Foto: earMUSIC / divulgação

Alice Cooper homenageia sua terra natal no álbum “Detroit Stories”; ouça e leia resenha

Músicos como Wayne Kramer (MC5), Mark Farner (Grand Funk Railroad) e Johnny “Bee” Badanjek (Mitch Ryder & The Detroit Wheels), entre outros, colaboram com Cooper no disco

O vocalista Alice Cooper lançou seu 21° álbum solo nesta sexta-feira (26). Intitulado “Detroit Stories”, o trabalho chega a público por meio da earMUSIC. Os selos nacionais Shinigami Records / Sound City Records disponibilizam o material em CD no Brasil.

Com produção de Bob Ezrin, “Detroit Stories” faz, conforme o título indica, uma série de homenagens a Detroit, cidade dos Estados Unidos onde Alice Cooper nasceu, no dia 4 de fevereiro de 1948. Ainda na infância, ele se mudou para Phoenix, mas a ligação com a terra natal nunca foi deixada de lado.

Dessa forma, quase todo o álbum foi gravado por músicos de Detroit. Entre os nomes convidados, estão Wayne Kramer (guitarrista do MC5), Mark Farner (ex-frontman do Grand Funk Railroad), Paul Randolph (baixista de jazz local) e Johnny “Bee” Badanjek (baterista do Mitch Ryder & The Detroit Wheels), além de músicos do Detroit Horns e backing vocals da cidade.

Há, claro, algumas exceções. O guitarrista Joe Bonamassa, que veio de Utica, Nova York, e gravou solos para a música “Rock ‘N’ Roll”, cover do Velvet Underground que abre a tracklist. Os sobreviventes da Alice Cooper Band – o guitarrista Michael Bruce, o baixista Denis Dunaway e o baterista Neal Smith – também participaram do disco.

Foto: Jenny Risher / earMUSIC

Em press-release, o próprio vocalista comenta:

“Detroit foi o centro do som pesado na época (fim dos anos 60/início dos anos 70). Você ia para o Eastown e tinha Alice Cooper, Ted Nugent, Stooges e The Who por 4 dólares. No fim de semana seguinte, no Grande, tinha MC5, Brownsville Station e Fleetwood Mac, ou Savoy Bryan, ou Small Faces. Não dava para ser uma banda de soft rock, ou seu traseiro seria chutado.

Los Angeles tinha seu som particular com The Doors, Love e Buffalo Springfield. San Francisco tinha Grateful Dead e Jefferson Airplane. Nova York tinha The Rascals e The Velvet Underground. Detroit foi o bero do hard rock nervoso. Após não se encaixar em lugar nenhum dos EUA, o Alice Cooper foi reconhecido apenas em Detroit com seu som hard rock guiado por guitarras e nossos shows insanos. Um paraíso dos excluídos. E quando descobriram que eu havia nascido em East Detroit… estávamos em casa.”

Vale destacar que algumas faixas de “Detroit Stories” já constavam no EP “Breadcrumbs” (2019), que também homenageava Detroit. Outra música conhecida que entrou para o álbum foi “Hanging On By A Thread (Don’t Give Up)”, balada motivacional que Cooper lançou no início da pandemia.

Ouça “Detroit Stories” abaixo, via Spotify, e confira resenha a seguir.

Resenha: Alice Cooper diverte, mas oscila em ‘Detroit Stories’

A ideia por trás de “Detroit Stories” é ótima. De fato, a cidade do estado de Michigan teve uma cena muito prolífica, mas pouco reconhecida em comparação a outros polos americanos como Los Angeles, Nova York e, de forma mais híbrida, Nashville.

A escalação de músicos também era das boas. Não foi possível confirmar qual é a banda de apoio frequente em todo o álbum, mas algumas referências indicam que os competentes Wayne Kramer, Paul Randolph (que morou no Brasil) e Johnny “Bee” Badanjek são os músicos regulares em todo (ou quase todo) o material do disco.

Entretanto, algo parece não ter dado certo por aqui. O que prometia ser um dos álbuns mais versáteis da carreira de Alice Cooper acabou se tornando um trabalho de destaques isolados (especialmente na primeira metade do disco) e algumas repetições ingratas de construções melódicas e rítmicas.

De fato, “Detroit Stories” não é um álbum convencional de Alice. De sonoridade mais direta, não possui o caráter dramático que algumas de suas produções geralmente apresentam. Não à toa, das 15 faixas da tracklist, cinco delas não passam do 3° minuto de duração e apenas duas têm mais de 4 minutos.

A abertura “Rock ‘N’ Roll” é uma das melhores do álbum e coloca a expectativa lá no alto. Trata-se de um cover de Velvet Underground, mas com inspiração na releitura de Mitch Ryder. Além da performance irretocável de Alice e das linhas de bateria precisas de Johnny “Bee” Badanjek, o convidado Joe Bonamassa brilha com seus solos.

“Go Man Go”, a única inédita do EP “Breadcrumbs”, apodera-se da pegada proto-punk que floresceu em Detroit no início dos anos 1970. Boa música. “Our Love Will Change The World”, cover do Outrageous Cherry, dialoga com um lado mais soft, quase alternativo, daquela cena. Embora não seja tão boa quanto as duas primeiras faixas, essa versão tem resultado satisfatório.

https://www.youtube.com/watch?v=C7uakxd4X80

Na sequência, “Social Debris” – que, ao que tudo indica, traz a Alice Cooper Band original – não segura a peteca. Apesar da boa letra, a canção carece de dinâmica, rendendo uma audição chatinha. “$1000 High Heel Shoes”, felizmente, retoma (e eleva) o padrão ao explorar a influência da black music, com muito groove, backing vocals femininos e metais em destaque. Uma das melhores do disco.

“Hail Mary”, por sua vez, convence sua pegada tipicamente classic rock, com refrão grandioso e uma vibração típica do Hollywood Vampires (outro projeto de Alice Cooper). “Detroit City 2021”, releitura de uma faixa lançada por Alice no disco “The Eyes of Alice Cooper” (2003), é mais heavy e também poderia se encaixar nos últimos trabalhos do cantor. Legítima homenagem a Detroit.

“Drunk and in Love” é um dark blues de letra despojada e um baita solo de gaita. Já “Independence Dave”, talvez por estar mal posicionada na tracklist, não chama atenção, pois repete algumas formatações manjadas do blues/classic rock, embora alguns arranjos tentem fugir disso. Divertida, mas começa a fazer a audição do álbum cansar um pouco.

Essa sensação piora com “I Hate You”, que tenta, sem sucesso, emular a vertente punk de Detroit. É uma das músicas mais chatas do álbum, que ensaia uma recuperação na sequência com a balada soturna “Wonderful World” e o enérgico cover de “Sister Anne” (MC5), mas cai de novo com a enfadonha “Hanging On By A Thread (Don’t Give Up)”, outro destaque negativo que só serve para mostrar que, enquanto vocalista, Alice Cooper segue com alcance invejável.

Próxima do fim do álbum, “Shut Up and Rock” resgata o fôlego como um rockão direto, de essência proto-punk – aqui, sim, a influência funcionou. “East Side Story”, cover de Bob Seger, encerra a audição com bons riffs e solos de destaque, mas em temperatura morna.

Fosse reduzido a suas 10 melhores músicas, talvez com alguma boa releitura para chegar a uma duração geral satisfatória, “Detroit Stories” teria convencido mais. Passa longe de ser um trabalho ruim, mas é um daqueles álbuns que você escuta pulando algumas faixas.

A sensação de que dava para fazer mais parece inevitável. Todavia, destaques positivos como as boas releituras de “Rock ‘N’ Roll” e “Sister Anne”, a envolvente “$1000 High Heel Shoes” e as diretas “Go Man Go” e “Shut Up and Rock”, entre outros, indicam que vale a pena, sim, dar uma chance a “Detroit Stories”. Como fã de Alice Cooper, eu darei outras.

“Detroit Stories” está representado em minha playlist de lançamentos, atualizada semanalmente. Siga e dê o play:

Alice Cooper – ‘Detroit Stories’

01. Rock ‘N’ Roll (cover de The Velvet Underground)
02. Go Man Go (Album Version)
03. Our Love Will Change The World (cover de Outrageous Cherry)
04. Social Debris
05. $1000 High Heel Shoes
06. Hail Mary
07. Detroit City 2021 (Album Version)
08. Drunk And In Love
09. Independence Dave
10. I Hate You
11. Wonderful World
12. Sister Anne (Album Version) (cover de MC5)
13. Hanging On By A Thread (Don’t Give Up)
14. Shut Up And Rock
15. East Side Story (Album Version) (cover de Bob Seger)

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