Quase todas as bandas de nu metal vieram ao Brasil no pós-pandemia. Slipknot, System of a Down, Linkin Park, Limp Bizkit, P.O.D., Mudvayne, Static-X… fora aquelas com viagens agendadas para os próximos meses, a exemplo de Korn, Drowning Pool, Ill Niño e (Hed) PE. Mas nenhuma delas esteve por aqui em um contexto tão curioso como o Deftones.
Na última sexta-feira (20), o grupo americano de Sacramento encarou o desafio de ser um dos headliners do Lollapalooza Brasil 2026, festival em São Paulo marcado pela diversidade de atrações e pouca abertura ao metal — menos ainda ao chamado nu metal. Mas esta banda não se encaixa no rótulo mencionado, tampouco em um recorte geracional. Não à toa, vive um de seus momentos de maior popularidade, a ponto de superar em ouvintes mensais no Spotify o Korn, sendo que este vendeu mais discos.
Mesmo com mudanças na indústria, o Deftones construiu uma discografia sólida e pouco afeita a apenas um gênero. O nu metal se fundiu com referências de rock/metal alternativo e shoegaze. Um de seus álbuns mais representados no repertório do Lolla — “Diamond Eyes” (2010) — saiu quando o citado nu metal estava longe dos holofotes. Situações como essa e a recente viralização de músicas via TikTok atraíram públicos de gerações mais jovens, vistos em peso na plateia formada no Autódromo de Interlagos.
O olhar do grupo para o presente se traduz, também, na escolha de inserir cinco músicas do disco mais recente, “Private Music” (2025), entre as 18 do setlist. Acompanhado pelos guitarristas de turnê Shaun Lopez e Lance Jackman (este em substituição a Stephen Carpenter, ausente de turnês internacionais), o quarteto composto por Chino Moreno (voz), Abe Cunningham (bateria), Frank Delgado (teclados/DJ) e Fred Sablan (baixo) não se preocupou em fazer uma “apresentação de festival”, ancorada apenas em clássicos. Transformou seu show de uma hora e 15 minutos em um momento à parte na programação.
A hipnótica “Be Quiet and Drive (Far Away)”, clássica música do segundo disco da banda, “Around the Fur” (1997), abriu o set de forma certeira e estabeleceu o clima enquanto Chino pulou de um lado para o outro no palco. O telão ao fundo foi invadido por pássaros. Canções mais recentes ocuparam a primeira etapa do set, destacando-se as pesadas “My Mind is a Mountain” e “Rocket Skates” (nesta, com os primeiros sinalizadores acesos na plateia), a envolvente “Swerve City” e a melancólica “Sextape”, cuja performance levou Chino à guitarra e, curiosamente, extraiu uma das reações mais notórias do público.
Do meio em diante, houve maior equilíbrio com os clássicos. “Milk of the Madonna” e “Infinite Source”, duas representantes de “Private Music”, dividiram espaço com músicas indispensáveis a exemplo da brutal “Genesis”, a sedutora “Rosemary”, a atmosférica “Change (In the House of Flies)” e as derradeiras “My Own Summer” e “7 Words” — com mais sinalizadores acesos nesta última.
Existe algo difícil de explicar na experiência de ouvir o Deftones ao vivo. Embora não se apoie em nostalgia — e tenha em seu material recente os grandes destaques do set —, a banda é capaz de transportar para a década de 1990 com sua fusão entre peso, melodia, emoção e uma ponta de sensualidade. Tudo isso embebido em um som de qualidade impressionante ao vivo e um trabalho visual que aposta em projeções imersivas e deixa Moreno na penumbra.
O resultado foi um show potente e de forte conexão com os fãs. Algo que poderia ser entregue apenas por uma banda que não apenas goza de sua atemporalidade, como, também, soa hoje melhor do que nunca.
Deftones — repertório no Lollapalooza Brasil 2026
- Be Quiet and Drive (Far Away)
- My Mind is a Mountain
- Locked Club
- Diamond Eyes
- Rocket Skates
- Sextape
- Swerve City
- Rosemary
- Ecdysis
- Headup
- Infinite Source
- Hole in the Earth
- Change (In the House of Flies)
- Genesis
- Milk of the Madonna (com outro de “Souvenir”)
Bis: - Cherry Waves
- My Own Summer (Shove It)
- 7 Words
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