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Bryan Adams vai do espetáculo de arena à abordagem intimista em SP

Com repertório que passeou por toda a sua carreira, cantor ofereceu momentos tanto dignos de espetáculo musical quanto de enorme proximidade com a plateia

*Por Jessica Valentim | Imagine estar em um show prestes a começar. Olhares e lentes de celular, naturalmente, estão destinados ao palco. Com a apresentação de Bryan Adams na Vibra São Paulo, no último sábado (7), não foi diferente, ainda mais porque havia atrativos no espaço onde o artista costuma se apresentar. No telão, um vídeo de estética bem-humorada mostrava Adams parado, vestindo um roupão com a inscrição “Roll with the Punches” (título de seu álbum mais recente e atual turnê), enquanto cenas surreais aconteciam ao redor — como um senhor em uma cadeira de rodas puxando um carro.

Muitos foram surpreendidos, porém, com a decisão de Bryan em iniciar o show em um pequeno palco improvisado entre o fundo da pista e início das cadeiras. Isso ocorre em todas as datas da tour do momento, mas vários presentes pareciam desconhecer o protocolo. Munido de seu violão e sem a banda de apoio, o cantor canadense tocou três hits melosos: “Can’t Stop This Thing We Started”, “Straight from the Heart” e “Let’s Make a Night to Remember”.

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Era apenas o início de uma performance de pouco mais de duas horas que agregaria surpresas curiosas em meio a uma generosa seleção de sucessos.

Cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor, fotógrafo e ativista de causas sociais, Bryan adquiriu enorme popularidade no Brasil ainda na década de 1980. Teve por aqui dois singles de platina (“Heaven” e “(Everything I Do) I Do It For You”) e um certificado com platina dupla (“Please Forgive Me”). A primeira canção citada entrou na trilha sonora da novela “A Gata Comeu” (1985), enquanto “I’ll Always Be Right There” teve reprodução constante em “Salsa e Merengue” (1997). São Paulo é a cidade em todo o mundo que mais escuta suas canções no Spotify.

Chama atenção, portanto, que Adams só tenha realizado seu primeiro show por aqui em 2007 e que a atual visita ao Brasil, a ser concluída com passagens por Curitiba (09/03) e Porto Alegre (11/03), seja apenas a quarta no total. Talvez a raridade de suas viagens ao país tenha colaborado para dar à performance de sábado (7) um ar de “faremos esta noite ser inesquecível” — conotação sexual de “Let’s Make a Night to Remember” à parte.

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Foto: Ellen Artie @ellenartie

O show

No palco principal, a banda de apoio de Bryan — Gary Breit (teclados), Pat Steward (bateria) e Luke Doucet (guitarra, substituindo Keith Scott) — entra para a enérgica “Kick Ass”, do álbum “So Happy It Hurts” (2022). Embora os hits dos anos 1980 e 1990 tenham estado presentes, discos lançados em tempos recentes marcaram presença: o material de 2022 foi representado por duas faixas, enquanto “Roll with the Punches” (2025) teve quatro canções. Mas seu trabalho mais contemplado, “Reckless” (1984), contribuiu com cinco faixas: “Run to You” (5ª da lista), “Somebody” (6ª), “It’s Only Love” (11ª), “Heaven” (13ª) e “Summer of ’69” (28ª).

Adaptada em um arranjo mais acelerado, “Heaven” tornou-se um dos momentos mais emocionantes da noite, acompanhada pelo público a cada verso. “Run to You”, “Somebody” e “It’s Only Love” — com Adams assumindo as partes vocais da saudosa Tina Turner — mantiveram o clima de arena rock que marcou a fase mais popular da carreira do cantor.

Entre uma música e outra, Bryan também arriscou algumas palavras em português, a exemplo do cumprimento “como está?”. À vontade, agradeceu à plateia por diversas vezes e, em tom bem-humorado, comentou que no Brasil sabe que seu nome vira praticamente uma palavra só: “Braiadams”.

A movimentação constante também é uma das marcas do show. Ao longo da apresentação, Bryan percorre o palco sem parar e alterna entre instrumentos, passando por guitarra, violão e baixo. Para quem iniciou a noite no meio da casa, tal dinâmica reforça a sensação de proximidade com o público.

Quando o visual assume o protagonismo

Nem todos os momentos do repertório mantêm o mesmo nível de energia. A sequência que vai de “Never Ever Let You Go” (14ª) até “Make Up Your Mind” (17ª) soa um pouco mais morna em comparação com os blocos dominados por grandes hits. Ainda assim, são pequenos respiros em uma apresentação que, na maior parte do tempo, aposta nos sucessos.

Todavia, mesmo nesses trechos mais contidos, a plateia segue entretida por meio de elementos visuais. Logo no início da apresentação, pulseiras de LED foram distribuídas ao público e passaram a acompanhar as luzes do palco ao longo do set.

Além disso, durante a faixa “Roll with the Punches”, um enorme inflável em forma de luva de boxe — reproduzindo a arte da capa do disco — surgiu flutuando sobre a Vibra. A ideia se repetiu em “So Happy It Hurts”, quando um enorme balão em modelo de carro atravessou o espaço. Se músicas novas nem sempre conseguem capturar a atenção de um público ansioso pelos clássicos, o artefato visual definitivamente conseguiu fazer todos olharem para cima.

Final divertido e emocionante

Outro momento chamativo se deu quando as câmeras se voltaram para a plateia. Durante o medley de “You Belong to Me” com “Blue Suede Shoes” (Carl Perkins), seguido por “Twist and Shout” (The Top Notes), os telões passaram a exibir o público dançando ou, sob incentivo de Bryan, tirando suas camisetas e as girando no ar. Os fãs ganharam o protagonismo.

Já na reta final, Adams ofereceu alguns dos momentos mais emocionantes ao priorizar canções lentas. A interpretação de “Have You Ever Really Loved a Woman?”, trilha sonora do filme “Don Juan DeMarco” (1995), trouxe violão flamenco e um clima intimista à noite.  Não muito tempo depois, a estrela da noite dividiu o palco apenas com Gary Breit ao piano para “Here I Am”, ainda o dispensando para executar totalmente sozinho “When You’re Gone”.

Outro ponto alto desse perfil, “(Everything I Do) I Do It for You” — trilha sonora de “Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões” (1991) — foi a única música da noite em que Bryan não tocou nenhum instrumento. Ali, esteve munido apenas de sua voz, provando que ela continua um dos grandes trunfos do espetáculo.

A trinca derradeira teve início com “Summer of ’69”, talvez seu maior sucesso, foi recebida com um coro ensurdecedor e cantada até mesmo nos trechos estendidos. Após “Cuts Like a Knife”, a banda se despediu do público para que Bryan encerrasse sozinho, junto de seu violão, executando “All for Love”.

De modo quase poético, o show terminou do jeito que havia começado: em modo acústico, guiado apenas por Adams. Ainda que cercado por uma banda afiada, o artista é o protagonista inconteste de seu espetáculo. Canta muito, passa por vários instrumentos com fluidez e domina o palco. Demonstra dominar, para além dos hits, a arte de entreter uma plateia.

Bryan Adams — ao vivo em São Paulo

  • Local: Vibra São Paulo
  • Data: 7 de março de 2026
  • Turnê: Roll with the Punches
  • Produção: Mercury Concerts

Repertório:

  1. Can’t Stop This Thing We Started (acústica, em palco alternativo)
  2. Straight From the Heart (acústica, em palco alternativo)
  3. Let’s Make a Night to Remember (acústica, em palco alternativo)
  4. Kick Ass
  5. Run to You
  6. Somebody
  7. Roll With the Punches
  8. Do I Have to Say the Words?
  9. 18 til I Die
  10. Please Forgive Me
  11. It’s Only Love
  12. Shine a Light
  13. Heaven
  14. Never Ever Let You Go (parcial)
  15. This Time
  16. Heat of the Night
  17. Make Up Your Mind
  18. You Belong to Me (com trecho de “Blue Suede Shoes”)
  19. Twist and Shout (original do The Top Notes)
  20. Have You Ever Really Loved a Woman?
  21. When You Love Someone
  22. So Happy It Hurts
  23. Here I Am (acústica, com Gary Breit no piano)
  24. When You’re Gone (acústica, com Bryan sozinho)
  25. The Only Thing That Looks Good on Me Is You
  26. (Everything I Do) I Do It for You
  27. Back to You
  28. Summer of ’69
  29. Cuts Like a Knife
  30. All for Love (acústica, com Bryan sozinho)

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