Os dias de Bruce Dickinson no Samson, narrados por ele mesmo

Antes de conquistar fama internacional com o Iron Maiden, vocalista integrou um grupo tão seminal quanto obscuro da New Wave of British Heavy Metal

O final da década de 1970 viu um ressurgimento do heavy metal na Grã-Bretanha. O movimento, rotulado de New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM), foi responsável por lançar em carreira internacional bem-sucedida bandas novas como Iron Maiden, Saxon e Def Leppard.

O contemporâneo Samson nunca chegou a fazer esse tanto de sucesso, mas tinha seu quinhão de fãs dedicados desde que o vocalista e guitarrista Paul Samson e o baixista Chris Aylmer o formaram em 1979 em Gravesend, Kent.

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A dupla, juntamente com o baterista Barry “Thunderstick” Graham, teve um começo promissor, gravando seu álbum de estreia “Survivors” naquele mesmo ano para o selo independente Laser.

Mas Paul não era lá um grande cantor, então um propriamente dito juntou-se ao Samson logo após o lançamento de “Survivors”. Sua primeira missão seria regravar os vocais principais com a intenção de relançar o álbum. Esse relançamento nunca aconteceu, mas muitas outras coisas rolaram.

Esta é a história dos dias de Bruce Dickinson, a voz do Iron Maiden, no Samson, em suas próprias palavras.

Todas as declarações a seguir, atribuídas a Dickinson, foram extraídas das seguintes fontes:

Caindo de cabeça no Samson

Uma noite em 1979, Bruce Dickinson estava se apresentando em um pub chamado The Prince of Wales quando conheceu o guitarrista Paul Samson. O cantor relembra:

“Eu tocava com uma banda chamada Shots. Já vínhamos tocando em pubs há algum tempo e fazíamos uma mistura de músicas próprias e covers de coisas antigas do Montrose e outras nesse estilo. Thunderstick apareceu uma noite com Paul. Algumas semanas depois, recebi uma ligação telefônica, completamente inesperada, de Paul. Ele quis saber se eu estava interessado em entrar para sua banda, Samson, que tinha um contrato de gravação, empresários, agenda de shows e tocava em locais de destaque em Londres. Eu disse: ‘Bem, estou’.”

Mas havia apenas um problema: o vocalista estava em época de provas na faculdade.

“Eu cursava História, então perguntei: ‘Vocês poderiam esperar três semanas até eu terminar as provas?’ Eles disseram: ‘Lógico, sem problemas’. Então eu terminei a última prova numa manhã e na mesma tarde já estava no estúdio ensaiando com eles.”

Os primeiros ensaios com o Samson estabeleceram o clima para toda a sua estadia na banda.

“Nunca curti drogas; só bebia bastante. Mas, quando fui até lá, o baixista estava cheirando atrás dos amplificadores, Paul fumava um enorme baseado e o baterista tinha usado um monte de calmantes.”

Na sua ingenuidade, Bruce pensou que músicos de rock eram grandes artistas — e foi um choque enorme perceber que não.

“O Samson tinha pavor dessa ideia [ser artista]. Eles queriam apenas se divertir, tomar uns drinques, transar e usar drogas. Por isso, achei muito difícil me relacionar com a banda, mas, como aceitei trabalhar com os caras, decidi: ‘Se vamos fazer música juntos, é melhor eu cair de cabeça e descobrir o que é todo esse negócio de drogas e p#taria’.”

Adotando o “bem idiota” nome artístico Bruce Bruce, ele mergulhou de cabeça. Acompanhando Paul, que acendia um baseado atrás do outro, começou a fumar.

“Descobri que, se continuasse careta, não conseguiria me comunicar com eles. Seria impossível. E foi assim que rolou. Eu me resignei, tentando me tornar uma pessoa que não sou. Queria ser um vocalista, e isso fazia parte do preço a ser pago.”

A química da nova formação do Samson foi enorme. Quase que imediatamente os quatro compuseram o punhado de músicas que se tornaram seu segundo álbum, “Head On”.

“Acho que escrevemos tudo em cerca de uma semana ou algo assim, porque eu tinha muitas ideias para letras e eles tinham muitos riffs e progressões de acordes, então juntamos tudo e dissemos: ‘Caramba, é isso!’”

Mas a gravação teve de esperar, pois após esses ensaios, o Samson caiu na estrada para promover “Survivors”.

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Bruce Dickinson de cara com o ídolo

Não foram poucas as ocasiões em que Bruce Dickinson expressou publicamente sua admiração por Ian Gillan. Em entrevistas, ele falou sobre como o vocalista do Deep Purple o inspirou como cantor e performer, elogiando a habilidade vocal de Gillan, sua técnica, alcance e presença de palco. O primeiro álbum que comprou foi “In Rock”, do Purple, o qual achou “sensacional; a melhor coisa já produzida!”.

Imagine, então, como foi para ele quando a oportunidade de abrir para Gillan bateu à porta do Samson. Seria a primeira vez que Bruce pisava em um palco de grande porte, com uma plateia de verdade. Além disso, tinha a chance de ver seu herói de infância fazer o que sabe todas as noites.

“Gillan havia retornado às suas raízes metal após alguns anos tocando jazz rock, e o efeito foi transformador. O baixista de Ian, John McCoy, com suas dimensões de lutador de sumô, havia produzido e tocado no álbum ‘Survivors’.”

Lamentavelmente, não foi bem como ele esperava.

“Ian vinha tendo problemas vocais. Era óbvio para mim e para vários outros. Algo havia acontecido com seu registro agudo, e o grito cujo vibrato tinha a extensão do Grand Canyon havia perdido força. A pureza fora substituída por uma rouquidão áspera, e em certas noites eu mal conseguia assisti-lo.”

Além dos shows com Gillan, o Samson em 1980 abriu para o Rainbow, à época promovendo o álbum “Down to Earth” (1979).

Fumando muito mais que Shakespeare

Escrevendo a maior parte das canções com Paul, Bruce gravou dois álbuns com o Samson. O primeiro deles foi “Head On”, lançado em 1980 pelo selo Gem.

“Jogávamos no liquidificador, não necessariamente na ordem, Rainbow, Journey, Devo, Kiss, Deep Purple e o Fleetwood Mac dos tempos de Peter Green, além de ZZ Top

Entre as “canções legais”, dois clássicos da NWOBHM: “Too Close to Rock” e “Take It Like a Man”.

“Head On” foi gravado na raça no Kingsway Studios, de Ian Gillan, novamente com John McCoy produzindo.

“O que quer que Shakespeare tenha fumado [quando escreveu ‘Macbeth’], nós fumamos muito mais enquanto fazíamos o disco. Eu gritava e guinchava, harmonizava e murmurava. Thunderstick quebrava garrafas de leite e nós gravávamos. Paul gravava as linhas [de guitarra], fazia as dobras e adicionava delay à sua maneira às músicas. John McCoy observava tudo ostentando um coque alto e fumando um baseado do tamanho de fogos de artifício. ‘É, cara’, dizia ele. ‘É muito foda.’ Era mesmo. […] ‘Head On’ poderia ter sido muito bom. Gostaria que tivéssemos um bom produtor, pois havia canções legais ali.”

Odiando a nova voz

O álbum seguinte, “Shock Tactics” (1981), contou com um bom produtor: Tony Platt. De acordo com Bruce Dickinson, o profissional vinha da escolha “Mutt” Lange de produção, com ponto de vista “firmes” sobre como as coisas deveriam ser feitas.

“O som da guitarra de Paul ganhou menos eco e mais presença, o que ele detestava. Em geral, examinávamos o que fazíamos de forma bem detalhada, o que exigia algum grau de sobriedade. Achei aquilo um alívio. Já estava de saco cheio de ficar bêbado. Já era hora de fazermos um disco com sonoridade decente […] O último álbum que fiz com eles foi, de muitas maneiras, o melhor. As músicas ainda são muito boas; elas não parecem datadas de forma alguma.”

O carro-chefe dessas “músicas ainda muito boas” é um cover.

“‘Riding with the Angels’ era um lado B do cantor Russ Ballard desenterrado pelo produtor Tony Platt […] Ele decretou que deveria ser o primeiro single. Parecia algo bem simples e direto. Fiz dois ou três takes.

Foi durante a gravação dessa música em específico que Bruce descobriu que tinha uma voz.

“‘Não. Afina tudo alguns tons acima’, disse Tony. Então começou. Eu forçava a voz e minha cabeça latejava. O guincho em falsete tornou-se irrelevante, pois o alcance natural da minha voz estava esticado até o limite. Minha casa de máquinas produzia tanta força para atingir aquelas notas que o falsete simplesmente não tinha para onde ir. Soava fraco, e eu estava desorientado.”

Com o perdão do trocadilho, escutar “Shock Tactics” depois foi um choque para Bruce.

“Mais chocante ainda era ver que todo mundo amava minha nova voz, preferia-a a uma cópia de outra pessoa. Aquilo era eu, de fato. E eu odiei.”

Embora tenha saído por uma grande gravadora, a RCA, “Shock Tactics” não foi grande destaque nas paradas.

“Eles não davam a mínima para ‘aquela banda desconhecida da Inglaterra’. Pensaram: ‘Vamos só lançar o disco e pronto. Quem se importa?’.”

Curiosamente, o disco foi gravado em um estúdio adjacente ao que uma banda chamada Iron Maiden gravava seu segundo álbum, “Killers” (1981).

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Bruce Dickinson vai para o Iron Maiden

Em agosto de 1981, Thunderstick deixou o Samson. Para seu lugar, foi chamado Mel Gaynor. A saída do baterista foi seguida pela de Bruce, no mesmo mês, que assumiu a vaga deixada por Paul Di’Anno no Iron Maiden, banda que já conhecia.

“Havia um negócio chamado Crusade for Heavy Metal [Cruzada pelo Heavy Metal], do qual o Maiden fazia parte. Basicamente, eram bandas que tocavam no [clube] Music Machine, em Camden, toda semana […] O Samson era quase sempre o headliner, principalmente porque era nosso empresário que estava pagando pelos shows […] Assisti ao Maiden pela primeira vez por volta de 1980. Nós éramos a banda principal, mas eles apareceram com uma galera, e o local ficou lotado de gente que pirou ao escutá-los tocar.”

Assistindo do fundo da casa, assimilando tudo que rolava no show, ele pensou:

“Aquilo era o mais puro estilo Deep Purple. Lá estava [o guitarrista] Dave Murray, obviamente influenciado por Ritchie Blackmore, e a bateria [de Clive Burr] soava como Ian Paice. Não reparei no baixista, mas vi o vocalista e questionei: ‘Hummm… Não estou entendendo por que ele está aí’ […] Naquele momento, lembro-me de ter pensado: ‘Gostaria de cantar nessa banda. Quer saber, eu VOU cantar nessa banda! Eu SEI que VOU cantar nessa banda!’.”

Em 29 de agosto de 1981, o Samson foi uma das atrações do segundo dos três dias do Reading Festival, tocando no mesmo palco que Atomic Rooster, Billy Squier, Gillan, Jackie Lynton, Lionheart, Parachutes, Rose Tattoo, The Sensational Alex Harvey Band, Trust e Vardis.

A banda se saiu muito bem, recebendo boas críticas e tudo o mais, chegando até a lançar um álbum ao vivo daquele show. Mas ao sair do palco do Reading, Bruce ouviu falar que duas presenças ilustres estavam vagando no backstage do festival.

“Descobri que, naquele dia, Rod [Smallwood, empresário do Iron Maiden] e Steve [Harris, baixista do Iron Maiden] tinham vindo do sul da França especificamente para assistir ao Samson […] Rod foi direto ao ponto: ‘Queremos lhe dar a chance de fazer um teste [para o Iron Maiden]’. Respondi que tudo bem. Mas, como era bem confiante na época, provoquei: ‘Mas, quando cantar para vocês, vou conseguir o emprego; daí vamos ter de falar sobre o que vai acontecer quando eu entrar na banda’. Rod respondeu: ‘É melhor você voltar conosco para o hotel’.”

O teste de Bruce ocorreu no dia seguinte ao Reading; show que acabou sendo seu último no Samson. Assim que chegou para ser testado, o vocalista percebeu que seria algo totalmente diferente de tudo o que já tinha vivido até ali.

“Eles tinham roadies. Tinham tudo. Pensei: ‘Certo. Não vai ter erva rolando direto no fundo do ônibus durante a turnê’. Claro que houve aos montes depois, mas, quero dizer, era uma vibe completamente diferente do Samson. Ponderei: ‘Agora, como vou tocar com gente grande, preciso aprender as regras de gente grande’.”

Bruce cantou “Prowler”, “Sanctuary”, “Running Free”, “Remember Tomorrow” e “Murders in the Rue Morgue”, e todos reconheceram de imediato a qualidade do vocalista.

“E foi isso. Saímos do estúdio, ficamos terrivelmente bêbados, e eu estava dentro do Iron Maiden.”

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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