Desfalcado, Katatonia entrega show curto e engessado em São Paulo

Ausência do guitarrista cofundador Anders Nyström e uso de muitas bases pré-gravadas foram destaques negativos de apresentação que quase lotou o Carioca Club

É difícil dizer com precisão a falta que um músico pode fazer em uma banda. Sem poder contar com seu guitarrista cofundador Anders Nyström neste início de ano, o Katatonia optou por vir à América Latina como um quarteto. Infelizmente, tocar ao vivo com um a menos comprometeu o resultado.

Se em suas duas apresentações anteriores – em 2011 e 2016, ambas também em São Paulo – o Katatonia construiu uma reputação capaz de atrair um público que chegou perto de lotar o Carioca Club e se emaranhou à frente da banca de merchandising, o único show no Brasil da atual turnê, realizado na última noite de sábado (25), foi diferente.

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*Fotos de Gustavo Diakov / @xchicanox. Caso as imagens apareçam pequenas, atualize a página.

Breve e pouco espontâneo

O curto repertório apresentado pelos suecos em todas as datas da turnê latino-americana – – por volta de uma hora e dez minutos – não foi muito diferente do que havia rolado na Europa. Por lá, o guitarrista Nico Elgstrand (ex-Entombed) preencheu a lacuna deixada por Nyström, ausente por problemas familiares.

Foto: Gustavo Diakov

Em São Paulo, a banda utilizou muitas bases pré-gravadas para reproduzir boa parte dos arranjos de guitarra. Tal opção tornou sua exibição engessada, sem espontaneidade, quando não artificial, ao se ver músicos mal encostando em seus instrumentos enquanto o sistema de som reproduzia várias nuances sonoras que dão identidade ao pesado rock depressivo dos suecos.

Foto: Gustavo Diakov

Não ajudou também a escolha do repertório, pouco representativo para uma banda com mais de trinta anos de existência e doze álbuns de estúdio. Mesmo habitualmente deixando de lado a fase inicial doom/death de “Dance of December Souls” (1993) e Brave Murder Day (1996), sua versátil discografia foi minimizada numa escolha mais coesa de canções curtas, dando pouca variedade de atmosferas à noite.

Foto: Gustavo Diakov

Apesar da boa repercussão de crítica e público, seu trabalho mais recente “Sky Void of Stars” mal havia completado ainda dois meses de seu lançamento. Pouco tempo para que suas cinco músicas executadas já tivessem sido assimiladas pelos fãs. A reação foi morna mesmo às faixas de maior animação, como “Birds” ou “Atrium”.

Fazendo o possível

Começando o show com duas faixas novas, “Austerity” e “Colossal Shade”, só mesmo a minoria dos seguidores mais fanáticos – que não eram poucos – demonstraram empolgação além de algumas palmas. Precisaram vir duas músicas mais antigas, “Lethean”, de “Dead End Kings” (2012), e “Deliberation”, de “The Great Cold Distance” (2006), para acender o público, que se manteve mais participativo pelo resto da noite.

Sobre um palco quase sempre esfumaçado e contrastado a luzes fortes, o vocalista Jonas Renkse, outro cofundador do Katatonia e seu principal compositor, era visível apenas uma como silhueta de jaqueta preta e cabelo na cara o tempo todo.

Foto: Gustavo Diakov

Renske, porém, esteve animado e se comunicou feliz com o público entre as músicas. Agradeceu à boa resposta que as músicas recebiam, apesar de em nenhum momento ter mencionado a ausência de um membro tão caro à banda quanto Anders Nyström.

Foto: Gustavo Diakov

O baixista Niklas Sandin fazia redemoinho com sua franja enquanto segurava o tempo das músicas ao lado do discretíssimo baterista Daniel Moilanen. Algumas vezes eram auxiliados por batidas eletrônicas, mas também mostraram competência em levadas mais intrincadas e pesadas, como em “Forsaker”, única faixa executada de “Night is the New Day” (2009), para resposta bastante empolgada do público.

Foto: Gustavo Diakov

Roger Öjersson, o guitarrista que sobrou, fez o que pôde. Tocou suas bases, ajudou com alguns vocais e teve seu brilho em alguns solos – principalmente em “Untrodden”, faixa do penúltimo disco, “City Burials”, lançado em 2020, que encerrou a primeira parte da apresentação sem tanta empolgação do público.

Foto: Gustavo Diakov

Antes, a balada “Old Hearts Fall”, de “The Fall of Hearts” (2016), e principalmente “My Twin”, também de “The Great Cold Distance”, haviam arrancado reações mais efusivas e alguns coros da plateia, que cantou sozinho o último refrão desta última, no momento de maior empolgação da noite.

Já acabou?

Após uma curta pausa para o bis, a banda logo retornou ao palco com “July”, terceira música da noite saída de “The Great Cold Distance”, que arrancou boa reação dos fãs, mas abaixo das anteriores do mesmo álbum.

Para terminar a apresentação, o Katatonia executou a única faixa representando seu celebrado disco “Viva Emptiness”, de 2003: “Evidence” encerrou com brilho o breve show. O público, incrédulo, ficou minutos pedindo por mais uma música antes de aceitar o final e voltar a lotar a barraca de merchandising.

Foto: Gustavo Diakov

Katatonia – ao vivo em São Paulo

  • Local: Carioca Club
  • Data: 25 de março de 2023
  • Turnê: Twilight Burials

Repertório:

  1. Austerity
  2. Colossal Shade
  3. Lethean
  4. Deliberation
  5. Birds
  6. Behind the Blood
  7. Forsaker
  8. Opaline
  9. Buildings
  10. My Twin
  11. Atrium
  12. Old Heart Falls
  13. Untrodden

Bis:

  1. July
  2. Evidence

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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

2 COMENTÁRIOS

  1. O Anders faz muita falta ele junto do Jonas são a alma da banda. Se não me engano a ultima vez que vieram foi em 2016 a 7 anos atrás, quase fui nesse porém não deu, pelo visto só tocam no carioca clube em São Paulo, quem é de outro estado não tem essa sorte

  2. Concordo muito contigo. Sintetizou bem o que foi o show. Estive em 2011 e essa apresentação foi muito protocolar. Talvez por ser o último show da turnê, banca cansada, fizeram por cumprir tabela. Uma pena….

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