais guturais, apenas “A Story Never Told” — a única sem o parágrafo juridiquês no título — recebeu poucas chances nos repertórios. A reação no Espaço Unimed indicou que havia mais espaço para o trabalho.

Força do passado contra som irregular
Diferentemente das demais, a segunda música da noite, “Hjärtat vet vad handen gör”, não manteve o nível de participação, apesar da resposta provocada pela introdução de teclado de Joakim Svalberg. A faixa de “In Cauda Venenum” (2020), com suas letras em sueco, dificultou que a plateia cantasse junto. A bateria pulsante do finlandês Waltteri Väyrynen não foi suficiente para manter aceso o público, que reclamou na pista comum do volume geral do som ao seu final.

Foi, no entanto, o único momento em que a pista esteve alheia. Quando as luzes se apagaram e o repertório fez sua primeira incursão na fase clássica com “Godhead’s Lament”, de “Still Life” (1999), os fãs permaneceram entregues ao grupo até o final. Os duetos de guitarra entre Åkerfeldt e Fredrik Åkesson foram acompanhados em coro, reação que se repetiria na introspectiva “Windowpane”, de “Damnation” (2003), ainda que o som irregular tenha atrapalhado na criação da atmosfera intimista dela e de “The Devil’s Orchard”, de “Heritage” (2011).
A resposta chegou a ser mais visceral na fusão de contratempos e ritmos percussivos tribais na hipnótica “The Grand Conjuration”, de “Ghost Reveries” (2005). A intensidade aumentou para “Demon of the Fall”. A faixa mais antiga do repertório, de “My Arms, Your Hearse” (1998), foi recebida como ae fosse um hit, com cantos em uníssono e palmas acompanhando várias passagens.
Não seria diferente para “The Drapery Falls”. A única extraída de “Blackwater Park” (2001), lançamento mais importante de sua carreira, obteve reação efusiva desde a melodia inicial até seus épicos solos finais.

Futuro nas mãos do “chefe Miguelito”
A escolha para o encerramento do set regular, no entanto, foi um momento revelador. “Hex Omega”, do disco “Watershed” (2008), não é das canções mais populares entre a “comunidade de fãs nerd” da banda, como explicou “Miguelito”, que fez pouco da reação morna quando anunciou o álbum do qual é parte.

A alternância entre seções pesadas e melancólicas já apontava, em 2008, para a transição que o Opeth aprofundaria nos álbuns seguintes, abandonando os vocais guturais e os elementos mais extremos. No Espaço Unimed, acabou servindo como uma espécie de resumo da imprevisibilidade dos próximos passos do grupo.
A posterior volta ao bis com as repetições do cover jocoso de “You Suffer” e a inevitável “Deliverance”, porém, mostrou como Åkerfeldt sabe manter o público em suas mãos para o que der e vier. “Eu sou seu chefe”, brincou o sueco ao se despedir dos brasileiros. Impossível negar.

Opeth — ao vivo em São Paulo
- Local: Espaço Unimed
- Data: 06 de novembro de 2026
- Turnê: The Last Will and Testament
- Produção: Mercury Concerts
Repertório:
- §1
- Hjärtat vet vad handen gör
- Godhead’s Lament
- §7
- The Devil’s Orchard
- Windowpane
- The Grand Conjuration
- Demon of the Fall
- §3
- The Drapery Falls
- Hex Omega
Bis:
- You Suffer (cover de Napalm Death)
- You Suffer (cover de Napalm Death)
- You Suffer (cover de Napalm Death, cantada pelo público)
- Deliverance

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