Foram nove longos anos desde a até então mais recente passagem do Korn por São Paulo, à época no ainda Espaço das Américas, em abril de 2017 promovendo “The Serenity of Suffering” (2016). De lá para cá, foram lançados os álbuns “The Nothing” (2019) e “Requiem” (2022). De uma casa com capacidade para 8 mil pessoas, a banda migrou para o Allianz Parque, na mesma cidade, apresentando-se para 50 mil pessoas — com ingressos esgotados — no último sábado (16).
A espera foi tamanha que, silenciosamente, fez sua base de fãs se expandir. Quem, por exemplo, era adolescente quando o álbum de estreia saiu em 1994 e embarcou numa viagem sem volta pelo universo do nu metal, hoje, suas próprias contas e tem condições de bancar ingressos. Também não foi raro ver representantes de um rejuvenescimento do público, sejam sozinhos ou acompanhados dos pais.

A estética
Além do som pesado, guiado por guitarras em afinações gravíssimas e uma forte dinâmica percussiva entre baixo e bateria, e de letras discorrendo sobre abusos ou dialogando com quem não se encaixa em padrões sociais formais, o retorno do Korn ao Brasil — em data única e com abertura de Spiritbox, Seven Hours After Violet e Black Pantera — contou com um espetáculo de imagens e luzes projetadas num telão central de definição perfeita, mais os dois laterais de praxe em shows de arenas, duas extensões em cada um dos cantos do palco e cinco plataformas elevadas e móveis que tanto funcionavam como iluminação em sua base quanto como continuação do que se via nos telões.
Por exemplo: antes de “Clown”, canção composta após um desentendimento em show com um skinhead que mandava o Korn “voltar para Bakersfield” (sua cidade natal na Califórnia), notava-se uma simulação de mata super densa que, para alguns, era cortada por raios de sol indo de tons amarelos a vermelhos; para outros, poderia aludir a um princípio de incêndio. Agora tente visualizar a cena, porém de fora a fora do palco, percorrida toda sua extensão.

O show
Com dois minutos de atraso em relação ao horário previamente divulgado de 21h30, surgiam as batidas e riffs iniciais de “Blind”. A expectativa só aumentava com o palco ainda coberto por um longo pano preto a despencar exatamente no marcante “Are you ready?”. Piração pura com tanta gente erguendo seus celulares e pulando ao mesmo tempo. Dava para sentir o chão tremer com o chacoalhar das proteções de plástico a evitar a destruição do gramado.
Ainda que curta, “Twist” cumpriu seu papel de deixar a energia no alto e “Here to Stay”, no embalo de versos sobre o autodesprezo de Davis, apenas realçou o aspecto visual com lindos feixes horizontais azuis projetados para cima. “Got the Life”, com seus questionamentos sobre a fama, soou matadora ao vivo como sempre, ainda que toda quebrada em seus tempos (seria essa a razão de seu sucesso?) e foi sucedida pela mencionada “Clown”.
O perrengue
A partir daí, tornou-se impossível dissociar a aproximada uma hora e dez minutos restantes da apresentação de Jonathan Davis (voz), James “Munky” Shaffer (guitarra), Brian “Head” Welch (guitarra), Roberto “Ra” Diaz (baixo; convidado) e Ray Luzier (bateria) do pé d’água que gradativamente foi se desenrolando a partir de “Did My Time”, a sexta do setlist, ainda em forma de uma leve garoa. Foi tudo tão súbito e num espaço apertado que não havia como as pessoas cogitarem pegar suas capas de chuva.

Quem estava seco e protegido nas cadeiras teve uma determinada percepção do show. Já para os fãs nas pistas, a história foi outra. Para quem permaneceu centralizado e em frente à grade da house mix, como este que vos escreve, o bicho pegou, pois o espaço ficou intransitável por vendedores de bebidas — em exercício de suas funções — e pessoas que tentavam forçar a barra empurrando. Só não escalou porque o público desse tipo de som é tranquilo, mas até bate-bocas ocorreram.
Frequentando shows desde o Hollywood Rock 1993, este repórter não via nada similar desde o Monsters of Rock 1995, em que intervalos e shows não se distinguiam em termos de esmagamento, com a frente da pista única, ainda sem o advento da premium, virar uma maçaroca só e blocos de pessoas indo umas contra as outras de acordo com a maré de empurrões.
Chuvas torrenciais também não eram novidade no currículo deste repórter, presente na histórica noite de estreia e do dilúvio dos Rolling Stones no Estádio do Pacaembu em 1995. Porém, a mescla entre chuva torrencial com confusão em potencial seria uma primeira vez. Pulando para o fim — e como verdadeira ironia de São Pedro —, não havia mais qualquer gota caindo do céu quando “Low Rider”, do War, foi disparada no sistema de som enquanto Korn quinteto concluía seus acenos de despedida.
De volta para o show
Mas e o show em si? Como sobreviver passou a ser a prioridade, observações detalhadas seriam inviáveis, mas vamos a algumas delas: estranha e sabidamente começando pelos snippets (trechos de outras músicas inseridos no repertório), por que não? Como se não bastasse o poder de uma gaita de fole no início de “Shoots and Ladders”, o “fragmento” de “One”, do Metallica, encerrando-a foi parrudo — em duração e pegada — assim como a versão executada originalmente em 2003 no “MTV Icon” do grupo homenageado.

O mesmo expediente foi adotado no papel juntando “A.D.I.D.A.S.”, já no bis, a “U Mean I’m Not”, do duo inglês de hip-hop Black Sheep. Já os trechos de “Let’s Go All the Way” (Sly Fox) em meio a “Coming Undone”, e de “It Takes Two” (Rob Base & DJ E-Z Rock) e de “La Di Da Di” (Slick Rick), ambos em “Ball Tongue”, sequer constavam na folha. E por falar nela, que tremenda bola de segurança — com o perdão do trocadilho.
Não há como o show ser ruim com um arsenal composto por pedradas diluídas ao longo da noite como: as mencionadas “Blind” e “Twist” de cara; “Here to Stay” e “Got the Life”, logo adiante; “Somebody Someone” antes da referida “Ball Tongue”; e “A.D.I.D.A.S.” e o hit “Freak on a Leash”, crítico à indústria musical, como as duas últimas de um bis com quatro faixas e puxado por “4U”, um reconhecimento sobre como os relatos dos problemas de Jonathan nas letras ajudaram os fãs, e “Falling Away from Me”.
E quanto às outras músicas? “Did My Time”, trilha do filme “Tomb Raider: A Origem da Vida”, despertou reações enérgicas, enquanto “Cold” e a nova “Reward the Scars” (usada em uma expansão do game “Diablo IV”) firmaram raros elos com o presente no setlist. Por sua vez, precedendo o bis, “Y’All Want a Single” teve até pedido de Jonathan Davis para que os fãs levantassem os dedos do meio e gritassem “f*ck that”, como na letra.
O cantor, diga-se, lamentou o hiato de nove anos sem show no Brasil e prometeu voltar mais rapidamente da próxima vez. Com um novo álbum em estágios finais de preparação — previsto para sair entre os meses derradeiros deste ano e o início de 2027 —, pode ser que realmente estejam por aqui de novo em breve, ainda como atração de estádio. Que, no fim das contas, retornem em uma noite seca.
Korn — ao vivo em São Paulo
- Local: Allianz Parque
- Data: 16 de maio de 2026
- Turnê: Latin America 2026
- Produção: 30e
Repertório:
- Blind
- Twist
- Here to Stay
- Got the Life
- Clown
- Did My Time
- Am I Going Crazy [intro] + Shoots and Ladders [trecho de “One”, do Metallica]
- Coming Undone [trecho de “Let’s Go All the Way”, de Sly Fox]
- Reward the Scars
- Cold
- Twisted Transistor
- Dirty
- Somebody Someone
- Ball Tongue [trechos de “It Takes Two”, de Rob Base & DJ E-Z Rock; e “La Di Da Di”, de Slick Rick]
- Y’All Want a Single
Bis: - 4U
- Falling Away From Me
- A.D.I.D.A.S. [trecho de “U Mean I’m Not”, de Black Sheep]
- Freak on a Leash
Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Bluesky | Twitter | TikTok | Facebook | YouTube | Threads.
