Às 22h13, depois de “The Place”, décima primeira música executada pelo Sepultura naquela quinta-feira (5), já havia pelo menos sete ocasiões em que o público do Cine Joia gritara “Sepultura! Sepultura!” ao fim de uma canção. Não era pouca coisa para uma apresentação que, embora carregasse o peso simbólico de ser a penúltima da carreira do grupo — não à toa batizada “The Last Ceremony” —, tinha uma proposta quase despretensiosa diante da despedida definitiva marcada para sábado (7), na Suhai Music Hall, também em São Paulo.
No bota-fora marcado para o fim de semana, haverá atrações internacionais de abertura, convidados especiais — incluindo ex-membros — e uma grande produção, ainda que os planos de tocar em um estádio (Pacaembu) tenham sido abortados em prol de uma casa com menos da metade da capacidade. Na última quinta (5), foi puramente Sepultura. Derrick Green no vocal (e na segunda guitarra em “Mindwar”), Andreas Kisser na guitarra, Paulo Jr no baixo e Greyson Nekrutman na bateria, munidos de um repertório irretocável de quase duas horas e de uma iluminação climática, terror aos fotógrafos à parte. “Só” isso. Não precisava de mais nada além.

A ocasião no Cine Joia era para fãs inveterados. Alguns deles, a maior parte dos que foram consultados pela reportagem, já até haviam comprado ingresso para o sábado (7), mas investiram entre R$ 200 e R$ 400 para assistir o grupo pela penúltima vez. O grande atrativo estava em conferir a performance numa casa com capacidade para pouco menos de mil pessoas. Embora as entradas não tenham se esgotado, o local estava bem cheio.
Ciente de que era um show mais intimista e de configuração crua, o Sepultura caprichou nas escolhas de repertório. Das 22 músicas tocadas, 15 vieram da fase Max Cavalera, com destaque aos álbuns “Roots” (1996), com cinco faixas cedidas, e “Arise” (1991) e “Beneath the Remains” (1989), com três cada. Uma dessas canções é, na verdade, um cover dessa era: “Orgasmatron”, original do Motörhead, na posição que originalmente era de “Slave New World”, cortada desta noite. Dos tempos de Derrick Green, sete exemplares, em geral mais enérgicos. Curiosamente, apenas uma dos discos gravados com o baterista Eloy Casagrande: “Means to an End”.

O set, aliás, começou com uma trinca frenética de “Arise” (a faixa-título, “Dead Embryonic Cells” e “Desperate Cry”) e outra de “Beneath the Remains” (faixa-título, “Inner Self” e “Mass Hypnosis”). Esta última foi executada ao vivo pela primeira vez desde 2019 e contou com raras aparições antes disso. Pareceu ter deixado alguns fãs estarrecidos. As seis mencionadas mobilizaram rodas enormes e renderam, ao fim, os mencionados gritos de “Sepultura! Sepultura!”.
Derrick, em português, comentou a satisfação de realizar um show tão íntimo, diante de familiares e amigos. Também introduziu “All Souls Rising”, uma das três faixas do EP de despedida do grupo, “The Cloud of Unknowing” (2026), a surgir naquela noite. A composição resume bem a complexidade que a banda alcançou nos anos recentes: peso extremo, arranjos sofisticados e intervenções orquestrais acompanhadas pela plateia com palminhas.

A seguinte, “Kairos”, pode ser creditada como o maior clássico da era Derrick Green. Antes de “Mindwar”, Andreas fez uma homenagem particularmente significativa ao cantor, a quem chamou pelo apelido de Fumaça. Agradeceu pelos anos de parceria e revelou que o vocalista trouxe a guitarra de volta às apresentações desta turnê de despedida. O som ficou mais encorpado, dando razão às reclamações históricas de alguns fãs que sentiam falta do segundo instrumento em bases — embora Kisser seja um raríssimo exemplo no metal a preencher todo o som sozinho.

A sequência com “Against” reforçou a importância dessa fase. Ao introduzí-la, Andreas lembrou que o álbum homônimo de 1998 deu ao grupo força para continuar “contra tudo e contra todos”. Ruptura à parte, o Sepultura sobreviveu. E pulsa forte na presença de Green, um frontman subestimado justamente devido à posição que ocupa. “The Place” contou com uma apresentação a Greyson Nekrutman, que, nas palavras de Kisser, “entrou em uma roubada” ao entrar para o grupo três semanas antes da turnê de despedida e “toca de tudo, até Charlie Brown Jr”.

Findada “Means to an End” — com direito a uma garotinha no palco —, era hora de outra trinca do passado: “Roots” foi representado neste bloco por “Breed Apart”, influenciada por manguebeat; “Attitude”, momento mais ensandecido até ali; e “Dusted”, aceno ao nu metal que fez a plateia mais pular do que moshar. Um contraste curioso com “Beyond the Dream”, balada do EP mais recente logo na sequência.

A reta final recuperou a agressividade com “Territory” e “Biotech is Godzilla”, duas composições de “Chaos A.D.” (1993) que mesclam peso em som e letra, dados os versos carregados de crítica social. Não por acaso, rolaram gritos de “ei, Bolsonaro, vai tomar no c*” na plateia. Como citado, “Slave New World” deu lugar a “Orgasmatron”, do Motörhead, em uma decisão aparentemente improvisada. O público vinha pedindo a música, logo, a troca agradou. Na parte final, não havia como desagradar: “Refuse/Resist” no encerramento do set regular — com direito a fazer foto junto da plateia ao fim — e retorno para o bis com solo de bateria, fragmento de “Ratamahatta” e a catártica “Roots Bloody Roots”.
Soa poético haver uma pré-despedida, após uma turnê de “adeus” com mais de dois anos de duração, justo em um espaço desse tamanho (muito possivelmente o menor de toda a tour) e com um repertório tão próximo do ideal para esse tipo de ocasião. Faz-se necessário subir o sarrafo para que o bota-fora definitivo, de sábado (7), seja tão lendário quanto. Mas não há dúvidas de que a maior banda da história do metal brasileiro irá conseguir tal façanha.

Sepultura — ao vivo em São Paulo
- Local: Cine Joia
- Data: 5 de novembro de 2026
- Turnê: Celebrating Life Through Death
Repertório:
1. Arise
2. Dead Embryonic Cells
3. Desperate Cry
4. Beneath the Remains
5. Inner Self
6. Mass Hypnosis
7. All Souls Rising
8. Kairos
9. Mindwar
10. Against
11. The Place
12. Means to an End
13. Breed Apart
14. Attitude
15. Dusted
16. Beyond the Dream
17. Territory
18. Biotech is Godzilla
19. Orgasmatron (Motörhead, trecho)
20. Refuse/Resist
Bis:
21. Solo de bateria
22. Ratamahatta (trecho)
23. Roots Bloody Roots

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