Como o Red Hot Chili Peppers mudou e sobreviveu em “Blood Sugar Sex Magik”

Gravado em mansão mal-assombrada junto de produtor inicialmente questionado pelos integrantes, disco foi o ponto de virada na carreira da banda

Quem analisa o Red Hot Chili Peppers a partir da década de 1990, certamente, não imagina que a banda passou por anos bem mais difíceis no início da carreira. Esse momento durou até o lançamento de “Blood Sugar Sex Magik”.

Lançado em 24 de setembro de 1991 – mesmo dia em que “Nevermind“, do Nirvana, e “Badmotorfinger”, do Soundgarden -, o quinto álbum de estúdio da banda formada por Anthony Kiedis (voz), Flea (baixo), Chad Smith (bateria) e John Frusciante (guitarra) veio em um momento onde tudo poderia ter chegado ao fim. Sim: o Red Hot Chili Peppers estava no limite.

O grupo vinha de um sucesso mediano com seus quatro álbuns anteriores. O mais recente na época, “Mother’s Milk” (1989), que marcou as estreias de Frusciante e Smith, obteve uma repercussão razoável, mas não chegou a estourar. Nesse ínterim, a banda mudou de gravadora: saiu da EMI e partiu para a Warner Music. Ainda parecia um investimento de “risco”, já que os caras não engrenavam nas vendas de seus discos.

Para tentar dar uma guinada na carreira, a banda optou por chamar um produtor um tanto improvável para o novo álbum: Rick Rubin. O agora famoso profissional de estúdio vinha de trabalhos com artistas como Slayer, Danzig e grupos de hip hop – ou seja, nada que tivesse muito a ver com os Chili Peppers.

Negativo vs. positivo

O nome de Rick Rubin era praticamente incontestável àquela altura, mas nem todos os integrantes eram a favor de sua escolha para produzir o que viria a ser “Blood Sugar Sex Magik”. Em entrevista para a revista BAM, em 1991 (via Rolling Stone), Anthony Kiedis confessou a má impressão que o currículo do profissional causou de início.

“’Uau, Rick Rubin… não sei’, eu pensei. ‘Ele está com todas essas bandas negativas como Slayer e Danzig, o Red Hot Chili Peppers sempre lidou totalmente com energia positiva, nunca vai funcionar.’ Mas então você vai e conhece o cara, e você vê o quão legal ele realmente é.”

Por mais estranho que pareça, o receio era recíproco. Anos antes, ainda durante o período com o guitarrista Hillel Slovak, Rick Rubin quase produziu o Red Hot Chili Peppers – e, segundo ele contou à Rolling Stone, a situação era bem oposta à positividade da qual Kiedis tanto se orgulhava.

“Na década de 1980, eles estavam em péssima forma, com relação às drogas. Eu entrei na sala pensando: ‘isso é ruim’. Não queria fazer aquilo. Então, quando os encontrei para fazer ‘Blood Sugar…’, era como se fossem uma banda diferente, completamente no controle, prontos para fazer algo bom.”

Rick Rubin e a mansão mal-assombrada

Para gravar “Blood Sugar Sex Magik”, o Red Hot Chili Peppers foi a primeira banda a passar por uma experiência que tornaria Rick Rubin ainda mais célebre nos anos seguintes. Por dois meses, a banda viveu em uma casa do produtor, localizada em Laurel Canyon, Los Angeles, que tinha a fama de ser mal-assombrada.

A maioria deles topou a ideia. Anthony Kiedis, Flea e John Frusciante permaneceram os dois meses na casa, enquanto o baterista Chad Smith preferia ir embora de moto todas as noites. Frusciante, de forma contrária, gostou até demais daquela situação.

Em entrevista para a revista Interview, o guitarrista contou ter ouvido “barulhos sexuais” em um dos quartos onde dormiu. Suas impressões casam com a lenda de que uma mulher teria sido abusada e assassinada na mansão, em algum momento da década de 1930.

“Um dos quartos tinha uma vibe muito sexualmente espiritual e eu ouvi uma mulher sendo f***da lá um dia. Não me masturbei o tempo todo em que estivemos lá, porque estava tão focado na minha música, mas quando dormi naquele quarto, não conseguia resistir a tentação de me masturbar.”

A casa havia pertencido, em algum momento, ao famoso ilusionista Harry Houdini. As gravações de “Blood Sugar Sex Magik” acabaram virando um documentário, lançado já em 1992, com o título de “Funky Monks”.

Red Hot Chili Peppers ao trabalho

Com ou sem fantasmas sexuais, a temporada do Red Hot Chili Peppers na mansão de Rick Rubin rendeu bastante. O grupo esteve focado na música e algumas das novidades acabaram surtindo um efeito positivo, especialmente em relação à guitarra.

Obviamente, John Frusciante estava bem mais “relaxado”, como já vimos, tendo gravado seus solos em no máximo dois takes. Contou pontos o fato de o guitarrista não ter sido pressionado a adotar alguma sonoridade específica – diferentemente de “Mother’s Milk”, onde precisou adequar-se a uma pegada mais típica dos guitar heroes da década de 1980.

Por sua vez, Flea, famoso pelos slaps e virtuosismos no baixo, apostou em uma abordagem mais simples e direta. A responsável pela mudança na sonoridade dele foi Kim Gordon, baixista e vocalista do Sonic Youth.

Em entrevista à Guitar Player, em 1991, o músico do Red Hot contou que uma entrevista concedida por Gordon o fez repensar sua forma de tocar.

“Ela disse que amava o baixo funk, mas odiava a forma como os caras brancos o tocavam, porque eles transformaram aquilo nessa coisa de ‘macho’. Quando li aquilo, eu sabia que eu era responsável por essa tendência. Mas nesse álbum eu não faço nada disso – tento tocar de forma bela e simples. E espero que ela não me odeie, porque eu acho ela ótima.”

Há de se destacar, ainda, a qualidade das letras de Anthony Kiedis por aqui. Temáticas mias profundas começaram a ser trabalhadas, como “My Lovely Man”, um tributo a Hillel Slovak, falecido em 1988; “The Power of Equality”, que trata de machismo e racismo; “I Could Have Lied”, a respeito do relacionamento de Kiedis com a também cantora Sinéad O’Connor; e o mega-hit “Under the Bridge”, que aborda os problemas de saúde mental enfrentados pelo vocalista na época.

O resultado de “Blood Sugar Sex Magik”

Não há dúvidas: “Blood Sugar Sex Magik” é um grande acerto na carreira do Red Hot Chili Peppers. Em vários aspectos.

A qualidade do material é facilmente reconhecível em comparação aos álbuns anteriores, mas também o timing do lançamento acabou sendo muito bom: na época, o grunge e o rock alternativo estavam em ascensão no mainstream. Tudo isso fez com que as vendas acelerassem, a ponto desse disco ser, até hoje, um dos mais vendidos da carreira da banda.

O álbum alcançou o terceiro lugar nos Estados Unidos, vendendo 7 milhões de cópias no país, o que rendeu 7 discos de platina a eles. Além disso, o trabalho alcançou o topo das paradas no Canadá, Austrália e Nova Zelândia, e um ótimo 2º lugar nos Países Baixos. Ao todo, eles entraram no top 10 de nove países.

“Give it Away” foi o primeiro e principal single, seguido por “Under the Bridge”, “Suck My Kiss”, “Breaking the Girl” e “If You Have to Ask”. Quase todos acabaram se tornando hits, enquanto faixas como “The Power of Equality”, “My Lovely Man” e “Sir Psycho Sexy” estão entre as favoritas dos fãs.

Para o bem ou para o mal, “Blood Sugar Sex Magik” foi o ponto de virada para o Red Hot Chili Peppers. Durante a turnê, John Frusciante tornou-se dependente em heroína, o que comprometeu seriamente sua saúde mental. Ele saiu da banda, dando lugar a Dave Navarro, com quem foi gravado o disco “One Hot Minute” (1995) – material que, claramente, não acompanha o nível do antecessor.

Frusciante retornou para gravar outros álbuns clássicos, como “Californication” (1999) e “By the Way” (2002). São, claro, ótimos trabalhos, mas não é exagero dizer que o Chili Peppers nunca mais foi o mesmo após “Blood Sugar Sex Magik”.

* Texto desenvolvido em parceria por André Luiz Fernandes e Igor Miranda. Pauta, redação complementar e edição geral por Igor Miranda; redação e apuração adicional por André Luiz Fernandes.

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