Antes do Avenged Sevenfold subir ao palco do Allianz Parque, em São Paulo, no último sábado (31), para realizar seu maior show solo em estádio até hoje — apenas o seu segundo desse porte fora de festivais —, duas atrações de abertura receberam a tarefa de aquecer o público. O Mr. Bungle surgiu primeiro, ainda à tarde, sendo sucedido no início da noite pelo A Day to Remember.
Mr. Bungle enfrenta descompasso com fãs do A7X
Faltavam quase quatro horas para começar o show do Avenged Sevenfold e a fila para entrar no Allianz Parque ainda se estendia pelas ruas de acesso ao estádio. O público das cadeiras vibrava mais pelas nuvens cobrindo o sol forte numa inesperada tarde de céu azul quando o Mr. Bungle tomou o palco diante de uma pista longe da ocupação total.

O retorno ao Brasil da primeira banda do vocalista do Faith No More, Mike Patton, após a estreia no país como uma das atrações da edição inaugural do Knotfest em 2022, veio a convite da banda principal da noite.
Todavia, apesar de tanto Slipknot quanto A7X listarem o grupo como influência em sua sonoridade, é inegável uma falta de sincronia entre seus públicos. Durante a apresentação solo do grupo na segunda-feira (26), os membros da atração principal desta noite foram vaiados ao serem anunciados por Patton no Cine Joia, em São Paulo.

Tal descompasso se reafirmou no estádio paulistano. Se o Avenged tem testado a resiliência de seus fãs com discos cada vez mais cheios de influências diversas, ainda é brincadeira de criança perto do caos promovido pelo Bungle.
Depois de lançar três discos nos anos 1990 que fundiram a cabeça dos fãs de Faith No More, o grupo consolidou sua reputação entre quem se aventurou a acompanhar as maluquices da banda original de seu vocalista. Em 2020, as atividades foram retomadas para regravar sua demo de 1986, “The Raging Wrath of the Easter Bunny”.

Para conferir aura de supergrupo ao projeto, o trio original formado por Patton, o guitarrista Trey Spruance (de breve passagem pelo Faith No More) e o baixista Trevor Dunn (também companheiro do vocalista no Fantômas) se juntou a Scott Ian (Anthrax) na guitarra base e Dave Lombardo (ex-Slayer) na bateria. Ian, no entanto, não pôde fazer as últimas apresentações da turnê latino-americana pois sua banda principal estava escalado para o cruzeiro 70,000 Tons of Metal, que saiu da Flórida na quinta-feira (29) . Em seu lugar, o “alemão” Andreas Kisser assumiu o posto.
A escolha pareceu óbvia já que o grupo tem executado na América do Sul um cover para “Refuse/Resist”, do Sepultura. Na tarde quente de sábado, nada além do clássico da banda brasileira fez muito sentido ao não-iniciado em Mr. Bungle. Pelo menos, o fuzuê dos “velhos macumbeiros” divertiu a parcela do público que lhes deu atenção.
Ainda que quase nada do eclético trio de discos da banda tenha sido executado num repertório baseado em covers e nas músicas da demo regravada, Kisser pareceu superar algumas dificuldades de Curitiba em São Paulo. Lombardo, por outro lado, já se mostrou completamente em casa no meio da baderna promovida por Patton. Logo de cara, o baterista se posicionou ao lado do vocalista no centro do palco para acompanhar nos bongôs a versão de “Tuyo”, música de “hermano” Rodrigo Amarante utilizada na abertura da série “Narcos”.
O tom de pastelão vinha não só da divertida comunicação em português chulo do cantor. Após uma sequência de pancadarias que misturavam grindcore, crossover e thrash metal de “Bungle Grind” e “Sudden Death” — esta com direito a som extraído de um porquinho de plástico e referências ao time dono do estádio —, o quinteto baixava a adrenalina com versões de músicas românticas.
Em meio a “My A** is On Fire”, única do disco de estreia homônimo de 1991 executada no estádio, menções funkeadas à disco music não despertaram maiores reações além de palmas que logo evanesceram. Nem mesmo uma versão encurtada de “Retrovertigo”, faixa do álbum “California” (1999) regravada pelo próprio Avenged Sevenfold, tirou os presentes das conversas paralelas e uma atmosfera desinteressada.
Após saudação a Pomba Gira, Patton encerrou o show do Mr. Bungle pedindo ao público para acompanhá-lo gritando palavrões com dedo do meio em riste numa versão para “All by Myself” (Eric Carmen). Apelativo, mas funcional diante de uma plateia na maior parte do tempo alheia ao experimentalismo ainda visceral dos primórdios do grupo proporcionado no Allianz Parque.
Repertório – Mr. Bungle
- Tuyo (cover de Rodrigo Amarante)
- Anarchy Up Your An*s
- Bungle Grind
- I’m Not in Love (cover do 10cc)
- Eracist
- Spreading the Thighs of Death
- Retrovertigo
- Refuse/Resist (cover do Sepultura)
- Hypocrites / Habla español o muere (versão do S.O.D.)
- Sudden Death
- Hopelessly Devoted to You (cover de John Farrar)
- My A** is on Fire
- All by Myself (paródia de Eric Carmen com refrão mudado para “Tomar no C*”)
A Day to Remember contagia o Allianz com melodias fáceis em show seguro
Se foi difícil para o público se conectar ao som do Mr. Bungle além do cover de “Refuse/Resist” e alguns palavrões de Patton, o som grudento do A Day to Remember serviu como um aquecimento do gogó da galera que já chegava perto de lotar a pista às sete da noite.
Tudo na performance dos músicos parecia milimetricamente calculado, desde o penteado às falas do vocalista Jeremy McKinnon ao introduzir as músicas, passando pela camiseta da seleção brasileira do baterista Alex Shelnutt. Até mesmo interromper uma música do System of a Down no sistema de som do Allianz Parque, que era acompanhada em uníssono pelo público, para tocar seu tema de introdução minutos antes da hora marcada para começar seu show.

Após quatro passagens pelo Brasil — incluindo eventos de porte como a participação no Lollapalooza de 2022 e o status de coheadliner atrás do Simple Plan na I Wanna Be Tour de 2024 —, o grupo da Flórida equilibrou o repertório com seus hits e faixas de “Big Ole Album Vol. 1” (2025). Com apenas uma hora de tempo para se apresentar, porém, a banda já entrou no palco com uma dupla de músicas de um dos seus dois trabalhos certificados como disco de ouro nos Estados Unidos, “Homesick” (2009).
Os refrãos pegajosos das músicas “The Downfall of Us All” e “I’m Made of Wax, Larry, What Are You Made Of?” nem precisavam de qualquer ajuda para manter o público entretido. Ainda assim, o grupo se apoiou em chamas no palco e chuva de papel picado, além de se aproveitar das luzes durante o crepúsculo paulistano para não dar chance de diluir as atenções. Garantiram que a mistura funcional de metalcore, emo e pop punk permanecesse sob controle.
Pelo menos, o grupo completado pelos guitarristas Neil Westfall e Kevin Skaff — acompanhado nesta tour pelo baixista Bobby Lynge — fazia uso moderado das imagens do telão. Mesmo previsível, a movimentação de palco escapava do engessamento típico de um videoclipe ao vivo, comum em algumas superproduções modernas de estádio.
Em uma apresentação correta além da conta, não faltou perguntar quem via a banda pela primeira vez nem dedicar a música do álbum novo que fala sobre amizade, “All My Friends”, à banda principal da noite. De inusitado mesmo, só uma pessoa vestida de Super Mario atirando camisetas ao público com uma bazuca.

Para não deixar o clima totalmente amistoso, breakdowns foram estrategicamente posicionados após um refrão de melodia fácil. Antes das músicas mais pesadas, sempre acompanhadas por iluminação mais intensa, McKinnon tinha atendido seu pedido por rodas.
Também não poderia deixar de dedicar às mulheres da pista “If it Means a Lot to You”, balada executada de forma acústica. O manual de show de estádio foi seguido à risca e funcionou à perfeição no Allianz Parque.
A banda guardou para o fim mais um par de músicas de “What Separates Me from You” (2010), seu outro trabalho que ganhou disco de ouro. Quando “All I Want” e “All Signs Point to Lauderdale” encerraram a apresentação com seus coros irresistíveis cantados por quase todo o estádio, pareceu claro que o A Day To Remember já está cacifado em São Paulo para voos solos maiores.
Repertório – A Day to Remember
- The Downfall of Us All
- I’m Made of Wax, Larry, What Are You Made Of?
- Right Back at It Again
- Bad Blood
- Make It Make Sense
- Paranoia
- Miracle
- Mr. Highway’s Thinking About the End
- All My Friends
- Have Faith in Me
- 2nd Sucks
- Silence
- If It Means a Lot to You
- All I Want
- All Signs Point to Lauderdale
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