Entrevista: Nasi expõe raízes blueseiras e recorda os áureos tempos da MTV Brasil

Prestes a se apresentar com o Ira! no Best of Blues and Rock, cantor detona ainda a música atual e a realidade das plataformas digitais: “um lixo”

Com uma carreira musical que abrange décadas, Nasi solidificou seu lugar como uma figura central no cenário do rock nacional. Desde o surgimento do Ira!, ele cativa os fãs com sua voz poderosa, letras marcantes e presença de palco como a de poucos.

Ao longo dos anos, o Ira! teve inúmeros sucessos e se estabeleceu como um pilar da geração oitentista. É munido dessa certeza que o grupo completo por Edgard Scandurra (guitarra), Johnny Boy (baixo) e Evaristo Pádua (bateria) promete levar sua energia contagiante ao palco do próximo festival Best of Blues and Rock, que acontece no Parque Ibirapuera, em São Paulo, nos próximos dias 2, 3 e 4 de junho (o grupo se apresenta no último dia; ingressos seguem à venda).

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De sua casa, acompanhado de uma taça de vinho, Nasi respondeu às perguntas de IgorMiranda.com.br. Confira:

“Peguei um disco de um tal de Muddy Waters e pirei”

Embora faça parte de uma das bandas seminais do rock nacional, Nasi revela que o blues é um fundamento muito importante no seu panorama musical. Ele conta que gosta do gênero desde que era adolescente e descobriu o que ainda hoje é um dos seus guitarristas preferidos:

“De imediato comecei a ouvir Johnny Winter. E, você sabe, o blues texano tem uma pegada meio rock. Por isso que eu, adolescente, adorei.”

Mas Winter foi apenas a porta de entrada. Na sequência vieram outros nomes.

“Um dia peguei um disco de um tal de Muddy Waters no qual estava escrito ‘Produzido por Johnny Winter’. Era o ‘Hard Again’ (1977). Aí eu pirei de vez e tratei de descobrir todos: Howlin’ Wolf, Willie Dixon, Junior Wells, Buddy Guy…”

A longeva paixão pelo blues se materializou na criação do projeto paralelo Nasi e os Irmãos do Blues. Tudo começou, segundo ele, em descompromissadas jam sessions numa extinta casa de shows de São Paulo capital:

“Todas as segundas-feiras, no antigo Aeroanta, rolava as Aerojams. As pessoas iam até lá e faziam jams. Um dia eu fui fazer uma de blues, chamei uns amigos e a isso dei um nome inspirado nos Blues Brothers; não no filme em si [lançado no Brasil como ‘Os Irmãos Cara-de-Pau’, de 1980], mas nos Blues Brothers originais, que era como Junior Wells e Buddy Guy eram conhecidos. Foram várias jams com vários músicos, dei várias canjas. Até que o Peninha me propôs gravar um disco ao vivo em estúdio com aquele clima de bar, de pub, e foi aí o início da minha carreira solo [com o disco ‘Uma Noite Com… Nasi e os Irmãos do Blues’, de 1993].”

Carreira solo essa que Nasi define como “não-purista” em razão da amplitude de gêneros que mistura em seus trabalhos. Mas por mais diversificados que sejam, todos os lançados até hoje possuem algo em comum:

“Todos os meus discos têm blues, [Porque] blues é o que ouço em casa, sempre. Por mais que eu ame The Clash, não ouço mais meus discos do The Clash. Quando chego em casa, quero algo mais ‘easy listening’. [Risos]”

Ao que tudo indica, o catálogo de Nasi está prestes a ser ampliado com seu disco mais musicalmente plural. Ainda sem título ou data de lançamento definidos, o trabalho contará, entre outras coisas, com “uma versão blues de um clássico do Ira!, uma composição blueseira inédita e também [uma regravação de] uma canção do Zé Rodrix”. Mas o que mais chamará a atenção não é o repertório. De acordo com o cantor:

“Esse disco, diferente de todos que já fiz, não terá uma banda fixa, mas está sendo gravado com várias bandas. É como se fosse um disco de intérprete, entende? [Do ponto de vista musical, vai ter] Blues, R&B, soul music, rock ‘n’ roll. Vai ter uma versão em português para um clássico do MC5. Minha carreira solo eu levo assim: procuro referências clássicas, mas pode ser que um dia eu faça um disco experimental doidão desses que ‘véio’ faz, quem sabe? [Risos.]”

“Sem MTV, o rock brasileiro morreria nos anos 1990”

Compartilho com Nasi que, tendo 33 anos, meu primeiro contato com a música do Ira! foi no começo dos anos 2000; primeiro por conta do álbum “MTV ao Vivo: Ira!” (2000), depois, pelo “Acústico MTV”. O cantor reconhece que o extinto canal foi um divisor de águas não só na carreira da banda, mas para o rock brasileiro como um todo.

“O mangue beat, todo o seu talento e a sua genialidade, não teria acontecido se não fosse a MTV Brasil. Não seria uma música que dominaria as rádios de pop/rock ou de qualquer outro gênero. O que tocava em rádio nos anos 1990? Sertanejo, lambada, pagode. Se não tivesse a MTV, o rock brasileiro tinha morrido nos anos 1990. A MTV deu esse gás não só para a geração de 1980, mas para a geração de 1990, também.”

Ele também salienta o fenômeno dos “Acústico MTV”, que no Brasil tomaram uma proporção completamente diferente da dos Estados Unidos.

“No Brasil se transformou num fenômeno porque o violão é o rei da música brasileira. Chorinho, samba, MPB, bossa nova. Então, o brasileiro, quando vê aqueles rock, como os do Ira!, sendo tocados em violão, fez com que [o ‘Acústico MTV’] virasse mainstream.”

Turnê de despedida do Skank, turnê de reunião dos Titãs, turnê comemorativa de 25 anos do Jota Quest. Três empreitadas bem-sucedidas como há tempos não se via no cenário rock nacional. Para Nasi, isso sinaliza somente uma coisa:

“Que a música de hoje está uma m#rda! [Risos] Está um lixo, cara! Sabe aquela piada, ‘Antigamente era pior’? Porque criticavam muito o rock nacional nos anos 1980. Ouvi do Nelson Motta que ‘o rock nacional é a aids da música brasileira’. Então eu digo para você, antigamente era pior, depois foi piorando [Risos.]”

Considerando que haja interesse por parte do Ira! em pegar uma carona nessa onda de revivals, ano que vem o primeiro compacto da banda completa 40 anos. Por mais que o lançamento do box “Demos 83-84” (2022) possa ser tomado como um indicativo de que algo maior está nos planos, Nasi revela que não gosta muito de viver de passado. Até hoje, a única turnê de caráter comemorativo do Ira! foi em razão do trigésimo aniversário de seu álbum conceitualmente mais importante, “Psicoacústica”, de 1988, que…

“Foi eleito um dos cem discos mais importantes da história da música brasileira pela Rolling Stone. Então, isso teve um peso para a gente. E foi um disco que todo mundo menosprezou na época; boa parte do público não entendeu, a crítica falou que estávamos sendo pretensiosos com esse negócio de [incluir] maracatu, pandeiro etc. E não vendeu bem. Vendeu menos da metade do anterior [‘Vivendo e Não Aprendendo’, de 1986]. Precisou o tempo passar para a gente colher os frutos. Hoje, é um disco cultuado, e isso para um artista é muito legal.”

Nasi não descarta cair na estrada em tom celebratório, mas ressalta que prefere “números redondos; quarenta, cinquenta, sessenta anos”. Também dá o seu palpite em relação ao futuro de uma das bandas citadas logo acima:

“Sou amigo do Samuel [Rosa], e acho que eles [Skank] um dia vão voltar. Eles terminaram de uma maneira tão certinha; certinha no bom sentido, de não ter tido escândalo, briga, taco de beisebol, diferente do Ira! [Risos] O Skank é uma banda que extrapolou todos os limites de sucesso dentro do pop/rock. Acho que eles logo vão ter um apelo, porque [assim como foi em relação aos anos 1980], agora começa o saudosismo em relação aos anos 1990.”

“O que se ganha no streaming é um lixo”

Nesse sentido, o pensamento de Nasi vai muito além do ponto de vista estritamente musical. Para ele, toda a dinâmica da indústria declinou perante o advento tecnológico das plataformas digitais.

“Faço minhas as palavras do Fred Zero Quatro [cantor da banda Mundo Livre S/A]: ‘Saudade das gravadoras’. Era exploração? Era. Mas o Vale do Silício não te explora também? Explora pra caramba! O que se ganha no streaming é um lixo, cara! Um lixo! Como você vai incentivar alguém a ser compositor, a ser músico?”

Sendo assim, era mais fácil viver de música antigamente? O cantor reconhece a dificuldade de seus tempos, mas aponta que jovens bandas sequer têm onde se apresentar nos dias de hoje.

“No nosso tempo era difícil. Não fazíamos ideia do que o rock ia se tornar. Tocar rock era dar desgosto para a família. Larguei a faculdade de História para ser músico. E ainda tinha a ditadura. A gente tinha que submeter as letras à censura. [A música] ‘Gritos na Multidão’, que falava, ainda que metaforicamente, sobre as greves [de 1978-1980 no ABC Paulista], não passou na censura federal. Por isso o primeiro compacto do Ira! atrasou. A polêmica não foi ‘Pobre Paulista’, mas ‘Gritos na Multidão’. Mas hoje, se um garoto forma uma banda, onde ele vai tocar? No Baixo Augusta?”

Digo que talvez, se for uma banda cover. Estarrecido, Nasi chama de “praga” esses “caras parecidos com o Axl Rose, com o Freddie Mercury” que “não têm uma música própria”.

“Lá nos idos de 1982, 1983, quando tocávamos em pequenos bares, já tínhamos músicas próprias. A gente tocava covers também; toda banda começa assim, não só no Brasil. Agora, viver disso? Por favor, né? Não quero parecer arrogante, mas cadê a criatividade? Às vezes, no camarim, a gente vê as bandas que abrem para o Ira!: Legião Urbana cover, Guns N’ Roses cover… Não é possível que os caras não tenham uma música própria para colocar no meio disso daí!”

“Amigos amigos, canelas a parte!”

É impossível para um órfão da antiga MTV Brasil deixar passar em branco o fato de Nasi ter sido um dos participantes mais icônicos do Rockgol, campeonato de futebol disputado por músicos, exibido anualmente pelo canal. Apelidado de Wolverine Valadão pelos apresentadores Paulo Bonfá e Marco Bianchi, o cantor conta que era, sim, uma “loucurada de ‘brother’”, mas que…

“Quando o juiz apitava, era que nem no futebol: amigos amigos, canelas a parte! [Risos] Acho que foi uma das coisas mais incríveis que a MTV Brasil criou. Imagina se houvesse na Inglaterra? Seria incrível os caras do Iron Maiden enfrentando o Motörhead. Mas o mais legal [do Rockgol] era que ele despia o artista de sua pompa. Caras que em cima do palco dão um show e, chegando lá, mostram que são uns p#ta de uns pernas-de-pau!”

Fora o intercâmbio musical, pelo qual Nasi demonstra entusiasmo.

“A gente, da geração 1980, jogava junto com aquela galera mais nova, de 1990. Quando você está na estrada, não cruza com frequência com seus amigos, a menos que dê muita sorte de tocar num festival em horário próximo ao deles. Mas lá [no Rockgol] havia toda uma miscigenação; pessoal do rap, do heavy metal, todo mundo lá fumando um, tomando uma cerveja, conversando. Depois que acabou o Rockgol, isso nunca mais aconteceu.”

“Falei para o Buddy Guy que eu canto!”

Para Nasi, é “muito legal, bacana para nós” o Ira! estar num festival como o Best of Blues and Rock 2023 por ter à frente “um dos maiores guitarristas da história do Brasil, o Edgar Scandurra”. Porém, também confessa que será uma honra tocar no mesmo palco que…

“Tom Morello, que, na minha opinião, depois do [Jimi] Hendrix, foi o cara que reinventou a guitarra. Não espere do Tom Morello um ‘solo clássico’, não. Fora o Steve Vai.”

Nasi promete um set especial e “quem sabe até uma homenagem a um grande guitarrista do passado”. Quanto a possíveis canjas, como as do tempo de Aeroanta, ele diz:

“Já me ofereci para a produção do Buddy Guy! Falei que se tiver ‘Got My Mojo Working’ ou ‘Hoochie Coochie Man’, eu canto! [Risos.]”

Serviço – Best of Blues and Rock 2023

  • Datas: 02 a 04/06/2023
  • Local: Auditório Ibirapuera – Platéia Externa
  • Endereço: Avenida Pedro Álvares Cabral, 0 – Ibirapuera – São Paulo – SP – 04094-050
  • Classificação etária: 16 anos, menores será permitida a entrada se comprovadamente acompanhados dos pais ou responsáveis legais.
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Atrações:

02/06/2023

  • 15h40 – 16h40: Nanda Moura
  • 17h10 – 18h10: Malvada
  • 18h40 – 20h: Extreme
  • 20h30 – 22h: Tom Morello

03/06/2023

  • 14h20 – 15h20: Dead Fish
  • 15h40 – 16h40: Artur Menezes
  • 17h10 – 18h10: The Nu Blu Band (com Carlise Guy)
  • 18h40 – 20h: Steve Vai
  • 20h30 – 22h: Buddy Guy

04/06/2023

  • 13h50 – 14h50: Day Limns
  • 15h20 – 16h20: Ira!
  • 16h50 – 18h10: Goo Goo Dolls
  • 18h40 – 20h: Buddy Guy
  • 20h30 – 22h: Tom Morello

Ingressos:

  • Ingressos online no site Eventim
  • Bilheteria oficial – sem cobrança de taxa de serviço: Estádio Morumbi – Estádio Cícero Pompeu de Toledo | Endereço: Bilheteria 05 – Próximo ao portão 15 – Av. Giovanni Gronchi, 1.866 | Funcionamento: Terça a sábado das 10h às 17h | Não tem funcionamento em feriados, dias de jogos ou em dias de eventos de outras empresas.
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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

1 COMENTÁRIO

  1. Adoro IRA! mas reprovo atitude de Nasi e Edgar, de desprezar Gaspa ( puta músico) e André, não sabemos de toda a história, pode até ser que eles não mereçam tantos créditos, e lendo as declarações de todas as partes, me parece que não foi justa a separação. Gênios não são fáceis de conviver, scandurra é um deles, mas nazi definitivamente não é, defende seu espaço custe o que custar nem que seja a base de facas. Da maneira como me parece que foi, houve injustiça com Gaspa e Jung

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