Desde a volta dos eventos pós-pandemia, virou tradição: ao menos uma vez por ano, Edu Falaschi realiza um show especial no Tokio Marine Hall. O vocalista, notório por seu trabalho de mais de uma década com o Angra, costuma oferecer uma superprodução visual e reunir uma série de convidados, por vezes internacionais, para quem se dispõe a assisti-lo na casa de eventos localizada na zona sul de São Paulo, com capacidade para 4 mil pessoas.
Talvez por ter virado tradição — ou pela proposta do show ter sido um pouco diferente desta vez —, o público não tenha se engajado tanto para vê-lo na ocasião do último sábado (15), quando o cantor trouxe sua recém-iniciada turnê “Mi’raj & The Legacy”. Longe de estar vazio, mas o Tokio Marine Hall não estava tão lotado como nas outras ocasiões. Justo quando Falaschi fugiu do repertório de seus álbuns mais celebrados com o Angra para revisitar outras obras do catálogo — seja com o grupo que o tornou famoso ou com outros de sua carreira (Mitrium, Venus, Symbols e Almah) — e dar mais atenção aos recentes discos solo.

Quem esteve presente, assistiu a um show de três horas com nada menos que onze convidados, dois deles internacionais: a italiana Veronica Bordacchini e o croata Dino Jelusick, trazido especialmente para o compromisso em São Paulo. Todos os nomes estão listados no setlist, ao fim da página. Além disso, a banda ganhou o reforço de um percussionista, Marcus Cesar, especialmente para a ocasião. O setlist ultrapassou a marca de 25 músicas, com algumas canções que não estavam presentes nas outras datas da tour.

Primeira etapa morosa
Iniciado por volta das 21h10, o show teve uma primeira metade com altos e baixos em relação ao engajamento do público. Pudera: Falaschi e sua afiadíssima banda formada por Victor Franco e Diogo Mafra nas guitarras, Raphael Dafras no baixo, Fábio Laguna nos teclados e apoio vocal e Jean Gardinalli na bateria — além do citado Marcus Cesar — enfileiraram lados B de grupos anteriores do cantor e músicas de seu novo álbum, “Mi’raj”. Desta forma, a plateia teve reações mais contemplativas do que enérgicas ao longo das 14 primeiras canções.

Edu, vivendo uma boa noite a nível vocal e dispondo desta vez de um repertório que explora mais sua voz natural, levou a sério a ideia de celebrar os 35 anos de carreira ao revisitar até mesmo projetos mais obscuros, como Mitrium, representado pela “quase punk” “Eyes of Time”, e Venus, com a balada “Leaving the Light”, tocada junto do baixista original, Kao. De sua carreira pré-Angra, empolgou mais o resgate da pesada “Eyes in Flames”, do Symbols, com seu irmão, Tito Falaschi, no vocal e Demian Tiguez na guitarra.
Do Angra, nesta etapa, apenas “Running Alone” veio de um dos álbuns mais populares, “Rebirth” (2001). Falaschi e banda trouxeram duas canções de “Aurora Consurgens” (2006) — “Ego Painted Grey” e “The Voice Commanding You” — e três do criticado “Aqua” (2010): a balada “Lease of Life”, “A Monster in Her Eyes” e “Arising Thunder”. Exceção feita à última citada, faz sentido que sejam pouco tocadas ao vivo. Estão abaixo do material clássico do grupo e até da carreira solo recente de Edu.
A trilogia recente do cantor, curiosamente, foi a responsável por boa parte dos momentos interessantes da metade inaugural do set. A abertura “Watchers of the Light” trouxe uma sensação estranha de “freio de mão puxado”, mas agradaram a melodiosa “Echoes of Vows”, com trechinho de “Tears of the Dragon” (Bruce Dickinson) ao fim; a tipicamente power “The Ancestry”, trazendo arrasadora participação de Thiago Bianchi (Noturnall) nos vocais; a progressiva e ligeiramente jazz “Unchained”, talvez uma das melhores canções da carreira solo de Edu; e a dobradinha de tom épico “Land Ahoy” + “Eldorado”, com a colaboração de Fábio Caldeira.

Segunda parte fez compensar espera
Quem já sentia os pés cansados durante “The Voice Commanding You”, décima quarta música do setlist, deve ter se reenergizado com o início do rolê aleatório da noite: a entrada de Fernando Anitelli. Sozinho no palco, o vocalista d’O Teatro Mágico emendou o recital “Sintaxe à Vontade” e a canção “Da Luta” antes de celebrar a boa aceitação — “feliz em saber que muita gente do metal conhece O Teatro Mágico” — e participar de “Intuição”, primeira música de Falaschi em português em mais de duas décadas. Rafael Bittencourt, com quem reativou a amizade após anos de conflitos, também entrou para executar o solo que gravou na versão em estúdio. Talvez o primeiro momento de catarse coletiva na plateia.

Outro membro do Angra, o baixista Felipe Andreoli, subiu ao palco na sequência, mas para tocar “Birds of Prey”, pesada composição do Almah. Ao fim, Falaschi admitiu que nunca imaginaria a presença de Bittencourt e Andreoli em seu show de 35 anos de carreira. “Ficamos sem nos falar por um puta tempo. Maior babaquice essa coisa de ego”, reconheceu, definindo em seguida o show de reunião no Bangers Open Air 2026, em abril último, como uma “festa maravilhosa”.

A partir daí, o clima, enfim, pareceu de uma festa. “Bleeding Heart” ganhou seu tradicional trecho em português na versão do Calcinha Preta (“Agora Estou Sofrendo”) e, exceção feita a “Pegasus Fantasy”, todas as músicas seguintes tiveram participações especiais. Veronica Bordacchini, talvez a convidada mais aplaudida, entrou no meio de “Spread Your Fire” para assumir os vocais operísticos, executou “Ode to Art (de’ Sepolcri)”, de seu Fleshgod Apocalypse, e ficou para a intrincada “Mi’raj”. Dino Jelusick, dono de voz poderosa, dividiu o microfone com Falaschi em “Heroes of Sand” e nas versões para “Stand Up and Shout” (Dio) e “Here I Go Again” (Whitesnake). Rafael e Felipe retornaram para “Rebirth” e “Nova Era”, os dois números finais do repertório.
Até dava para ter distribuído os momentos mais catárticos pelas três horas de show em vez de concentrá-los em uma fatia da noite. Fora isso, não houve do que reclamar. A turnê segue neste domingo (16) para Curitiba e será retomada em novembro para mais quatro datas.

Edu Falaschi — ao vivo em São Paulo
- Local: Tokio Marine Hall
- Data: 15 de agosto de 2026
- Turnê: Mi’raj & The Legacy Tour
Repertório:
- Watchers of the Light
- Ego Painted Grey (Angra)
- Eyes in Flames (Symbols; com Tito Falaschi e Demian Tiguez)
- Echoes of Vows
- Running Alone (Angra)
- Eyes of Time (Mitrium)
- Lease of Life (Angra)
- The Ancestry (com Thiago Bianchi)
- Unchained (com Wagner Barbosa no sax)
- A Monster in Her Eyes (Angra)
- Living the Light (Venus; com Kalo)
- Arising Thunder (Angra)
- Land Ahoy / Eldorado (com Fabio Caldeira)
- The Voice Commanding You (Angra)
- Sintaxe à Vontade / Da Luta (O Teatro Mágico; Fernando Anitelli solo)
- Eternamente Azul (MAKE-UP / Os Cavaleiros do Zodíaco; Edu Falaschi solo)
- Intuição (com Fernando Anitelli, Rafael Bittencourt e Tiago Mineiro)
- Birds of Prey (Almah; com Felipe Andreoli)
- Bleeding Heart (Angra)
- Spread Your Fire (Angra; com Veronica Bordacchini)
- Ode to Art (de’ Sepolcri) (Fleshgod Apocalypse; Veronica Bordacchini solo)
- Mi’raj (com Veronica Bordacchini)
- Heroes of Sand (Angra; com Dino Jelusick)
- Stand Up and Shout (Dio; com Dino Jelusick)
- Here I Go Again (Whitesnake; com Dino Jelusick)
- Pegasus Fantasy (MAKE-UP / Os Cavaleiros do Zodíaco)
- Rebirth (Angra; com Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli)
- Nova Era (Angra; com Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli)

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