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Kadavar expande horizontes e reafirma peso setentista em São Paulo

Agora como quarteto, grupo alemão entrega performance hipnótica marcada por improvisos e adição de sintetizadores

Foi como entrar numa máquina do tempo. Exceto pelo telão ao fundo do palco exibindo fixo o logo do agora quarteto de Berlim, o Kadavar transportou o vibrante público do Carioca Club à década de 1970. Figurino de brechó, timbres distorcidos de guitarra, pancada na bateria e improvisos barulhentos estendendo canções dominaram o sistema de som da casa, com sua pista preenchida pela metade num fim de semana disputadíssimo de eventos na cidade de São Paulo.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Hammerhead Blues e Espectro

A noitada de sábado (21) começou ainda no fim de tarde, e quase ninguém tinha entrado no Carioca Club quando as cortinas foram abertas para o Hammerhead Blues. Pelo menos na estética, o trio paulistano pareceu totalmente adequado à atração principal. Sua sonoridade mais bluesy, como o nome da banda deu a indicar, trouxe a aura setentista para a casa.

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O entrosamento do vocalista e baixista Otavio Cintra e o baterista Willian Paiva — também músico de apoio de Lobão — servia como base para Luiz Cardim dominar a cena com riffs inspirados e solos de bom gosto. Se canções como “Traveller” e “Around the Sun” não reinventaram a roda, pelo menos serviram como um agradável aquecimento numa apresentação de menos de meia hora.

Alguns minutos depois, o Espectro destoou da indumentária da noite, mas trouxe o peso do doom metal para o Carioca Club, ainda esvaziado. O quinteto de Curitiba teve o centro gravitacional de seu repertório na épica “Wicked Life”, de quase dez minutos trazendo riffs tensos de João Wegher e solos trocados entre ele e Luan Bremer, antes do final arrastado com a seção rítmica formada por Karina D’Alessandre, na bateria, e Felipe Rippervert, no baixo, puxando o freio de mão.

Antes, Reinaldo Vuicik abusou dos maneirismos à la Glenn Danzig na curta e funcional “Death Dealing”. Depois, o vocalista anunciou uma dupla final de faixas iniciada por “Lost in the Aether”, mas a apresentação de pouco além de trinta minutos foi encerrada de forma abrupta sem seu prometido par.

Toda essa pressa teve um motivo: horas antes das portas do Carioca Club abrirem, a produtora do show antecipou em quinze minutos o horário do início do show do Kadavar. Foi anunciado um set maior do grupo majoritariamente alemão. A julgar pelas canções executadas em São Paulo em comparação aos anotados no Setlist.fm das noites anteriores na América Latina, só se tiverem sido mais longas as várias barulhentas improvisações, muito mais atmosféricas do que exibicionistas, durante a hora e meia em cima do palco paulistano.

Kadavar

Começando cinco minutos após o novo horário prometido, dez minutos antes das 20h inicialmente divulgadas, as cortinas do Carioca Club se abriram e o Kadavar iniciou sua terceira visita ao Brasil ajustando o próprio groove por alguns minutos. “Goddess of Dawn” abriu o repertório como a primeira das quatro faixas extraídas de seu celebrado disco de estreia homônimo, de 2012.

Em sua última apresentação no Brasil no início de 2018, o Kadavar, ainda como um power trio, divulgava o disco “Rough Times”. Dele, apenas a krautroqueira “Die Baby Die” foi tocada, mas levou o público à insanidade com seu refrão na forma de um mantra para se cantar de punhos em riste.

Nesses oito anos, a divulgação de “For the Dead Travel Fast”, lançado ao final de 2019, foi interrompida pela pandemia no ano seguinte e não passou pelo Brasil. O Kadavar entrou em uma fase mais experimental, com as viagens progressivas introspectivas de “The Isolation Tapes” (2020) e a colaboração com o Elder, grupo americano radicado em Berlim, no disco único “A Story of Darkness & Light” (2021) do projeto batizado como Eldovar. Nenhum desses trabalhos esteve representado no Carioca Club.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

A banda recuperou o tempo perdido em 2025 com uma dobradinha de lançamentos. “I Just Want to Be a Sound” chegou em maio e marcou a estreia de Jascha Kreft, introduzindo sintetizadores que definiram a estética do álbum. No setlist, o disco foi representado apenas por “Regeneration”, apresentada já na reta final; sua melodia acessível contrastou com o peso cavalar da levada, em uma estrutura que remete à psicodelia sincopada do CAN.

O retorno ao Brasil veio para promover “Kids Abandoning Destiny Among Vanity and Ruin”, lançado oficialmente em novembro, mas já disponibilizado em mídia física durante a divulgação do álbum anterior. Formando o acrônimo “K.A.D.A.V.A.R.”, o trabalho quase homônimo marcou um certo retorno às raízes, com músicas mais diretas, mesmo sem abandonar toda a amálgama de influências que foi adicionada ao som ao longo da discografia.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

O novo álbum teve três músicas no repertório, a começar por “Lies”, segunda da noite, cheia de coros e duetos entre o novato Kreft, também fazendo vocais de apoio, e Christoph “Lupus” Lindemann, agora frontman por excelência, além de guitarrista principal.

O vocalista perguntou se o público estava pronto para “Doomsday Machine”, do segundo álbum “Abra Kadavar” (2013). Emendada no meio de improvisos ao seu final veio “Last Living Dinosaur”, de “Berlin”, disco lançado em 2015 que marcou a primeira vinda ao Brasil naquele mesmo ano. O vocalista revelou a inclusão especial para a turnê sul-americana de outra música do referido trabalho, “The Old Man”, que não teve desta vez sua melodia cantada em uníssono pelo público.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Como um quarteto, a principal diferença em relação às apresentações anteriores no país foi o kit simples de bateria do grandioso Christoph “Tiger” Bartelt estar mais recuado no palco. Antes, ocupava a posição central em linha com Lindemann e o baixista Simon “Dragon” Bouteloup, agora mais solto e agitando o público com seu chapéu estiloso. A lateral ficou para Kreft e seu impressionante arsenal de pedais adicionando toda a sorte de efeitos ao som do grupo.

Mesmo atrás do baixista, Bartelt ainda manteve uma espécie de comando do público, seja pela força de suas batidas, marcando o tempo e causando palmas e urros na pista, ou com os braços esticados causando certa ansiedade pelo retorno do peso às músicas.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

O público até respondeu bem às contrastantes outras duas músicas do álbum mais recente, “Explosion in the Sky”, retendo parte do aceno pop do trabalho anterior, e “Total Annihilation”, a trilha sonora frenética para o fim do mundo, nas palavras de Lindemann.

É inegável, porém, o apelo das músicas extraídas do primeiro disco, de 2012. Ficou óbvio pela reação ao riff inicial de “Black Sun” e mesmo durante a arrastada e pesada “Purple Sage”, estendida além de dez minutos até seu final apocalíptico, tudo sob iluminação roxa obscura.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

O desfecho da noite reuniu o par inicial da discografia: “Come Back Life”, de “Abra Kadavar”, e “All Our Thoughts”, do álbum de estreia. O set foi encerrado com o vigor de Bartelt, que espancou o kit como um John Bonham reencarnado. Após os desvios experimentais dos últimos anos, o Kadavar ressurgiu pronto para o seu novo ciclo — fiel à mística setentista, mas sofisticando sua sonoridade para entregar ao público uma experiência sempre singular.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Kadavar — ao vivo em São Paulo

  • Local: Carioca Club
  • Data: 21 de março de 2026
  • Turnê: South American Tour 2026
  • Produção: Sobcontrole

Repertório:

  1. Goddess of Dawn
  2. Lies
  3. Doomsday Machine
  4. Last Living Dinosaur
  5. Black Sun
  6. The Old Man
  7. Explosions in the Sky
  8. Total Annihilation
  9. Purple Sage
  10. Die Baby Die
  11. Regeneration
  12. Come Back Life
  13. All Our Thoughts
Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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