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Little Richard, arquiteto do rock cujo legado transcende a música, nos deixou



Little Richard nos deixou. Um dos fundadores do rock and roll como o conhecemos morreu neste sábado (9), aos 87 anos, devido a um câncer nos ossos. A causa não foi informada, mas Danny Penniman confirmou o falecimento do arquiteto do rock and roll à revista Rolling Stone.

O rock and roll é um filho de muitos pais – e mães. Tudo indica que Sister Rosetta Tharpe foi a primeira a realmente praticar, nos anos 1940, a sonoridade mais próxima do que o estilo se tornou na década de 1950. Ela também teve influências – e inspirou muita gente, como o próprio Little Richard.

Nascido em 5 de dezembro de 1932, como o terceiro dos 12 filhos do casal Leva Stewart e Charles “Bud” Penniman, Richard Wayne Penniman foi descoberto aos 14 anos, justamente, por Sister Rosetta Tharpe, em 1947. Ele a citava como sua cantora favorita nos primórdios.

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Foi dos braços de uma mulher religiosa, que também sofreu preconceito por ser quem era, que Little Richard encontrou refúgio pouco antes de ter sido expulso de casa. Charles, o pai, era do tipo fanático religioso e não aprovava o envolvimento de Richard com a música. Pensava que ele era gay. Não aceitaria aquilo dentro de casa.

Rosetta convidou Richard para abrir um de seus shows, pagando seu cachê devidamente. Isso o inspirou a continuar. Dominando o piano, por influência de Ike Turner, Little Richard passou a trabalhar em sua “persona” de palco. Ele chegava a fazer shows como drag queen, sob o pseudônimo Princess LaVonne. Isso no fim da década de 1940, onde o R&B, estilo do músico nos primórdios de sua carreira, era considerada “música do diabo” por sua própria família.

O primeiro contrato com uma gravadora foi assinado em 1951, com a RCA Victor. Depois, em 1952, migrou para a Peacock. Muitos singles foram gravados, mas nenhum emplacava. A consagração veio com a Specialty Records, em 1955, quando o single “Tutti Frutti” foi divulgado.

É difícil resumir, em palavras, o que há de tão impressionante em “Tutti Frutti”. A abertura e o encerramento com a mesma vocalização “a-wop-bop-a-loo-bop-a-wop-bam-boom!”, criada por Little Richard para refletir uma linha de bateria que ele imaginou, ajudam a compreender de forma muito mais efetiva do que qualquer parágrafo chique, analisando questões de teoria musical.

Depois de “Tutti Frutti”, Richard emendou uma série de hits, com “Long Tall Sally”, “Slippin’ and Slidin'”, “Ready Teddy”, “Rip It Up”, “She’s Got It”, “The Girl Can’t Help It”, “Lucille”, “Jenny, Jenny”, “Keep A-Knockin'” e por aí vai. Uma série de hits que ajudariam a mudar a história.

No fim da década de 1950, Little Richard converteu-se à Igreja Adventista do Sétimo Dia e anunciou que seguiria carreira na música gospel, além de ser pastor. Continuou produzido, mas sem emplacar. O retorno à música secular aconteceu em 1962, com uma turnê que chegou a envolver Sam Cooke como atração de abertura e Billy Preston como seu organista.

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Os anos 1960 começaram a mostrar a importância de Little Richard para a música, já que foi uma das maiores influências de ninguém menos que os Beatles – banda que já até abriu show do músico – e Rolling Stones. Richard chegou a ensinar a Paul McCartney como reproduzir suas icônicas vocalizações, quase berrando. Tem noção do que é isso?

Além dos já mencionados Sam Cooke, Beatles e Rolling Stones, nomes como Otis Redding, James Brown e Bo Diddley, só para citar alguns, citam Little Richard como inspiração. Artistas do porte de Elvis Presley, Buddy Holly, Bill Haley, Jerry Lee Lewis, The Everly Brothers, Gene Vincent e Eddie Cochran gravaram músicas dele.

O heavy metal, inclusive, tem uma dívida de gratidão ainda mais direta com Richard do que seus fãs podem pensar: Lemmy Kilmister, do Motörhead, é um dos caras que citam o icônico cantor e pianista como referência.

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Não só por quem influenciou: depois de ter os Beatles como banda de abertura, Little Richard continuou a se entrelaçar com a história do rock como um todo quando, em 1964, sua banda de apoio trazia um guitarrista posteriormente conhecido como Jimi Hendrix. Curiosamente, os dois brigaram algum tempo depois porque Hendrix estava chamando demais a atenção.

Sua carreira passou por muitos altos e baixos, além de diversas ocasiões em que trocou a música secular pela gospel e vice-versa. Na década de 1970, seu som já era considerado “velharia” e passou a fazer parte de turnês “revival”, apesar de ainda realizar apresentações em grandes espaços. Os problemas com drogas atrapalharam bastante a trajetória do músico, especialmente a partir deste período.

Os últimos shows de Little Richard aconteceram em 2014 – sim, ele se apresentou ao vivo até chegar aos 81 anos. Aposentou-se de vez da música e teve poucas aparições, como em 2017, quando concedeu uma entrevista à Christian Three Angels Broadcasting Network e apareceu sem maquiagem e em uma cadeira de rodas.

Little Richard e o legado que transcende a música

Mais uma vez, a história volta a apontar que está errado quem busca restringir o que o outro deve dizer, alegando, por exemplo, que músicos e jornalistas da área não devem falar sobre assuntos fora do espectro, como sociedade de forma geral – incluindo aspectos do debate político. Basta estudar um pouco sobre a história de de Little Richard para entender que nunca foi só sobre música.

Richard foi um dos primeiros artistas negros a fazer sucesso entre os brancos. Em meio a apartheids implícitos na sociedade, seus shows, assim como os de Fats Domino e Chuck Berry, reuniam fãs de ambas as etnias.

Isso só aconteceu na década de 1950, muito tempo após diversos artistas do blues, soul music, gospel e R&B terem iniciado suas carreiras. E, claro, não foram iniciativas muito bem recebidas por parte da sociedade. O Conselho de Cidadãos Brancos do Norte do Alabama – sim, isso existia – chegou a alertar, na TV, que o rock and roll deveria ser banido por “juntar as raças”, especialmente dos estados que ficam ao sul dos Estados Unidos.

É impressionante, inclusive, que Little Richard tenha que agradecer a Elvis Presley, cantor que claramente foi influenciado por ele, a divulgar o trabalho dele e de outros artistas negros. Muito atraso.

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Fora as questões relacionadas à sexualidade. Richard diz ter sido alvo de piadas sobre isso ao longo de toda a juventude. Mesmo quando já havia se consagrado, essa pauta sempre apareceu. Ele diz ter sido gay por toda a vida. Outros veículos o citam como bissexual. Particularmente, não me interessa.

Ainda bem que ele desfrutou de seu legado ainda em vida. Conquistou diversas honrarias, como a indução ao Rock and Roll Hall of Fame (na primeira classe, de 1986), Songwriters Hall of Fame e Blues Hall of Fame, bem como prêmios de honra ao mérito pela American Music Award e National Museum of African American Music e por aí vai. Além, claro, do reconhecimento do público, que lhe rendeu uma fortuna.

Little Richard foi um dos últimos dos grandes nomes do rock and roll da década de 1950 a nos deixar. Agora, ele se junta a Chuck Berry, Elvis Presley, Bill Haley, Fats Domino e tantos outros, além da mãe de todos, Sister Rosetta Tharpe, e se torna uma lenda em definitivo. Que descanse em paz.

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Igor Miranda
Jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital pela Universidade Estácio de Sá. Escreve sobre música desde 2007. Atualmente, é redator do Whiplash.Net, o maior site sobre rock e heavy metal do Brasil. Também é editor-chefe da revista e site Guitarload, para guitarristas, e redator do site Revista Cifras, a página editorial do portal Cifras.

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