Death to All repassa toda discografia da banda de Chuck Schuldiner em SP

Baixista Steve Di Giorgio comandou com brilho homenagem ao legado do pioneiro do death metal para Carioca Club cheio

O show do Death to All se aproximava da reta final quando o dono da noite em cima do palco, Steve Di Giorgio, fez um solo de baixo e começou a próxima música em seu instrumento. Bastou iniciar a singela melodia de guitarra para a pista quase lotada do Carioca Club acompanhar cantando a introdução de “Lack of Comprehension”, faixa de “Human”, disco seminal lançado em 1991 para quebrar paradigmas do death metal.

Por mais de uma hora e meia, com volume bem alto, em frente a apenas um pano de fundo com o logo do projeto-tributo e sob iluminação até simplória, foram executadas faixas de toda a discografia do Death. O respeito ao legado de Chuck Schuldiner ficou evidenciado na reprodução cuidadosa dos arranjos originais.

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Assim como a sonoridade da banda homenageada, o show do Death to All não repete os estereótipos de um show de metal extremo. Rodas são pontuais. O público, muitas vezes, acompanha embasbacado o apuro técnico dos instrumentistas — principalmente de Di Giorgio no baixo — ou as labirínticas composições. E canta junto as melodias e os refrãos.

Muitas vezes, parece mais um show de prog. Mas nunca deixa de ser death metal.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Death to All e o legado de Chuck Schuldiner

Quando Chuck Schuldiner morreu, em 13 de dezembro de 2001, a associação dos dois subgêneros mencionados ainda engatinhava e estava longe de ser tão natural como é hoje em dia. Não à toa, o guitarrista se sentia limitado e criou uma nova banda, o Control Denied, para dar vazão à musicalidade que então julgava incompatível ao esperado pelos fãs do Death.

Não que “Symbolic”, álbum de 1995 no qual Schuldiner se sentiu no limite da identidade do Death, tenha sido mal recebido por imprensa e fãs. O último trabalho da banda, “The Sound of Perseverance” (1998), também aclamado, veio como parte de um acordo com a gravadora Nuclear Blast por mais um disco dos ícones do death metal antes de dar suporte ao Control Denied. Ninguém, além do falecido músico, desejava o fim do grupo.

Mais de vinte anos após a morte de Schuldiner, seu já reconhecido legado só ganhou importância e admiradores. Parte considerável do público que encheu o Carioca Club no fim de tarde de sábado mal balbuciava palavras ao final de 2001. Dificilmente algum presente conseguiu ver o Death ao vivo — o mais próximo que a banda esteve do Brasil foi em uma apresentação no Chile em novembro de 1998.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Em 2012, coube ao ex-empresário e curador do legado musical do Death, Eric Greif, organizar alguns shows cheios de convidados e ex-membros para homenagear Schuldiner. No ano seguinte, colocou o projeto na estrada capitaneado pelo baixista Steve Di Giorgio, mais longevo parceiro do falecido compositor, ao lado de Paul Masvidal e Sean Reinert, dupla do Cynic que gravou o citado “Human” — cujo guitarrista de apoio, Max Phelps, foi o escolhido para completar o time também assumindo vocais. Um achado.

É possível dizer que, sem Phelps, o Death to All não vingaria. A semelhança física com Schuldiner salta aos olhos e vem acompanhada da capacidade técnica de reproduzir tanto seu apuro instrumental quanto os vocais do falecido músico. Se houve variação inicial de ex-membros do Death acompanhando o baixista Steve Di Giorgio nas turnês realizadas pelo projeto, Phelps foi uma constante. Assim como o foco do projeto em representar toda a carreira do grupo.

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Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Após a morte de Grief, em 2021, uma outra banda-tributo foi criada, chamada Left to Die. Formada pelos ex-membros Rick Rozz e Terry Butler, toca apenas os trabalhos iniciais do Death, da qual a dupla fez parte. Apesar da inegável paixão por essa fase pelo guitarrista e vocalista escolhido para empreitada — Matt Harvey, do Exhumed, cujo projeto paralelo Gruesome chega de propósito ao limiar do plágio dos primeiros álbuns —, com essa limitação e sem contar com Phelps, não parece nada além de uma banda cover querendo ganhar uns trocados.

Foco na música e em cada disco do Death

Quase dez anos atrás, a primeira vinda do Death to All ao Brasil foi a estreia da atual formação, hoje estabilizada, e que se apresentou no início de uma fria e chuvosa noite do recém chegado outono paulistano. A única diferença para esta turnê sul-americana foi não contar com o alemão Steffen Kummerer, do Obscura, em algumas músicas. No palco, ao lado de Steve Di Giorgio e Max Phelps, apenas o baterista Gene Hoglan e o guitarrista Bobby Koelble.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox
Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

As cortinas do palco do Carioca Club se abriram cinco minutos antes do horário programado, mas a pista já estava bem preenchida. O riff de “Open Casket”, de “Leprosy” (1988), foi iniciado ainda antes das 19h e deu um tom de velha guarda na pancadaria. O baixo de três grossas cordas de Steve Di Giorgio roubava a cena. Ele foi utilizado na maioria das faixas não registradas em estúdio pelo músico.

Logo a melodia inigualável da introdução foi a senha para a bateção de cabeças acompanhando o riff do, por que não dizer, hit “The Philosopher”. Seu videoclipe, imortalizado em um episódio do programa “Beavis and Butt-Head” na MTV, também foi presença constante no “Fúria Metal” nos anos 90. A faixa extraída de “Individual Thought Patterns” (1993), com Di Giorgio e Hoglan, teve sua primeira estrofe e refrão cantados pelo público.

O apuro instrumental ficou em ainda mais evidência com “Suicide Machine”, faixa de “Human”, disco em que Chuck deu uma guinada progressiva com o som do Death ao lado de então estreante Di Giorgio e da dupla formada por Paul Masvidal e o falecido Sean Reinert, então membros de uma banda desconhecida chamada Cynic. O público seguiu cantando as melodias que conseguia.

Depois de quebrar tempos, “Living Monstrosity” veio para quebrar pescoços. A pesada e variada faixa de “Spiritual Healings” (1990) é um exemplo de quando Schuldiner sentiu chegar ao limite da musicalidade possível para o death metal da velha guarda, como ficaria evidente na música seguinte.

“Symbolic” obteve uma das reações mais animadas do público durante a noite. A versátil faixa-título do único álbum a contar com Bobby Koelble também marcou o mais próximo a contar com os três ex-membros do Death no palco — Di Giorgio saiu da banda durante suas sessões de composição, mas Hoglan registrou a bateria.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Para simplificar um pouco a pancadaria veio “Infernal Death”, do álbum de estreia “Scream Bloody Gore” (1987) e trouxe velocidade e pancadaria à apresentação, com algumas rodas aparecendo na preenchida pista do Carioca Club. “Scavenger of Human Sorrow”, do trabalho final “The Sound of Perseverance”, teve recepção digna de um clássico.

Com uma música de cada trabalho do Death já executada, antes ainda do solo de baixo seguida pelos coros em “Lack of Comprehension” citados inicialmente, o grupo tocou a violenta “Overactive Imagination”, a intrincada e às vezes sabbathica “Within the Mind” e a veloz “Baptized in Blood”. Em “Flesh and the Power it Holds”, os músicos mostraram todo seu entrosamento nas várias paradas sincronizadas da canção de mais de oito minutos.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Início e fim da carreira do Death para terminar o show

Para encerrar a primeira parte do repertório, a banda executou “Crystal Mountain”. A mais cativante das músicas de “Symbolic” teve seu refrão cantado pelo público, que esperou pouco pelo bis. Os músicos voltaram ao palco com “Zombie Ritual”, cujo riff icônico já causou frenesi e teve seu título no refrão gritado por todo o Carioca Club.

Antes de encerrar a apresentação com a dupla “Spirit Crusher” (faixa inicialmente concebida para o Control Denied que acabou sendo incorporada ao último disco da banda) e a obrigatória “Pull the Plug”, do clássico “Leprosy”, Di Giorgio, o dono da noite, tomou a palavra. Com seu microfone colocado muito alto, brincou de imitar Lemmy, mas anunciou que seriam executadas duas faixas: uma da fase inicial; outra, do fim da carreira do Death.

No início da apresentação, Di Giorgio dissera que o Death to All tem como único objetivo relembrar, celebrar e imortalizar Chuck Schuldiner. Ao final da noite, a discografia completa do Death foi representada. Esse respeito a todo o legado da banda é o diferencial do projeto concebido por Greif, hoje com vida própria. E o que ainda atrai tanto público para emocionar-se e celebrá-lo como se estivesse o músico ali presente.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

*O Death to All se apresenta neste domingo (24) em Limeira, concluindo a turnê que passou por Brasília (22/03) e São Paulo (23/03).

Death to All — ao vivo em São Paulo

  • Local: Carioca Club
  • Data: 23 de março de 2024
  • Turnê: Muerte por Vida – Muerte a Todo Tour

Repertório:

  1. Open Casket
  2. The Philosopher
  3. Suicide Machine
  4. Living Monstrosity
  5. Symbolic
  6. Infernal Death
  7. Scavenger of Human Sorrow
  8. Overactive Imagination
  9. Within the Mind
  10. Baptized in Blood
  11. Flesh and the Power It Holds
  12. Lack of Comprehension
  13. Crystal Mountain

Bis:

  1. Zombie Ritual
  2. Spirit Crusher
  3. Pull the Plug

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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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