“Native Tongue”, o melhor disco do Poison

Em 8 de fevereiro de 1993, o Poison lançou “Native Tongue”, seu melhor disco de estúdio. Não há dúvidas. E há um nome responsável por tamanho êxito: Richie Kotzen, o guitarrista multi-facetado que fez do grupo, praticamente, sua banda solo de luxo.

Antes da chegada de Richie Kotzen, o Poison, internamente, ia mal à medida em que o sucesso aumentava. O antecessor de Kotzen, C.C. DeVille, estava com problemas relacionados às drogas – o clássico clichê do rock and roll – e acabou expulso da banda após uma performance caótica no MTV Video Music Awards (VMA) de 1991, quando DeVille, atrapalhado, “puxou” a música errada e chegou a desconectar sua própria guitarra.

A gafe ao vivo fez com que C.C. DeVille e o vocalista Bret Michaels saíssem na porrada após o show, já nos bastidores. A vaga aberta acabou por ficar com Richie Kotzen, que, naquela época, lançava-se como um músico virtuoso, ancorado no shredding metal.

O Poison, que nunca foi uma banda de grande técnica musical, viu-se diante de um guitarrista muito mais talentoso que seu antecessor. E a medida adotada pela banda naquela ocasião foi incrivelmente sensata: dar completa liberdade para que Richie Kotzen trabalhasse no novo disco.

Como o próprio Kotzen já disse, “Native Tongue” poderia ser, facilmente, seu disco solo. Bret Michaels colaborou com parte das letras e melodias e só. O restante foi assumido por Kotzen: além da composição, guitarra, piano, mandolin, partes do baixo e até vocais de apoio que, eventualmente, se sobressaíam à voz de Michaels. A lista de músicos externos foi a maior até então e incluiu até Billy Powell (Lynyrd Skynyrd) no piano de duas músicas.

Ao deixar a parte criativa no colo de Kotzen, “Native Tongue” tornou-se um disco de musicalidade apuradíssima. O fio musical simplório e festeiro do Poison deu lugar a um hard rock com influências do blues, soul e R&B. Dentro do então falido cenário hair metal, ninguém conseguiu atingir o mesmo patamar de qualidade que o Poison nesse disco.

E só foi possível obter relevância musical em “Native Tongue”, claro, graças às referências de Richie Kotzen, ainda que Bret Michaels também tenha trazido alguma força nesse processo. O álbum tem uma sonoridade muito melódica, com típicas construções musicais da década de 1970, ainda que em uma roupagem relativamente ao estilo Poison.

As power ballads “Stand”, “Until You Suffer Some (Fire and Ice)” e “Theatre Of The Soul”, que caminham para o soul e a música negra em geral, são as que melhor refletem a versatilidade de “Native Tongue”. Os sons mais agitados, como a pesada “The Scream”, a intensa “Stay Alive”, a melódica “7 Days Over You” e a divertida “Bastard Son of a Thousand Blues” também mostram que o som havia mudado – e para melhor.

Apesar de toda a qualidade envolvida, “Native Tongue” teve uma resposta comercial apenas mediana, se comparado aos antecessores. O momento não era prolífico para o hard rock e, por isso, o álbum foi o primeiro a não chegar no top 3 dos Estados Unidos – atingiu a posição de número 16, além de ter conquistado disco de ouro. Nenhum single emplacou de fato. Por outro lado, a repercussão ainda foi melhor que a de muitos outros trabalhos do mesmo gênero naquela época.

A parceria entre Poison e Richie Kotzen acabou mal, com a expulsão do guitarrista, no meio da turnê que promovia “Native Tongue”, após um suposto romance entre ele e a então noiva de Rikki Rockett. O músico alega que a história foi “sensacionalizada”.

Apesar das circunstâncias bizarras pré e pós-disco, “Native Tongue” é, reafirmo, o melhor álbum do Poison. E mesmo com um quarto de século desde seu lançamento, ainda soa sincero e relevante.

Bret Michaels (vocal, guitarra, violão, gaita)
Richie Kotzen (guitarra, piano, mandolin, dobro, backing vocals)
Bobby Dall (baixo, backing vocals)
Rikki Rockett (bateria, percussão)

Músicos adicionais:
Jai Winding (piano nas faixas 3 e 11)
Billy Powell (piano nas faixas 8 e 15)
Mike Finnegan (órgão na faixa 5)
Tower of Power (sopros na faixa 8)
Timothy B. Schmit e Tommy Funderburk (backing vocals)
First AME Church Choir (corais na faixa 3)
Shelia E. (percussão nas faixas 1 e 2)

1. Native Tongue
2. The Scream
3. Stand
4. Stay Alive
5. Until You Suffer Some (Fire and Ice)
6. Body Talk
7. Bring It Home
8. 7 Days Over You
9. Richie’s Acoustic Thang
10. Ain’t That The Truth
11. Theatre of The Soul
12. Strike Up The Band
13. Ride Child Ride
14. Blind Faith
15. Bastard Son Of A Thousand Blues

2 comentários
  1. rememorei este disco ontem e, com certeza, concordo com a boa, profunda e completa analise quase totalmente, apesar de achar “flesh and blood” o melhor trabalho da banda, unindo as caracteristicas oitentistas da banda à um maior apuro tecnico, que já vinha se desenhando em 1990 nas mãos do otimo produtor bruce fairburn e da pressão interna nos musicos a se mostrarem mais maduros, principalmente em virtude da falta de reconhecimento da critica especializada da época. sem duvida a influencia de kotzen foi grande no direcionamento de “native tongue” mas, hoje, sabemos que a contribuição do resto da banda, principalmente de bret michaels, foi relevante ele que, apesar de não ser dos musicos mais talentosos daquela geração, como tom keifer ou jani lane por exemplo, sempre se esforçou em crescer e mostrar evolução profissional tanto em seu canto (que melhorou muito com o tempo) quanto em sua musicalidade

  2. Eu gosto muito do Poison oitentista, mas tenho que concordar com essa análise. Native Tongue é o melhor álbum do Poison em termos de qualidade musical. Como o próprio Richie já revelou diversas vezes, quando ele foi às audições do Poison, ele achou que tiraria de letra todas as músicas já que ele estava cansado de ouvir Poison no rádio e na MTV. Só que não! Ele errou todas as músicas! Mas o Bret Michaels disse: olha cara, eu sei que você é um guitarrista foda, mas você não tá acertando nada… Vc tem alguma música sua pra tocar pra gente? Aí o Richie tocou Stand e Until You Suffer Some (Fire and Ice).
    No fim, gravaram Native Tongue e o Richie Kotzen deu ao álbum a cara dele: uma qualidade musical impressionante (comparando com outros trabalhos do Poison, uma p. qualidade).
    E eu, desde quando comprei meu disco, lá nos idos de 1999, só tenho a agradecer ao Poison por me apresentar Richie Kotzen.
    Hoje, quase 23 anos depois, Richie Kotzen tem vários projetos massa (Smith/Kotzen, The Winery Dogs), além de uma obra/carreira solo impecável!

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