*Por Vinicius Oliveira | Encabeçado pelo vocalista Thiago Bianchi (Noturnall, ex-Shaman), o projeto All Metal Stars realizou no domingo (15), na Audio, possivelmente, o principal show da turnê em homenagem a Andre Matos (Viper, Angra, Shaman), falecido em 2019. Não somente por ser em São Paulo — terra natal do homenageado da noite —, mas também pela gravação de um DVD para eternizar a apresentação em reverência à carreira e ao legado de um dos principais nomes do heavy metal no continente.

Nascido como uma dissidência não declarada do projeto Shamangra, comandado pelo baixista Luis Mariutti (ex-Angra e Shaman), o All Metal Stars se fiou também no apoio da família de Andre Matos para que toda essa turnê com 16 datas fosse planejada e executada “da maneira mais honesta possível”, como ressaltou em entrevistas Dani Matos, irmão de Andre e baixista do Viper que também participou dos shows. Além dele, Thiago Bianchi trouxe para o time, de fato, uma verdadeira seleção brasileira do metal, a exemplo de Aquiles Priester (Hangar, W.A.S.P., ex-Angra) na bateria, Fabio Laguna (Hangar, ex-Angra) nos teclados e Edu Ardanuy (Sinistra, ex-Dr. Sin) na guitarra.
Krakkenspit e Phornax
A noite de celebração ainda teve os shows de abertura das bandas Krakkenspit (Goiânia) e Phornax (Porto Alegre). Ambas ofereceram uma performance técnica e muito intensa, mas acabaram prejudicadas pelo som extremamente alto e pouco definido, conflitando o instrumental com os vocais em diversos momentos.
Formado por Márcio Cruvinel (vocal), Aldo Guilherme (guitarra), Julian Stella (baixo) e Bruno Dias (bateria), o Krakkenspit abriu a noite até mesmo antes do horário das 20h para um público ainda diminuto. O grupo executou majoritariamente músicas do seu primeiro trabalho, “Tiedes of Armagedon” (2025), alternando momentos que remetem ao thrash metal, heavy metal tradicional e um pouco de nu metal, ao reunir o som pesado com grooves elaborados.

Mantendo a irretocável pontualidade da noite, o Phornax subiu ao palco às 20h50 comandado pelo excelente vocalista Cristiano Poschi e pelo veteraníssimo guitarrista Eduardo Martinez (ex-Hangar), que surpreendeu com o peso de sua guitarra de sete cordas. Os gaúchos agradaram bastante os presentes ao apresentar um repertório forjado no heavy metal tradicional, que combinou singles recentes com faixas do primeiro EP, “Silent War”, enquanto se preparam para o lançamento do disco inaugural, “Hellforge”, para o próximo mês de maio. Completam o grupo o ótimo baterista Mauricio Dariva, além do baixista Sfinge Lima e do guitarrista Deivid Moraes, este mais a cargo dos solos.

All Metal Stars
Exatamente às 22h, as luzes da Audio se apagaram e a plateia começou a ouvir a clássica introdução “Unfinished Allegro”, que antecede o hino “Carry On”, do Angra. Foi com essa música que a seleção formada por Thiago Bianchi (voz), Edu Ardanuy e Guilherme Torres (guitarras), Aquiles Priester (bateria), Fabio Laguna (teclados) e Saulo Xakol (baixo) conquistou os presentes logo de início.

Do ponto de vista técnico, a apresentação foi impecável. Muito bem ensaiada, a ponto de cada integrante sentir-se confortável para colocar suas características em composições aclamadas, demonstrando a capacidade em ir além e não somente fazer um cover. A qualidade do som melhorou consideravelmente em relação aos shows de abertura, mas não 100%, principalmente nos vocais.

Destaque óbvio para Edu Ardanuy, que por décadas foi alvo de um curioso fetiche de uma parcela de seus fãs: como seria ouvi-lo tocando power metal à la Angra e Shaman? O experiente guitarrista, vindo de uma escola mais orientada ao hard rock, saiu-se muito bem. Respeitou momentos marcantes dos solos e bases originais, mas também arriscou e colocou sua cara em clássicos como “Time”, do álbum “Angels Cry” (1993) e “Make Believe”, do disco “Holy Land” (1996).
Em tom de brincadeira e descontração, Ardanuy foi presenteado por Aquiles Priester com uma espada. Tornou-se agora “mais um guardião do power metal brasileiro”, como frisou o baterista, arrancado risadas da galera.
Aquiles foi outro que teve grande desempenho. Já ambientado totalmente com o repertório — seja por ter tocado muitas delas com o Angra, seja por outras terem figurado no repertório do Shamangra —, o “Polvo” explorou novos arranjos e incrementou ainda mais algumas viradas e frases da bateria. Tornou músicas como “Here I Am” (Shaman) e “Carolina IV” (Angra) ainda mais complexas e potentes.

Parceiro de longa data de Aquiles, o tecladista Fábio Laguna foi outro que deu um ganho visível na execução das músicas. Faz diferença ter um tecladista tocando ao vivo as partes com pianos, teclados e orquestrações das músicas, em relação ao material pré-gravado recorrentemente utilizado nos shows do Angra.

Os músicos do Noturnall que completam a banda — Guilherme Torres na guitarra e Saulo Xakol no baixo em grande parte do repertório — também tiveram excelente performance. Torres agiu como um verdadeiro operário ao deixar quase todos os solos com Ardanuy e, por vezes, seguir para o violão, enquanto o habilidoso Xakol — adjetivo notado por exemplo nos fraseados de “Carry On” — também contribuiu com os backing vocals.

Dani Matos subiu ao palco na parte central do set. Emocionado, tocou músicas fundamentais na história de seu irmão, como a já citada “Make Believe”, “Fairy Tale” (Shaman) e “Living for the Night” (Viper) — nesta última, arriscou-se também nos vocais e se saiu bem. Já Thiago Bianchi deixou muito claro que é a voz mais fiel para homenagear Andre Matos. Em que pese alguns exageros em agudos, o cantor teve desempenho em grande nível. Apostou até mesmo em faixas de execução complicadíssima, como “Stand Away” e a clássica versão de “Wuthering Heights” (Kate Bush), ambas pertencentes ao primeiro disco do Angra e executadas em alto patamar.
O show ainda teve as participações dos vocalistas Cristiano Poschi (Phornax), cantando “Lisbon” (Angra), e Gui Antoniolli (Tierramystica), em uma versão intimista para “Letting Go”, uma das principais músicas da carreira solo de Andre. E, como cereja do bolo, a mãe de Andre, Sônia, estava no camarote e acompanhou toda a homenagem. Em dado momento, foi mencionada e esteve sob os holofotes, ganhando até mesmo um presente da banda.
No mais, cabe, talvez, a crítica de que outros horizontes e formatos poderiam ser considerados pelos músicos envolvidos com o All Metal Stars para além dos tentáculos do Angraverso. Não que eles deixem de tentar, visto que Bianchi teve o Ready to Be Hated e tem o Noturnall com Torres e Xakol, enquanto os demais estão envolvidos em outros projetos autorais. Mas este é um comentário, também, direcionado ao próprio público, por vezes mais interessado na revisitação de obras do que em conhecer novidades.

Fato é que, ao oferecer um grande show, o projeto All Metal Stars deu uma grande mostra de que pode ter vindo para ficar. Músicas do Angra da fase Andre Matos tiveram suas melhores execuções em algum tempo — por vezes, superando a própria banda ainda comandada pelo guitarrista Rafael Bittencourt. O grupo estende suas atividades até o fim de março, com mais shows pelo Brasil. A agenda está disponível no site oficial.

All Metal Stars — ao vivo em São Paulo
- Local: Audio
- Data: 15 de março de 2026
- Turnê: Homenagem a Andre Matos
- Produção: Arena Produtora
Repertório — Krakkenspit
- Tides of Armageddon
- I’m Falling
- They Won’t
- Love Forever Dead
- Fear My Name
- Get Your Feet Off
- Long Wild Roads
Repertório — Phornax
- Hell’s Paradire
- Dare Destruction
- Final Beat
- A Matter of Time
- Silent War
- A Ghost from the Past
- Between Fear and Hope
Repertório — All Metal Stars
- Unfinished Allegro + Carry On
- Here I Am
- Carolina IV
- Time
- Wuthering Heights (com Dani Matos)
- Living for the Night (com Dani Matos)
- Stand Away (com Dani Matos)
- Make Believe (com Dani Matos)
- Fairy Tale (com Dani Matos)
- Letting Go (com Gui Antonioli, do Tierramystica)
- Lisbon (com Cristiano Poschi, do Phornax)
- For Tomorrow
Bis
- Crossing + Nothing to Say
- Angels Cry


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