Warrant e os méritos do álbum “Cherry Pie”, que vão além do hit que o dá nome

Jani Lane, vocalista do grupo, era talentoso compositor e começava a buscar por alguma profundidade nesse disco

O segundo álbum de estúdio do Warrant é, também, o trabalho de maior sucesso da banda: “Cherry Pie”, lançado em 11 de setembro de 1990.

O disco entrou para a cultura popular americana, especialmente à época, graças à festeira música que o intitula. O videoclipe da faixa chama atenção por causa da atuação da modelo Bobbie Brown, que se casaria com o vocalista do grupo, Jani Lane, naqueles tempos.

Não dá para negar que essa música é irresistível. Curiosamente, a estrutura da letra foi composta em 15 minutos, por Lane, em um guardanapo. Uma composição boba, mas que gruda na mente, seja pelos versos fáceis, pela melodia forte ou pelo refrão de destaque.

Tornou-se um hit, mas, ao mesmo tempo, representou uma maldição para Jani. O vocalista, falecido em 2011, refletiu em entrevista à VH1:

“De repente, o álbum se chama ‘Cherry Pie’, a música se chama ‘Cherry Pie’, estou participando de concursos de comer torta de cereja… e meu legado é ‘Cherry Pie’. Tudo sobre mim é ‘Cherry Pie’. Virei o cara da ‘Cherry Pie’. Eu poderia atirar na p***a da minha cabeça por ter criado essa música.”

A insatisfação do cantor é, de certo modo, compreensível. A carreira do Warrant vai além desse hit – e o próprio álbum em que ela está inserida também oferece muito mais do que a famosa música que o intitula.

O álbum

O Warrant já desfrutava do sucesso de seu álbum de estreia, “Dirty Rotten Filthy Stinking Rich” (1989). Faixas como “Heaven” e “Down Boys” fizeram bastante sucesso na época e elevaram o patamar do grupo.

Dessa forma, um investimento ainda maior foi feito para a gravação do álbum seguinte. Com pompas de superprodução e participação de músicos como C.C. DeVille (Poison), Fiona e a dupla Bruno Ravel e Steve West (Danger Danger), o grupo não poderia decepcionar.

Como um todo, “Cherry Pie” soa muito bem. Suas músicas trazem os timbres grandiosos do hard rock oitentista, mas não pecam pelo exagero de agudos ou reverbs intensos – talvez, o grande problema do disco antecessor.

Na produção, Beau Hill fez um bom trabalho ao lapidar os músicos, que, reconhecidamente, não são mestres em seus instrumentos. Tudo foi trabalhado para destacar a verdadeira estrela da companhia – o próprio Jani Lane, o compositor de praticamente todo o material apresentado.

Desta vez, as letras de Lane eram mais fortes que as do álbum passado. Há letras de cunho mais profundo, como a crítica “Uncle Tom’s Cabin” e a triste “I Saw Red”, que trata de um colapso nervoso sofrido pelo cantor após flagrar sua namorada na cama com o seu melhor amigo. Até aquelas que parecem mais bobinhas, como “Blind Faith”, tratam de temas mais corriqueiros sem tanta superficialidade.

O instrumental do Warrant, por sua vez, sempre foi básico. Acompanhava bem o que era proposto. Há boatos de que Mike Slamer, integrante de bandas como Streets e Steelhouse Lane, teria gravado as guitarras desse disco – e do anterior – no lugar de Erik Turner e Joey Allen. Os músicos da banda negam que Slamer tenha feito todo o trabalho, mas admitem que “algumas coisas” foram feitas por ele.

Fora as faixas já citadas, há destaques menos óbvios em meio à tracklist. Músicas como “Mr. Rainmaker” e “Bed of Roses”, por exemplo, impressionam por soarem tão bem produzidas. A pesada “Sure Feels Good To Me” e a climática “Song And Dance Man” também convencem. É um raro caso de um disco de hard rock oitentista que, do início ao fim, desce bem.

Auge e queda

O Warrant cresceu ainda mais em termos de popularidade com “Cherry Pie”. O álbum chegou ao sétimo lugar das paradas dos Estados Unidos, onde, até os dias de hoje, vendeu dois milhões de cópias. Tanto a faixa-título quanto “I Saw Red” atingiram o décimo lugar, em momentos diferentes, dos charts americanos.

O single “Cherry Pie” representou um raro caso de sucesso, no que diz respeito ao hard rock oitentista, fora da América do Norte. A canção chegou ao 35º lugar das paradas do Reino Unido, 37º na Nova Zelândia e 6º na Austrália.

Foram realizadas turnês abrindo para o Poison (encerrada antes da hora após uma briga entre as duas bandas) e para David Lee Roth (findada antes do esperado depois de Jani Lane quebrar várias costelas em um stage dive) até que, em 1991, o grupo fez sua primeira turnê como headliner: a “Blood Sweat and Beers”, junto de Firehouse e Trixter.

Esse sucesso não foi repetido nos trabalhos seguintes. “Dog Eat Dog”, lançado em 1992, é um bom álbum – tem toda a densidade e até o peso que se esperava da banda. Porém, o momento de mercado já não era tão bom, pois a indústria fonográfica estava com seus olhos voltados ao grunge e ao rock alternativo.

Há quem diga que por esse e outros motivos, Jani Lane se afundou em um buraco do qual nunca conseguiu sair: o alcoolismo, que tirou a sua vida em 2011, quando tinha apenas 47 anos. Como legado, fica “Cherry Pie” – o álbum, não a música -, que revela um pouco de sua capacidade enquanto cantor e compositor.

Warrant – “Cherry Pie”

Jani Lane (vocal)
Joey Allen (guitarra)
Erik Turner (guitarra)
Jerry Dixon (baixo)
Steven Sweet (bateria)

Músicos adicionais:

C.C. DeVille (guitarra)
Mike Slamer (guitarra)
Scott Warren (teclados)
Bruno Ravel (backing vocals)
Steve West (backing vocals)
Fiona (backing vocals)
Alan Hewitt (órgão, piano, cordas)
Beau Hill (órgão, banjo, arranjos, teclados)
Paul Harris (piano, cordas)
Juke Logan (gaita)

  1. Cherry Pie
  2. Uncle Tom’s Cabin
  3. I Saw Red
  4. Bed of Roses
  5. Sure Feels Good to Me
  6. Love in Stereo
  7. Blind Faith
  8. Song and Dance Man
  9. You’re the Only Hell Your Mama Ever Raised
  10. Mr. Rainmaker
  11. Train, Train (Blackfoot cover)

* Texto publicado originalmente em 2015, agora com alguns ajustes.

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