Crítica: “Blonde” é nada mais do que um softcore dramático

Netflix lança filme mais polêmico do ano; não fosse pela performance da atriz Ana de Armas, longa só conseguiria ofender a memória de Marilyn Monroe

Após praticamente três anos, finalmente podemos assistir “Blonde”. O filme baseado no romance homônimo de Joyce Carol Oates – e que foi gravado lá em 2019 – se propõe a narrar a história de Marilyn Monroe, um dos maiores ícones da história do cinema.

Porém, diferente do que parte do público possa imaginar, este não é um longa biográfico. A começar pelo livro utilizado para inspiração, que declaradamente mistura fato e ficção.

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Na verdade, “Blonde” não é um filme sobre nada laém de sexo e dor. O caminho tomado pelo diretor e roteirista Andrew Dominik (do excelente “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”) é o mais equivocado possível, desde a leitura do romance que serviu de base até suas declarações à imprensa.

Quem foi Norma Jeane?

A própria Joyce Carol Oates pede que o livro “Blonde” seja considerado como ficção. Forte conhecedora da vida da atriz, a escritora trouxe uma história fictícia onde contaria a vida de Norma Jeane Mortenson (nome real de Marilyn Monroe) por meio de um olhar extremo e exagerado. Fatos e boatos foram elevados à décima potência com intenção de apresentar um retrato doloroso sobre a trajetória da artista, falecida em 1962 aos 36 anos.

A questão que trava o longa de Andrew Dominik não é ser influenciado por um livro que notadamente não é biográfico. O problema está no fato de o cineasta ter tido uma leitura muito ruim da obra de Oates. Ou não entendeu a profundidade da autora.

Apesar de toda dor e sofrimento que o livro traz, há, ainda assim, camadas que constroem a personalidade de Marilyn de modo peculiar. Fatos como a ausência de um pai e o desenvolvimento de uma dependência à figura masculina são retratados com maestria na obra literária. Já na cinematográfica, a profundidade é de um pires.

A sensação deixada é de que Andrew, inspirado pelo livro, apenas decidiu fazer um “softcore dramático” tendo Marilyn Monroe como protagonista. O resultado é um filme de 2 horas e 46 minutos que só traz a dor e o sexo da história. Nada além.

Ao menos, é lindo de se ver

Outro problema de “Blonde” está no que chamo de sua “Mankzatização”. Em 2020, a Netflix lançou o filme “Mank”, dirigido pelo lendário David Fincher (“Seven”). A obra acompanha a vida de Herman J. Mankiewicz, roteirista do maior longa-metragem já feito: “Cidadão Kane”.

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O resultado é uma verdadeira carta de amor aos cinéfilos. Em “Mank”, Fincher retrata de forma impecável o período do cinema das décadas de 1930 e 1940. Só tem um problema: para mim, que amo cinema e trabalho na área, o filme é ótimo; para o público geral, é chato. Além de arrastado e devagar, espanta muita gente por ser tratado em preto e branco.

Peculiarmente, “Blonde” tem nisso seu único ponto positivo ao mesmo tempo em que sofre de tal problema. Como “Mank”, o longa de Andrew Dominik é muito belo de se ver. Fotografia, caracterização, trilha sonora… algumas reconstruções de cenas nos fazem até questionar se estamos assistindo a Ana de Armas ou à própria Marilyn Monroe. Mas para por aí, tendo em vista a opção por fazer da trama um mero softcore.

Obviamente, o filme sobre Monroe não cansa tanto quanto “Mank” em função das cenas fortes. Ainda assim, é uma obra de quase 3 horas de duração, onde a protagonista só aparece sofrendo ou sem roupa. Cansa.

Alguns aspectos técnicos também ficaram aquém. O primeiro está na inexplicável decisão em transitar entre o colorido e o preto e branco. O segundo está nas diversas mudanças de enquadramento de tela, também difíceis de se compreender. Pareceu como um grito desesperado de um diretor que tenta encontrar alguma inovação a todo custo.

O Oscar de Ana de Armas

Ana de Armas é uma atriz fora de série. Em “Blonde”, foi além: enquanto direção e roteiro só lhe deram dor e nudez, a intérprete conseguiu de alguma forma trazer a profundidade necessária para o papel. É ela quem salva a experiência – e isso pode lhe render um Oscar, já que não vejo o prêmio em outras mãos que não sejam as dela até o momento.

Por outro lado, há um ponto sensível na carreira da ainda jovem Ana de Armas. Na gigante maioria dos filmes feitos pela atriz cubana de 34 anos, ela surge nua. É compreensível a dificuldade existente para atores não-americanos, mas a

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uma crítica a continuação da carreira de atriz da ainda jovem de 34 anos. Conheço todos os filmes de Ana e em 90% deles, a atriz está nua. Até na versão 3D de “Blade Runner 2049”. Entendo o quanto o mercado é difícil para atores não Americanos, mas em “Blonde”, isso chega a um patamar nunca visto. Talvez esteja na hora de mudar.

Dirigido pela pessoa errada

São visíveis os erros cometidos por Andrew Dominik em “Blonde”. Dá para entender que ele quis passar uma mensagem sobre como a mulher era vista nesta indústria como um mero pedaço de carne. Ainda assim, a ideia foi toda mal desenvolvida.

Certa vez, Denzel Washington trouxe um pensamento interessante sobre o que talvez tenha sido o grande erro de tudo isso. O ator disse que muito provavelmente Martin Scorsese faria um excelente filme sobre o Holocausto, já que é um grande diretor, mas não seria o nome mais indicado. Por ser um descendente de Sicilianos, Scorsese não tem o genocídio cometido pelos nazistas em sua história. Outro gigante cineasta, Steven Spielberg, é judeu e teve contato direto com isso. Logo, sua essência cultural o permite dar um pequeno passo além de Martin nesse sentido. É assim que nascem obras como “A Lista de Schindler”.

Sou contra a ideia de restringir histórias a diretores por gêneros ou etnias – Pablo Larraín recentemente fez dois ótimos filmes sobre mulheres (“Jackie” e “Spencer”) –, mas acredito que a ideia descrita por Denzel Washington se aplicaria a “Blonde”. Era um longa para ser escrito e dirigido por uma mulher. Faltou tato, faltou ir além do sexo e do sofrimento.

A Netflix estará no Oscar com “Blonde”, isso é inegável – não à toa, o defini como uma obra para cinéfilos, já que arrepia ao nos transportar à era de ouro da sétima arte. Mas é uma decepção. Para a maioria do público, é o tipo de longa para se dividir em alguns dias, pois não há como suportá-lo numa tacada só.

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Raphael Christensen
Raphael Christensenhttp://www.igormiranda.com.br
Ator, Diretor, Editor e Roteirista Formado após passagem pelo Teatro Escola Macunaíma e Escola de Atores Wolf Maya em SP. Formado em especialização de Teatro Russo com foco no autor Anton Tchekhov pelo Núcleo Experimental em SP. Há 10 anos na profissão, principalmente no teatro e internet com projetos próprios.

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