Foto: Josh Cheuse / divulgação

AC/DC faz de ‘Power Up’ uma homenagem digna a Malcolm Young; ouça e leia resenha

O AC/DC lança, nesta sexta-feira (13), por meio da Sony Music, seu novo álbum de estúdio ‘Power Up’. Trata-se do 17° trabalho na discografia da banda, que conseguiu retomar sua formação anterior em meio a diversos problemas nos últimos anos.

O AC/DC lança, nesta sexta-feira (13), por meio da Sony Music, seu novo álbum de estúdio ‘Power Up’. Trata-se do 17° trabalho na discografia da banda, que conseguiu retomar sua formação anterior em meio a diversos problemas nos últimos anos.

O vocalista Brian Johnson, o baterista Phil Rudd e o baixista Cliff Williams voltaram a fazer parte da banda ao lado dos guitarristas Angus Young e Stevie Young. A única ausência da formação que seguiu com o AC/DC por décadas é a de Malcolm Young, que foi afastado do grupo em 2014 devido a seu diagnóstico de demência e faleceu em 2017. A solução foi caseira: Stevie, sobrinho de Angus e Malcolm, ocupou a vaga.

Brian Johnson ficou afastado de parte da turnê do álbum ‘Rock or Bust’ por problemas auditivos e substituído por Axl Rose. Já Phil Rudd esteve fora de toda a tour para prestar contas à Justiça em meio a acusações de porte de drogas e ter planejado um assassinato. Cliff Williams, por sua vez, fez todos os shows de divulgação de ‘Rock or Bust‘, mas anunciou que iria se aposentar após a última apresentação – ele, claro, acabou voltando atrás ao ver que os amigos haviam retornado.

Em entrevistas, os integrantes do AC/DC têm deixado claro que ‘Power Up’ é como uma homenagem a Malcolm Young. “Este álbum é basicamente dedicado a Malcolm, meu irmão. É uma homenagem a ele como ‘Back in Black’ foi uma homenagem a Bon Scott”, afirmou Angus à revista ‘Rolling Stone’.

O álbum foi produzido por Brendan O’Brien, que também trabalhou em ‘Black Ice’ (2008) e ‘Rock or Bust’ (2014), e gravado nos estúdios Warehouse, no Canadá, onde esses dois discos e ‘Stiff Upper Lip’ (2000) também foram feitos. As sessões ocorreram entre agosto e setembro de 2018 e no início de 2019. A ideia era lançar o trabalho nos primeiros meses de 2020, mas a pandemia do novo coronavírus provocou um atraso na agenda.

Ouça ‘Power Up’  abaixo, via Spotify ou YouTube. Confira resenha, publicada com exclusividade na última quarta-feira (11), em seguida.

Resenha: ‘Power Up’ traz AC/DC em plena forma e homenagem justa a Malcolm Young

O AC/DC já provou, em diversas circunstâncias, que opera bem mesmo sob adversidades. Em julho de 1980, lançaram o álbum ‘Back in Black’ apenas 5 meses após perderem o vocalista Bon Scott, falecido após intoxicação alcoólica. Brian Johnson, inclusive, assumiu a vaga nesse disco, que se tornou um clássico e vendeu mais de 29 milhões de cópias no mundo todo, sendo o trabalho fonográfico mais comercializado da história do rock.

Em 2014, a banda já não contava mais com Malcolm Young, mas seu afastamento devido ao quadro avançado de demência foi anunciado apenas naquele ano. ‘Rock or Bust’ foi lançado em novembro, já com Stevie Young na vaga de Malcolm, e soou incrível mesmo sem a participação ativa de um dos principais compositores da banda – embora ele seja creditado como co-autor de todas as faixas.

Mais problemas apareceram, com a incapacidade de Phil Rudd e Brian Johnson de fazerem a turnê de divulgação. Chris Slade, veterano baterista que já fez parte do AC/DC entre 1989 e 1994, e Axl Rose, vocalista do Guns N’ Roses, substituíram os dois músicos. Cliff Williams, na marra, continuou a tour até o fim mesmo com problemas de saúde – que ele não revela, mas que, conforme indicado por Johnson recentemente, também teriam a ver com audição. Com Rose e Slade, as performances ao vivo foram bastante elogiadas.

‘Power Up’ representa que o AC/DC já se tornou maior do que qualquer integrante. A morte de Malcolm Young foi a responsável por reunir Angus a seus, até então, ex-colegas, que estavam em condições melhores, seja de saúde ou perante a lei, do que poucos anos antes. Os caras sabiam que precisariam lançar pelo menos mais um disco em homenagem a Malcolm. E assim o fizeram.

Principais características

Foto: Josh Cheuse / divulgação

Assim como em ‘Back in Black’, não há qualquer mensagem de luto em ‘Power Up’. Aliás, você já sabe o que esperar do AC/DC. Sem surpresas. Rock and roll tipicamente Youngiano, com guitarras na linha de frente, vocais esganiçados e cozinha simplória, mas pulsante.

Apesar das mudanças de sonoridade que a banda atravessou em suas duas primeiras décadas, a brincadeira de que tais músicos lançam o mesmo disco mudando apenas o nome é endossada pelo próprio Angus. “Falam que gravamos o mesmo álbum 11 vezes, mas é mentira: já foram 12 vezes”, zoava o guitarrista já em 1984.

Mais do que nunca, essa sensação se reflete em ‘Power Up’, pois Angus Young deixou claro, em entrevistas, que aproveitou vários riffs engavetados que compôs junto de Malcolm no passado. Boa parte do material, segundo ele, veio das sessões criativas do álbum ‘Black Ice’.

Ainda assim, há alguns diferenciais importantes, especialmente na comparação com ‘Rock or Bust’. Acredite: nem todo disco do AC/DC é totalmente igual ao anterior.

Em ‘Power Up’, os vocais de Brian Johnson estão mais seguros e com uma extensão mais bem trabalhada, talvez, por conta do problema auditivo ter sido superado. Além disso, a dinâmica entre duas guitarras parece estar mais evidente aqui do que em ‘Rock or Bust’, que, em termos de riffs e arranjos, parece ter muito mais Angus do que Stevie.

A influência do estilo de Malcolm também está mais presente em ‘Power Up’, com riffs típicos em cordas mais agudas e uma sonoridade mais clássica, menos pesada que a de ‘Rock or Bust’. Há de se destacar, ainda, que os backing vocals estão mais destacados na mix final e soam até ousados em alguns momentos.

‘Power Up’, faixa a faixa

Foto: divulgação

A abertura do álbum fica a cargo de ‘Realize‘, uma das músicas mais frenéticas do AC/DC em muitos anos, mesmo que não tenha uma batida tão acelerada. A faixa parece busca resgatar a ferocidade da banda nos tempos de Bon Scott, especialmente pelas guitarras. O melhor domínio vocal de Brian Johnson já é observado por aqui.

Mais cadenciada, ‘Rejection‘ soa como AC/DC dos últimos anos em sua construção. O que mais impressiona é como a banda consegue trazer tanto groove mesmo em riffs e batida simples. O refrão é gigante, tipicamente rock de arena. Muito boa.

Já conhecida do público, ‘Shot in the Dark‘, devo admitir, não me empolgou quando foi lançada como single, ainda no começo de outubro – mais especificamente no dia 6, mesma data em que Eddie Van Halen morreu, aliás. Não a escolheria como o primeiro single, embora tenha todos os elementos básicos de uma música de “fácil compreensão” do AC/DC. Dentro do álbum, a faixa faz um pouco mais de sentido e até cresce.

Mais melódica, ‘Through the Mists of Time‘ é quase uma balada – claro, nos irrevogáveis padrões do AC/DC. Em função disso, trata-se do momento mais diferenciado do álbum, ainda que já tenha se tornado tradição fazer uma música nessa linha para cada disco recente da banda. A melodia gruda na cabeça e o refrão é, novamente, gigante.

Brian Johnson disse à ‘Folha de S. Paulo’ que essa música é a que mais o deixa arrepiado no álbum, pois todos se lembravam de Malcolm Young durante a produção. Angus Young, por sua vez, destacou à ‘Rolling Stone’ que a faixa reflete sobre os anos de carreira do AC/DC. Tanto pelos relatos quanto pela música em si, é sempre legal ver a banda em uma pegada diferente.

O padrão é retomado com ‘Kick You When You’re Down‘, música de construção divertida, com foco no groove e em riffs envolventes. A introdução já conquista logo de cara, enquanto o refrão, tipicamente AC/DC, traz os backing vocals bem ativos. Uma das melhores do álbum.

Na sequência, a audição oscila um pouco com ‘Witch’s Spell‘. Sua sonoridade remete diretamente ao álbum ‘Black Ice’, o que oferece uma sensação de “déjà-vu” um pouco mais acentuada que o habitual para o AC/DC. Longe de ser uma música ruim, mas faz o disco perder um pouco o fôlego após tantos destaques.

Por sorte, ‘Demon Fire‘ retoma a pegada de forma efetiva. A música é bem climática e traz uma veia quase cinematográfica, de trilha sonora de filme de ação, em seu andamento. Traz alguns dos melhores riffs do álbum, enquanto o ritmo fica um pouco mais acelerado, compensando algumas faixas anteriores que eram mais cadenciadas.

Wild Reputation‘ é outra clara reminiscente de ‘Black Ice’, mas soa um pouco mais envolvente que ‘Witch’s Spell’. A solidez do baixo de Cliff Williams, que abre a faixa, tem êxito ao guiar a bateria e entrelaçar-se com os riffs de guitarra, tão classicamente Malcolm Young. A estrutura foge um pouco do verso / refrão / verso / refrão / solo / refrão, o que é bom.

No Man’s Land‘ representa outro momento diferenciado de ‘Power Up’, ao apostar em uma veia bluesy, quase southern rock, com seu timbre de guitarra peculiar. Além do refrão novamente grandioso, outra clara demonstração de entrosamento entre Angus e Stevie é oferecida aos ouvintes.

Systems Down‘ volta a dividir um pouco a minha opinião, pois embora aposte em ganchos melódicos fortes na ponte e no refrão, a música não tem riffs de guitarra tão convincentes. ‘Money Shot‘ reverte um pouco essa sensação, com sua letra e construção rítmica divertidas, tão peculiarmente AC/DC.

Angus e seus asseclas guardaram uma das melhores músicas para o final: ‘Code Red‘, que aposta em riffs de impacto e traz uma cozinha forte, ainda que em sua pegada simples de costume. A interpretação vocal de Brian Johnson está endiabrada, tanto nos versos repletos de palavras quanto no refrão típico de arena.

Saldo final

Foto: Josh Cheuse / divulgação

Em casos de bandas com carreira tão consolidada e trabalhos pouco experimentais, como o AC/DC, fica difícil cravar, de imediato, em qual patamar de qualidade um novo álbum está em comparação aos anteriores. Por isso, soa premeditado dizer se ‘Power Up’ é melhor ou pior que ‘Rock or Bust’ ou se supera algum trabalho a partir de ‘The Razors Edge’ (1990), que foi quando o padrão de qualidade do grupo foi retomado após alguns tropeços na década de 80.

Ainda gosto muito ‘Black Ice’, excluindo seus fillers, e ‘Rock or Bust’ por apresentarem dinâmicas ligeiramente distintas a outros momentos da discografia do AC/DC. O segundo, em especial, soa mais pesado e traz uma intensidade que particularmente gosto, mas entendo quem não curta tanto, tendo em vista que há, sim, certa irregularidade na tracklist. ‘Power Up’, por sua vez, soa como um “filho” de ‘Black Ice’, então, quem gostou do álbum de 2008, certamente será cativado pelo trabalho mais recente.

Talvez falte um grande hit em ‘Power Up’ que faça o álbum se sobressair, como a já clássica ‘Rock ‘n’ Roll Train’, de ‘Black Ice’, ou a música ‘Rock or Bust’, que intitula o disco de 2014. Por outro lado, esse novo trabalho parece oscilar um pouco menos em qualidade do que os outros.

Fato é que ‘Power Up’ soa como uma homenagem digna a Malcolm Young e reflete os esforços de uma banda que, a essa altura do campeonato, nem precisaria se dispor a gravar um álbum. É, acima de tudo, uma demonstração de respeito aos fãs que ficaram sem novidades desses caras por um bom tempo.

Caso seja o fechamento da discografia do AC/DC, ‘Power Up’ não fará feio. Se servir como faísca para a banda seguir criando em estúdio, deixando a aposentadoria de lado, melhor ainda. Que esses caras continuem se divertindo e nos divertindo.

* Resenha publicada após audição do material promocional oficial, disponibilizado pela Sony Music Brasil. Ouça ‘Power Up’ nas plataformas de streaming a partir de sexta-feira, 13 de novembro de 2020.

AC/DC – ‘Power Up’

Brian Johnson (vocal)
Angus Young (guitarra solo)
Stevie Young (guitarra base)
Cliff Williams (baixo)
Phil Rudd (bateria)

01. Realize
02. Rejection
03. Shot In The Dark
04. Through The Mists Of Time
05. Kick You When You’re Down
06. Witch’s Spell
07. Demon Fire
08. Wild Reputation
09. No Man’s Land
10. Systems Down
11. Money Shot
12. Code Red

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