Como “Cross Purposes” inaugurou a 2ª era Tony Martin no Black Sabbath

Gravação foi rápida e sob boa atmosfera, embora mais mudanças de formação tenham vindo na sequência; turnê incluiu 2ª vinda da banda ao Brasil

Tony Martin não ficou sentado num canto chorando após ser deposto do Black Sabbath em favor de Ronnie James Dio para o ciclo que resultou no álbum “Dehumanizer” (1992). Na verdade, num piscar de olhos, o vocalista foi e fez um disco solo. “Consegui um contrato com a Polydor Records, e ‘Back Where I Belong’ foi lançado [no mesmo ano] na Europa”, descreve ele ao autor Martin Popoff no livro “Born Again” (Estética Torta, 2023).

Martin contou com 43 músicos, incluindo Brian May, do Queen, em sua empreitada. Contudo, segundo o cantor, o disco foi tirado do mercado quando ele disse à gravadora que voltaria ao Sabbath para substituir o recém-saído Dio.

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Além da volta do antigo vocalista, uma estreia: na bateria, Bobby Rondinelli, que entrou sem sequer ter feito um teste. “Apenas me perguntaram: ‘Quer tocar conosco?’, e eu respondi que sim”, recorda o músico ex-Rainbow.

Assim foi dada a largada para “Cross Purposes”, o início da segunda era Tony Martin no Black Sabbath.

Gravação relâmpago no País de Gales

Martin, Rondinelli, o guitarrista Tony Iommi, o baixista Geezer Butler e o tecladista Geoff Nicholls ensaiaram e trabalharam em cima de riffs pré-existentes por um mês e meio na Inglaterra. Depois, partiram rumo ao País de Gales para gravar no tempo recorde de cerca de um mês com o produtor Leif Mases.

Nascido na Suécia, Mases já era conhecido do Sabbath de outros carnavais, pois havia mixado “Tyr” (1991) e ajudado o grupo na faixa “Time Machine”, para a trilha sonora do longa-metragem “Quanto Mais Idiota Melhor” (1992). Ele também produziu os álbuns “Wings of Tomorrow” (1984), do Europe; “Jeff Beck’s Guitar Shop” (1989), de Jeff Beck; e fez engenharia de som em “In Through the Out Door” (1979) e “Coda” (1982), do Led Zeppelin, entre outros trabalhos dignos de nota.

Na autobiografia “Iron Man” (Planeta, 2013), Iommi se refere a essa gravação como “uma boa experiência. Por isso, pedimos que ele produzisse um disco inteiro dessa vez. Trabalhar com ele era fácil”.

As sessões, pelo que o guitarrista se lembra, foram bem rápidas e praticamente ao vivo. “Preparei minhas guitarras e os amplificadores que uso no palco e mandei ver”, escreve ele. Butler acrescenta: “Era uma atmosfera muito boa, e todo mundo se relacionou incrivelmente bem”.

Das manchetes aos versos

A escrita das letras ficou principalmente a cargo de Tony Martin, uma vez que Geezer Butler, segundo o vocalista, “não queria participar”. O baixista confirma a tese a Popoff:

“Eu dava algumas sugestões quando ele ficava sem ideias. Mas eu não estava com vontade de fazer letras naquela época. Estava mais focado em criar a música do álbum.”

Por, em suas palavras, “gostar de todas aquelas coisas virtuais, que eram populares na época”, Geezer acabou sendo o principal letrista somente de uma faixa: “Virtual Death”.

Longe do satanismo predominante nas letras de “Headless Cross” (1989) e dos delírios nórdicos do sucessor “Tyr”, Martin mostrou-se um autor atento ao mundo ao seu redor e aos noticiários.

Na cartilha temática, temos a Guerra Civil Iugoslava (“Dying for Love”), o cerco ao Ramo Davidiano do autoproclamado profeta David Koresh, que resultou na morte de 80 pessoas no Texas em 1993 (“Psychofobia”) e os crimes de Beverley Allitt, serial killer britânica, conhecida como “Anjo da Morte” (o single e videoclipe “The Hand That Rocks The Cradle”).

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Tony também escreveu inspirado pela cultura de isolamento dos Amish (“I Witness”), pela história de um padre católico que escondeu um filho durante 21 anos e acabou excomungado da Igreja (“Cardinal Sin”) e por uma viagem à Irlanda, realizada em meio ao conflito sectário entre católicos nacionalistas e protestantes unionistas, sobre a qual postou em sua página no Facebook:

“Quando eu estava no Cozy Powell’s Hammer, fizemos alguns shows na Irlanda (…) Fomos recebidos e escoltados pelo empresário do Van Morrison, que estava ajudando a produzir alguns shows. Numa conversa completamente descabida, perguntei-lhe como era viver ali, e ele disse: ‘É como carregar uma cruz de espinhos!’. Essa frase teve um impacto real em mim e foi o que inspirou a letra de ‘Cross of Thorns’.”

O embate, marcado por violência e tensões políticas, acabou sendo resolvido em grande parte pelo Acordo de Belfast em 1998.

Jam inesperada e amizade duradoura

Parte do mito que envolve o Sabbath inclui a suposta colaboração de Eddie Van Halen em “Evil Eye”. A lenda sugere que o guitarrista teria contribuído para a composição da última faixa de “Cross Purposes”, mas nunca foi creditado devido a restrições de sua gravadora, a Warner Bros Records — curiosamente, a antiga casa de Iommi e companhia.

Entretanto, a realidade é um tanto diferente e bem mais despretensiosa. Em 25 de abril de 1993, o Van Halen se apresentou na NEC Arena, em Birmingham, Inglaterra, marcando a primeira parada da turnê “Right Here, Right Now” pelo país. Segundo Tony em “Iron Man”, foi Eddie que entrou em contato.

“Ele queria me encontrar, então o busquei no hotel em Birmingham, e dirigimos até Henley-in-Arden, onde ocorriam os ensaios [do Sabbath]. Pegamos uma guitarra para ele na loja de instrumentos, um dos modelos [signature] dele, fizemos uma jam, e ele tocou em ‘Evil Eye’. Toquei o riff, e ele fez um ótimo solo por cima. Infelizmente, não gravamos adequadamente o improviso em nosso modesto gravador, então nunca tive a chance de ouvir.”

Aquele foi “um dia engraçado”, prossegue Iommi.

“‘Você quer uma cerveja?’, perguntou Eddie. Eu não podia beber porque tinha que levá-lo de volta ao hotel, mas pegamos um engradado, fomos até o local de ensaio, e ele saiu trocando as pernas, cambaleando. No entanto, foi ótimo vê-lo, e foi ótimo ele ter vindo tocar. Fazer uma jam com Eddie e relaxar um pouco foi um incentivo para nós.”

A admiração de Tony por Eddie remonta a 1978, quando o Van Halen abriu para o Black Sabbath durante a turnê de “Never Say Die!”. Embora ainda fossem relativamente novos, eles eram “realmente bons”, rememora o guitarrista.

“Nos tornamos amigos próximos. Eu via muito o Eddie, pois eu sempre tinha um pouco de cocaína. Ele vinha para meu quarto, e a gente conversava até cair no sono. Era assim mesmo. Para mim, Eddie Van Halen era muito diferente de todos os outros guitarristas do meio naquela época. O tamborilar dos dedos — embora ele não chame assim — era uma grande técnica. Eles eram uma banda realmente cheia de energia e estavam seguindo por um caminho excelente. Na verdade, eles nos faziam parecer um pouco entediantes porque faziam várias acrobacias; David Lee Roth dava cambalhotas no palco e Deus sabe mais o que. Eram ótimos artistas, grandes músicos, e dava para ver que iam mesmo decolar.”

Anjos e adeus

Usando a mesma imagem que o Scorpions no single “Send Me an Angel” de 1991, “Cross Purposes” chegou às lojas em 31 de Janeiro de 1994 e entrou nas paradas de nove países, incluindo Estados Unidos (#122), Inglaterra (#41) e Japão (#32), onde o CD teve a faixa bônus exclusiva “What’s the Use”.

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A turnê americana em apoio ao lançamento teve início em fevereiro, com Motörhead e Morbid Angel abrindo. Em seguida, a banda fez uma curta temporada de quatro datas no Japão, antes de desembarcar no Reino Unido, para um giro pela Europa com Cathedral e Godspeed. Os shows no Velho Continente marcaram a despedida de Bobby Rondinelli.

Um dos últimos compromissos do baterista foi a apresentação no Hammersmith Odeon em 13 de abril, filmada e lançada no ano seguinte numa caixa contendo CD e VHS intitulada “Cross Purposes Live”. Iommi relata:

“Certa vez, ouvi alguém descrevê-lo como o lançamento menos divulgado de todos os tempos. Provavelmente tem muita verdade nessa declaração, porque eu só me lembro vagamente do lançamento dele.”

Rondinelli reforça:

“Acho uma pena que meio que passou despercebido. É um bom disco do Sabbath.”

Tocando o passado, olhando para o futuro

Com uma agenda a ser cumprida na América do Sul, o guitarrista recorreu a um velho companheiro. Bill Ward, baterista original do Sabbath, foi trazido a bordo para o giro que incluiu a segunda vinda do grupo ao Brasil, como atração da edição de 1994 do Monsters of Rock, realizado no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. O lineup do festival incluía ainda Kiss — que retornava ao país depois de 11 anos —, Slayer, Suicidal Tendencies, Viper, Angra, Dr. Sin e Raimundos.

Em seu livro, Iommi disserta sobre aquele 27 de agosto:

“Éramos Geezer, eu e Bill, então era quase a antiga formação e mais o Tony Martin (…) Subimos ao palco diante de cerca de 100 mil pessoas, e a pressão era grande. Conseguimos nos virar, mas, no final, não tocamos o material mais recente. Para podermos seguir em frente, acabamos tocando somente músicas como ‘Iron Man’ e ‘War Pigs’, coisas que Bill conhecia. No entanto, sejamos justos com Tony: ele cantou as canções antigas muito bem.”

Depois que a turnê de “Cross Purposes” chegou ao fim — e com ela a breve nova estada de Bill no Sabbath —, Geezer voltou para a banda solo de Ozzy Osbourne. Para ocupar os seus lugares, Iommi trouxe de volta Cozy Powell e Neil Murray. O guitarrista reconhece:

“Havia alguns ressentimentos por causa da maneira como tudo aconteceu no passado. Mas resolvemos essas questões. Fizemos as pazes e começamos a trabalhar no álbum ‘Forbidden’.”

Black Sabbath — “Cross Purposes”

  • Lançado em 31 de janeiro de 1994 pela I.R.S.
  • Produzido por Leif Mases e Black Sabbath

Faixas:

  1. I Witness
  2. Cross of Thorns
  3. Psychophobia
  4. Virtual Death
  5. Immaculate Deception
  6. Dying for Love
  7. Back to Eden
  8. The Hand That Rocks the Cradle
  9. Cardinal Sin
  10. Evil Eye

Músicos:

  • Tony Martin (vocal)
  • Tony Iommi (guitarra)
  • Geezer Butler (baixo)
  • Geoff Nicholls (teclados)
  • Bobby Rondinelli (bateria)

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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