Entre a luz e as trevas: a história de “Headless Cross”, do Black Sabbath

Décimo quarto álbum de estúdio inaugurou nova fase para a banda, com bons números na Europa e sucesso na Rússia mesmo com baixa vendagem nos EUA

“Este é o disco mais importante da história do Black Sabbath e o primeiro em anos a se parecer com um disco do Sabbath”, disse Tony Iommi em 1989.

A declaração do guitarrista faz total sentido. Um ano antes, ao assinar com a tímida I.R.S. Records após o fim de um contrato de duas décadas com a Warner Bros, inaugurou-se uma nova fase para a banda. Seria o fim de um ciclo de mais de dez anos pontuado por más decisões administrativas e, esperançosamente, com isso, a formação do grupo pararia de mudar como o clima.

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Esta é a história de “Headless Cross”.

“Você compõe; eu lanço”

Em 29 de maio de 1988, o Sabbath tecnicamente chegou à sua 17ª formação, quando Iommi, o vocalista Tony Martin, o baterista Terry Chimes e o tecladista Geoff Nicholls (quebrando um galho no baixo) fizeram um breve show de três músicas para um evento de caridade em Oldbury, Inglaterra. Foi a única vez em que a banda subiu ao palco naquele ano.

Avançando para agosto, Cozy Powell entrou no lugar de Chimes, e Gloria Butler deu a entender que o retorno do marido Geezer, de quem era empresária, ao grupo era mais certo do que a menstruação de uma freira. No entanto, Geezer foi tocar com Ozzy Osbourne e a vaga de baixista acabou preenchida pelo jazzista Laurence Cottle.

Nessa altura, o Sabbath já era um dos nomes mais antigos do elenco da Warner. Iommi confessa ao autor canadense Martin Popoff que já se sentia parte da mobília. “Fiquei muito feliz quando Miles Copeland me ligou e disse: ‘Quero que você faça um disco do Black Sabbath”, conta ele.

O que mais seduziu o guitarrista no discurso do dono da I.R.S. foi a promessa de prioridade máxima e total liberdade artística: “você compõe; eu lanço”, assegurou-lhe Copeland. Iommi prossegue:

“Ele foi o motivo para eu assinar o contrato. Porque todas as outras gravadoras que estavam interessadas [na banda] também queriam envolvimento artístico. Eu não queria isso. Eu queria fazer meu negócio por conta própria, e Miles percebia isso. Ele disse: ‘Olha, você sabe como o Black Sabbath tem que ser.’ E eu gostei da forma que ele abordou isso. Assim que assinei o contrato, Miles, por mais que quisesse, não se envolveu.”

A complexidade das letras

A tinta ainda estava secando no papel quando Iommi e Powell começaram a compor o material que se tornaria “Headless Cross”. Martin, que no disco que marcou sua estreia como vocalista do Sabbath, The Eternal Idol (1987), somente cantara por cima do que a banda já havia registrado previamente com Ray Gillen, ficaria, agora, encarregado de escrever as letras.

Em entrevista a Popoff, ele descreve o período como “estranho”:

“Eu não estava na banda há tanto tempo assim. Após ‘The Eternal Idol’, fomos direto para ‘Headless Cross’. Então eu ainda não tinha certeza do que estava fazendo e tentava me situar. Fomos direto para o disco após retornar daquela pequena turnê [de vinte datas ao todo]. Eu ainda não tinha conseguido uma boa oportunidade de socializar com os outros caras. Fomos direto para o processo. E foi apenas quando tocamos em Moscou, Leningrado, esses lugares, durante a turnê ‘Headless Cross’, que eu meio que entendi onde estava. Eu estava no Black Sabbath, mas a ficha só caiu dois anos e meio após eu entrar na banda. Eu estava ocupado demais. Eu meio que só ia com o embalo.”

Deixar as letras a cargo de Martin resultou no maior apanhado de versos apócrifos e ocultistas já presentes num disco do Sabbath. Apesar de não ser conceitual, em “Headless Cross” prevalece uma temática exageradamente satânica e de alto teor literário.

A faixa que dá nome ao álbum, por exemplo, remonta aos tempos da peste na Idade Média (“There’s no escaping from the power of Satan” – “Não há escapatória do poder de Satã”). Em “Black Moon”, o diabo volta a dar as caras: “An angel of hell is rising, heaven’s no friend of mine” (“Um anjo do inferno está ascendendo, o céu não é meu amigo”), diz o refrão.

Em entrevista de época a Drew Masters reproduzida em “Born Again: Black Sabbath nos Anos 80 e 90” (Estética Torta, 2023), Powell explica que cada música tem uma história por trás.

“Nosso cantor, Tony Martin, é mais ligado ao lado obscuro da vida, digamos assim. Mas, na maioria, as músicas são sobre um fenômeno interessante. Há letras que certas pessoas poderiam interpretar como satânicas, mas só acrescentam à história.”

O vocalista garante a Popoff que não acredita em demônios nem qualquer coisa do tipo.

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“Eu acho que ninguém da banda acredita nessas coisas. Certamente não acredito em Deus, ou em nada do tipo, então não é fácil para mim transmitir essas ideias. Mas, se você acredita na canção, ou na história que está tentando vender, isso é algo muito mais importante de transmitir de forma correta.”

Improvise e toque

As oito faixas que compõem o repertório de “Headless Cross” foram gravadas entre agosto e novembro de 1988 no Woodcray Studios, numa pequena fazenda em Berkshire, a pouco mais de 80 km de Londres. Brian May, do Queen, é quem toca o solo de “When Death Calls”. Na autobiografia “Iron Man” (Planeta, 2013), Iommi conta sobre a única vez em que outro guitarrista que não ele mesmo toca em um disco do Sabbath:

“Chamei o Brian para tocar o solo de ‘When Death Calls’. Ele aparecia muito por lá enquanto gravávamos, ficava no estúdio e batia papo. ‘Você quer… tocar no álbum?’, perguntei. ‘Ah, eu posso?’ ‘Claro.’ ‘O que você quer que eu toque?’ Aí eu pegava uma faixa. ‘Tocar em cima disso?’ ‘Sim, pode ser.’ Ele apenas improvisou, porque ouviu o material pela primeira vez ali mesmo. Deixei-o no estúdio por uma hora e voltei. Foi ótimo, ele é muito bom. Tocamos juntos muitas vezes porque adorávamos. Até conversamos sobre fazer um álbum juntos. Um dia.”

Iommi fala ainda a respeito de como muitos de seus solos presentes no álbum foram tocados de improviso.

“Sempre tento fazer os solos nas primeiras tentativas, porque senão fica muito robótico. Prefiro fazer um solo instintivamente, apenas pegar e tocar (…) Não sou bom em parar e trabalhar nos solos, então, quando faço diferentes tentativas de tocar um solo, elas variam muito. Nunca consegui tocá-los exatamente iguais.”

A Popoff, Martin revela que a letra da supracitada “When Death Calls”, uma contenda entre Deus e o Diabo, surgiu após uma experiência extracorpórea. Na mesma linha, “Kill in the Spirit World” reflete sobre o que vem após a morte. “Se as pessoas ruins levam consigo sua maldade e sua falsidade; se assassinam alguém no mundo dos espíritos, o que acontece?”, indaga o vocalista e letrista. “Se você já está no inferno, o que acontece se alguém faz algo errado?”

Para evitar lançar canções com o mesmo nome que outras lançadas por Ozzy em “No Rest for the Wicked” (1988), Iommi teve de rebatizar “Hero” como “Call of the Wild” e “Devil’s Daughter” — curiosamente, um ataque a Sharon Osbourne, esposa de seu ex-vocalista, e seu pai, Don Arden, outrora empresário do Sabbath — como “Devil & Daughter”.

Uma nona canção de nome “Cloak and Dagger” chegou a ser registrada durante as sessões no Woodcray, mas seu lançamento ficou restrito ao lado B do compacto de “Headless Cross” e a algumas edições em CD do álbum que trazem-na como faixa escondida.

Memórias da abadia

Finalizadas as gravações, Copeland liberou a verba para a gravação de um videoclipe. A música escolhida foi a faixa-título. As filmagens foram realizadas em um lugar chamado Battle Abbey, perto de Hastings, em Sussex, Inglaterra. “No exato local em que Guilherme, o Conquistador, derrotou o rei Haroldo II na Batalha de Hastings, cerca de mil anos atrás”, enfatiza Iommi.

“Trabalhar naquela abadia velha e dilapidada era tranquilo durante o dia, mas a verdadeira filmagem só começava mais ou menos meia-noite. Eles queriam capturar a luz que surgia por trás das ruínas no nascer do sol, enquanto tocávamos lá. Àquela hora, fazia um frio abissal e a gente estava congelando. Cozy bebeu conhaque apenas para se aquecer, mas ficou bêbado feito um gambá. Quase caiu do banco da bateria. Meu nariz estava inchado e vermelho, e eu não conseguia sentir as mãos. Conseguimos pegar a luz da manhã, mas pegamos também uma gripe.”

Como Cottle acabou não saindo em turnê com a banda, seu único registro visual como integrante é o supracitado clipe. “Acho que, provavelmente, foi o único clipe de verdade que eu gravei”, conta o baixista a Popoff, antes de dar mais detalhes sobre sua breve e quase imperceptível estada:

“Inicialmente, apenas me trouxeram para tocar em umas faixas, e eu me dei bem com eles; Cozy me chamou de volta, e terminamos o resto do disco; foi tudo bem rápido. E eu estava fazendo overdubs, eu acho — não cheguei a tocar com a banda. Fiz overdubs em faixas que já estavam lá. Nem sei o que acabou no disco, do que nós gravamos. Eu estava trabalhando muito naquela época e acho que fizemos tudo em cerca de três dias. Eu estava trabalhando em um clube de jazz, em Londres, naquela semana, durante as noites, então eu passava o dia no estúdio, gravando o material do Black Sabbath, depois saía e tocava jazz moderno à noite. E era uma justaposição bem legal, na verdade. [Risos.] Como baixista, copiar os riffs de Tony e coisas assim era uma oportunidade fantástica; eu amei! Foi ótimo poder tocar ambos aqueles estilos.

Laurence diz, ainda, se orgulhar muito de “Headless Cross”.

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“Será um dos discos que eu mostrarei para meus filhos. Nunca me perguntaram, mas foi o único disco pesado que eu fiz, curiosamente. Todo o crédito disso vai para Tony Iommi, por ter feito o que ele queria de verdade porque obviamente não sentiu a necessidade de usar um baixista famoso. Eu não tenho um ‘nome’, mas obviamente ele gostou do que eu fazia e aceitou, com base no mérito do que eu toquei, não no que eu gosto ou não. Ele apenas gostou do que eu fiz e aceitou meu trabalho, e isso é louvável.”

De shows cancelados à loucura russa

“Headless Cross” foi lançado em 17 de abril de 1989. Alcançando a 31ª posição nas paradas britânicas, tornou-se o maior álbum que o Sabbath teve na Europa, mas nos Estados Unidos, segundo Iommi, não havia um álbum a vista nas lojas de discos.

“Não havia sequer um pôster, nada. Cozy ficou furioso. ‘O que diabos está acontecendo, não tem propaganda, não tem álbuns nas lojas!’ Na Europa, trabalharam em cima do álbum de forma fantástica. De fato, ‘Headless Cross’ vendeu melhor lá do que os álbuns originais do Black Sabbath, com as formações antigas, mas ficamos muito insatisfeitos com a maneira como a I.R.S. o promoveu nos Estados Unidos.”

E foi justamente lá que a turnê começou, um tanto atrasada, em 31 de maio, em Nova York, com Kingdom Come e Silent Rage abrindo as apresentações pelo leste americano, em junho. Mas as plateias eram tão pequenas que todos os shows do fim de junho e início de julho tiveram que ser cancelados.

De volta ao Reino Unido, o Sabbath fez uma temporada pela Europa com abertura do Axxis e participações de Ian Gillan e Brian May no bis do show no Hammersmith Odeon de Londres, em 10 de setembro. Em seguida vieram os compromissos no Japão e na Rússia, que ocuparam a agenda de novembro a dezembro.

Martin recorda-se que a Rússia era “uma loucura”. Ele disse:

“Estávamos fazendo shows de matinê. Fazíamos um à tarde e outro à noite. E quarenta mil pessoas entravam lá, viam o show; depois, essas quarenta mil pessoas saíam, e, instantaneamente, outras quarenta mil pessoas entravam para ver o segundo show, e, depois, essas mesmas quarenta mil pessoas saíam (…) Em Moscou, a primeira fileira de pessoas estava a uns quinze metros do palco. Entre nós e eles, ficava o exército, de frente para a plateia. E, na primeira fileira, dava para perceber que estava cheio de dignitários. O prefeito e sua esposa, sua mãe, a mãe dela, irmão, irmã, crianças, avó, e era assim com praticamente todos da primeira fileira.

Por último, mas definitivamente não menos importante, o vocalista destaca:

“Foi a primeira vez que vi alguém em um show do Black Sabbath tricotando um macacão ou algo para, sei lá, seus netos. Fantástico.”

Black Sabbath – “Headless Cross”

  • Lançado em 19 de abril de 1989 pela I.R.S. Records
  • Produzido por Tony Iommi e Cozy Powell

Faixas:

  1. The Gates of Hell
  2. Headless Cross
  3. Devil & Daughter
  4. When Death Calls
  5. Kill in the Spirit World
  6. Call of the Wild
  7. Black Moon
  8. Nightwing
  9. Cloak and Dagger (faixa escondida em algumas edições)

Músicos:

  • Tony Iommi (guitarra)
  • Cozy Powell (bateria)
  • Tony Martin (vocais)
  • Geoff Nicholls (teclados)
  • Laurence Cottle (baixo)

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Marcelo Vieira
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Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

1 COMENTÁRIO

  1. Achei muito legal essas histórias de bastidores desse álbum que gosto tanto! Merecia muito mais divulgação, nem nos streamings ele se encontra. Tenho em CD, mas nem sei onde está o cd player mais próximo! hehe

    Enfim, gostei demais da matéria!

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