A turnê que Michale Graves faria pelo Brasil, com cinco shows entre quarta-feira (23) e domingo (27), foi cancelada em meio a protestos. O ex-vocalista do Misfits passaria por Porto Alegre (23/09), Florianópolis (24/09, John Bull), Curitiba (25/09, Basement Cultural) e São Paulo (26/09, acústico na Galeria do Rock, e 27/09, Hangar 110).
A produtora Caveira Velha, responsável pelo giro, afirmou nesta terça-feira (22) ter tomado a decisão “em compromisso com a segurança do público e de toda a equipe de produção”. Reembolsos de ingressos comprados online serão feitos automaticamente, enquanto que, em aquisições nos pontos físicos, será necessário ir ao local para reaver o valor.
Na última semana, a Ação Antifascista Social havia convocado uma manifestação presencial em frente ao local do primeiro show — Espaço Marin, em Porto Alegre —, na quarta (23), caso o evento não fosse suspenso. O deputado estadual Leonel Radde (PT-RS) chegou a anunciar que a apresentação na capital gaúcha não ocorreria mais, em uma “vitória dos antifascistas”.
O motivo reside em posicionamentos políticos anteriores de Graves. Em 2020, o ex-vocalista do Misfits demonstrou apoio ao grupo Proud Boys — definido como “extrema direita” e “neofascista” por fontes distintas — em postagem apagada das redes sociais.
O artista também se mostrou favorável às ações de 6 de janeiro de 2021, nas quais apoiadores do então ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, invadiram o Capitólio, em Washington, em protesto contra a eleição de Joe Biden.
Ao convocar a manifestação em Porto Alegre, a Ação Antifascista Social declarou:
“Em 2020, Michale declarou apoio ao grupo supremacista branco e neonazista estadunidense Proud Boys. Inclusive deu depoimento a favor do grupo no julgamento após a invasão golpista ao Capitólio dos EUA. […] Algumas pessoas entraram em contato com o Espaço Marin denunciando o show racista. A resposta da gerência do espaço foi que não tinham como fazer nada pois se reincidirem o contrato com a produtora o valor da multa é muito alto. Mais alto é o custo de sustentar um show racista denunciado no mundo todo. Se o show se manter, os antifascistas de Porto Alegre estão marcando uma manifestação contra o racismo para o dia 23, em frente ao Espaço Marin. Não aceitaremos apologia ao supremacismo branco, ao racismo em cima de palco nenhum da cidade.”
Já no domingo (20), o mesmo perfil publicou:
“Vitória da mobilização antifascista! Foi cancelado o show do supremacista branco Michale Graves, que aconteceria no Espaço Marin, no dia 23 de setembro. Michale Graves é vinculado ao grupo supremacista branco Proud Boys. Não aceitaremos nem um palco para nazista em Porto Alegre. Que o Brasil todo se revolte contra esta turnê, produzida pela Caveira Velha Produções. E que avancemos na nossa revolta para correr qualquer fascista de todos espaços de poder. Dos cargos, dos cofres, dos latifúndios, dos palácios e especialmente das ruas.”
Leonel Radde também se manifestou. Em postagem nas redes, o deputado afirmou:
“A mobilização popular e a firmeza da militância antifascista deram o recado direto: Porto Alegre não é palco para figurinhas ligadas ao neonazismo! O show do Michale Graves foi CANCELADO! Não daremos um passo atrás na resistência aos fascistas!”
O que diz Michale Graves
Michale Graves ainda não se manifestou, especificamente, sobre os shows cancelados no Brasil. No entanto, quando teve datas canceladas na Inglaterra devido à pressão popular, em fevereiro último, ele afirmou “respeitar que as pessoas possam ter opiniões diferentes ou optar por não comparecer aos shows” e garantiu que suas apresentações “são sobre música, comunidade e paixão compartilhada”, sem promoção a “violência, ódio ou danos”.
Sobre o vínculo com o Proud Boys, em entrevista de 2022 ao jornalista Marcelo Vieira, Michale declarou:
“O Proud Boys atua mais no campo ideológico, sem qualquer participação na violência que vinha tomando conta do país. Eu já conhecia pessoas do alto escalão do grupo, e outras coisas que aconteceram me levaram a ingressar. Me juntar ao Proud Boys foi a minha maneira de dizer que este é o lado que escolho; o lado da não violência. Foi também como uma forma de representar o grupo e as pessoas daquele grupo para os mais jovens que também se identificam com essa ideologia; chegar até eles e ser uma espécie de líder e mentor para eles, para que não usem da violência e tomem as decisões certas. Muito do meu trabalho se dá no campo espiritual. Sou um cristão convertido, aceitei Jesus Cristo como meu Senhor e Salvador. Então me sento com muitos desses jovens para conversar sobre espiritualidade, tomada de decisões e também coordenar, com membros do Black Lives Matter e Antifa, essa coisa de que a violência tem que parar. Chega de assassinatos nas ruas.”
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